Acordei indisposto de mais uma noite turbulenta e mal dormida. Tive pesadelos, principalmente com alguém do passado, que para mim hoje é uma pessoa morta, mas infelizmente as lembranças ainda me atormentam. Mas tenho que levantar porque a semana será bem movimentada por conta do aniversário da tia Leide. Olho para o lado e vejo o convite em cima do criado-mudo. O sol brilhava lá fora, e lá vou eu viver mais um dia no automático porque os meus filhos são o meu inferno aqui em casa. Fiz a minha higiene, vesti a minha armadura, que é o meu terno, e desci para a sala, onde a minha governanta me olha apreensiva.
- Algum problema, senhora Raquel? - pergunto.
- Senhor Haniel, ainda bem que acordou. Gael e Talita fizeram greve para não ir para a escola, e a cuidadora deles pediu demissão por não aguentar tanta má-criação.
- Que inferno de vida! Será que eu nunca vou ter paz com esses dois? Juro que eu tenho vontade de sumir. Eles têm tudo, não falta nada para eles. - Comento indignado.
- Senhor Haniel, desculpa me meter, falta algo sim para eles: a sua atenção. Desde que a senhora Cíntia os abandonou, tudo desmoronou e as crianças perderam o senhor também - Raquel fala, e as suas palavras me acertaram em cheio. Eu me defendo:
- O que eles têm é somente rebeldia e falta de disciplina. Contrate outra pessoa, alguém de pulso-firme para dar um jeito neles.
- Senhor, não seja tão duro com eles - Raquel pede.
- Raquel, eu não tenho tempo para perder com eles. Não sei lidar com crises de dois adolescentes mimados.
Ordenei a Raquel que contratasse alguma mulher que fizesse o papel de babá e que fizesse por eles o que a mãe nunca fez. Já bastante estressado, fui acordá-los. Bati primeiro na porta do quarto do Gael.
- Saia desse quarto, Gael! Você só tem 5 minutos para sair, se não vou retirar o seu celular de você! - Grito alto enquanto bato forte na porta.
- Você lembrou que eu existo? Posso ir à escola, mas não vou estudar - Gael fala, me encarando.
- Não teste a minha paciência, Gael. O motorista está à espera - falo, indo para o quarto da Talita.
Fui em direção ao quarto da Talita, e a mesma já abriu logo a porta chorando e me abraçou.
- Pai, eu quero um abraço - Talita se agarra em mim.
- Talita, se arrume para ir para a aula - ordeno, tocando os cabelos dela.
- Só veio aqui para nos pedir isso? - Talita pergunta, enxugando as lágrimas.
- É o básico que vocês podem me dar: estudar, Talita. Lugar de criança é na escola. Se ousarem desrespeitar a nova cuidadora, irei mandá-los para o internato.
Falo saindo do corredor com o coração cheio de mágoa e rancor. Não consigo amá-los como antes. Meus filhos eram a minha alegria e hoje só existe um profundo desgosto deles. A empregada Anita apareceu no corredor.
- Senhor Haniel, o seu café já está na mesa - Anita me encara.
- Não quero - falo ríspido.
Fui logo para o trabalho e no caminho bate um pouco de arrependimento de ter falado com os meus filhos daquele jeito. Eu me tranquei nessa vida amargurado e trouxe todo mundo comigo. A nossa vida nunca mais foi a mesma e sempre fiz de tudo para ninguém saber o inferno que eu vivo dentro da minha casa com eles, porque fora dela sorrimos para mostrar que estamos bem.
Sinto que perdi o controle de tudo e não sei por onde começar a organizar a nossa vida. Fujo ter contato com Gael e Talita porque no fim tudo termina em discussão e não sei criá-los como deveria. Enxugo algumas lágrimas que escorrem pelos meus olhos, porque chorar para mim também é fraqueza.
Ao chegar no grupo Dylon, entrei firme porque a minha família toda trabalha aqui, e para quem pergunta como vou, a resposta é sempre a mesma: que estou bem. Caí de cabeça no trabalho e nos números. Formado em economia e contabilidade, herdei o trono do meu pai de ficar à frente do financeiro, enquanto Dylon ficou na presidência. Por ainda não ter substituto, nem em sonho posso abandonar o cargo, embora haja horas em que eu tenho vontade de fugir de tudo e todos.
Trabalhei por algumas horas. Raquel avisou que Gael e Talita foram para a escola e que o anúncio da nova cuidadora foi colocado nos quadros de anúncios. Uma tensão cai sobre os meus ombros, e não é problemas profissionais, e sim pessoal.
A noite chegou e só me restava ir jogar tênis no clube. Fui após terminar o expediente e encontrei Dylon por aqui. Jogamos algumas partidas e conversamos sobre o assunto do momento, que é o grande aniversário da minha tia. Assim como Dylon, a minha vontade de comparecer a esse evento é mínima, mas enfim, não tenho outra saída.
Quando cheguei em casa, Anita me esperava próximo à garagem, coisa que não é comum, e eu fiquei um pouco desconfiado com a sua atitude.
- Boa noite, senhor Haniel, preciso conversar com o senhor - ela fala envergonhada.
- Seja breve, estou cansado.
- É sobre o Gael, o seu filho. Ele foi expulso da escola. Ele chegou mais cedo e a governanta Raquel combinou com ele de não falar isso para o senhor - Anita confessa se aproximando de mim.
- Não acredito nisso! Vou conversar agora com a senhora Raquel, odeio mentiras. - Falei bravo.
- Senhor, por favor, não diga que eu lhe contei porque a mesma pode me despedir - Anita pede.
- Tudo bem, não se preocupe - falo, virando as costas para Anita.
Agora Gael irá se ver comigo. Esse menino só me traz problemas e muitas decepções. Subi para o seu quarto, e a governanta Raquel me acompanhou desesperada.
- O senhor não vai jantar? - Raquel pergunta.
- Não vou, enquanto não saber a causa da expulsão do Gael. - Falo subindo as escadas rápido.
- Pelo amor de deus senhor Haniel.
Não quis ouvir o lamento da governanta Raquel, a minha conversa agora era somente com gael.