Livros e Histórias de Cecilia
Renascida da Cinzas: O Fim do Pesadelo
O cheiro do perfume dela de repente me sufocou, um aroma doce e enjoativo que me transportou para um pesadelo já vivido. Minha vida perfeita, prestes a ser selada com Lucas, o homem que eu amava, desmoronou diante dos meus olhos na joalheria onde escolhemos nossas alianças. Lá estavam eles, Lucas e Patrícia, rindo, com meu noivo a abraçando, sussurrando segredos em seu ouvido enquanto a risada dela ecoava pela loja. Eu senti o gosto amargo do choque e da traição, mas o que me atingiu mais forte foi a memória brutal de um futuro que eu já havia suportado. Na minha vida passada, eu os confrontei, gritei a verdade sobre a doença dela para proteger Lucas, mas minha intervenção só selou meu destino. Patrícia, humilhada, tirou a própria vida. E Lucas, o "homem" que eu tentei salvar, me culpou por isso. Ele me torturou, me trancou em um porão úmido e mofado, e sua dor se transformou em uma crueldade inimaginável, terminando em uma morte lenta e agonizante pelas mãos dele. A última coisa que vi foram seus olhos, frios e vazios de remorso. Mas então, eu renasci. Acordei meses antes, no dia em que Lucas me pediu em casamento, com a chance de reescrever meu destino. Desta vez, vendo os dois na joalheria, eu não atravessei a rua. Desta vez, meu coração batia com a pulsação fria e constante da vingança. Desta vez, eu não seria a vítima.
A Farsa do Amor Perfeito
Nosso casamento de cinco anos, com Pedro, era a inveja de todos, uma união tida como perfeita. Até o dia em que um acidente de carro me levou ao hospital, grávida de três meses e precisando de uma cirurgia urgente. Eu tentava ligar para Pedro para assinar o consentimento, mas só dava caixa postal. Então, uma enfermeira me mostrou um vídeo que viralizou na internet: Pedro, ajoelhado, pedindo Clara, minha própria irmã, em casamento. Aquele foi o estopim de uma farsa que se revelaria ainda mais cruel. A dor física mal se comparava ao vazio gelado que me atingiu; a perfeição era uma ilusão, e eu, a última a saber. Pedro chegou, encenando preocupação, mas suas mãos frias e sua voz falsa me reviravam o estômago. Eu estava exausta demais para confrontá-lo, mas uma frieza calculista começou a tomar conta de mim. Dias depois, aproveitei um momento de descuido dele e imprimi um "Acordo de Divórcio", enganando-o para que assinasse, usando a mesma doçura manipuladora que ele sempre esperou de mim. Enquanto ele saía, confiante, eu sabia que o primeiro passo da minha vingança estava dado. Ainda no cartório, recebo uma ligação de Sofia, assistente de Clara, informando que minha irmã havia desmaiado e estava indo para o hospital, com Pedro a acompanhando, claro. Foi a prova que eu precisava. De volta em casa, arrombei a porta de seu escritório e, com a data de aniversário de Clara, abri o cofre. Lá, encontrei o contrato de casamento entre Pedro e Clara, os papéis da minha adoção, fotos e vídeos da obsessão dele por ela, além de áudios onde ele confessava: "Eu me casei com o reflexo, mas eu quero o original. Eu quero você." Eu não era uma ponte; eu era apenas uma substituta, e meu casamento perfeito, uma peça cruel. A raiva me impulsionou. Limpei cada vestígio dele da minha vida, joguei fora presentes e o perfume dele no vaso sanitário, sentindo uma liberdade gélida. Naquela noite, ele estava com Clara, e no dia seguinte, descobri que ele compraria a joia mais cara dela, o "Coração Eterno", no leilão. "Você está lindo" , eu disse, enquanto ele se preparava para ir ao leilão. "Obrigado, amor. É um evento importante, preciso causar uma boa impressão." "Vá. E boa sorte", as últimas palavras de uma esposa. Peguei minha mala e chamei um táxi; eu também tinha um evento importante para ir, o mesmo que o dele.
Sofia: A Escolha
Meus olhos se abriram. O cheiro de lavanda, o tique-taque do relógio. Tudo familiar, mas algo estava terrivelmente errado. Eu tinha 27 anos de novo, jovem e sem rugas, mas a memória da minha vida anterior me atingiu como uma onda avassaladora. Anos de dedicação cega a Lucas, meu marido 'magnata', e aos nossos filhos, Pedro e Isabela, que idealizavam Beatriz, o primeiro amor dele. Minha vida terminou sozinha, esquecida num asilo. Desta vez, não serei a tola. Liguei para Beatriz. "Vou me divorciar do Lucas. Entrego tudo: ele, as crianças, a casa." Ela tentou disfarçar, mas vi a ganância em seus olhos. O pesadelo se concretizou. Meus próprios filhos, Pedro e Isabela, que eu amava mais que tudo, gritavam: "Não queremos você! Queremos a Tia Bia! A mamãe é má!" E Lucas? Ele me tratava com frieza, sem sequer me olhar. A dor era insuportável. Mas o fundo do poço veio quando eles mesmos, manipulados por Beatriz, me forçaram a comer amendoim – eu, alérgica! Lucas me segurou enquanto Beatriz enfiou a pasta na minha boca. Eu desmaiei. E o pior: acordei ouvindo meus filhos desejarem minha morte. "Aí a tia Bia pode ser nossa mamãe para sempre." Naquele instante, a mãe em mim morreu. Eu estava quebrada, mas renascida. Na escuridão do poço do elevador, onde fui abandonada por Lucas para salvar Beatriz, eu entendi: não há nada a salvar, nada a lutar. E sozinha, com o corpo ferido, mas a alma livre, decidi. Eu sobreviveria. Por mim mesma.
O Último Suspiro Por Amor
O telefone tocou, cortando a monotonia do meu escritório, um número desconhecido que eu ignorei. Tinha relatórios para terminar, pilhas de dívidas me sufocando. Mas ele tocou de novo, incessantemente, até que, na quarta vez, atendi. "Sua filha, Sofia, sofreu um acidente na piscina durante o treino. Ela está em estado grave." O mundo parou. Liguei para Renata, minha esposa, repetidamente, mas só caía na caixa postal. O pânico borbulhava, insuportável. Lembrei-me de um comentário vago sobre uma festa para o filho do ex-namorado dela. Corri para o carro, o coração martelando, e dirigi sem rumo até o encontrei: um salão de festas luxuoso. Entre as risadas e o champanhe, lá estava ela, radiante, com um vestido de grife e joias caras. Renata sorria ao lado de Gustavo e do filho dele, Tiago. Agarrei-a pelo braço, a voz rouca: "A Sofia… Ela sofreu um acidente. Está no hospital." O sorriso dela desapareceu, substituído por irritação. "Não pode esperar? A festa do Tiago está no auge. Não estrague tudo." Um soco no estômago. Minha filha entre a vida e a morte, e ela preocupada com uma festa. Desesperado, eu disse: "Ela precisa de nós, Renata." "Vá você primeiro, eu vou depois que a festa acabar. Não deve ser nada demais, a Sofia é forte." Ela me deu as costas, pegou outra taça de champanhe e voltou a sorrir para Tiago. Naquele momento, algo em mim se quebrou. Eu estava desolado. E Sofia também. Horas depois, no hospital, o médico disse: "Perdemos a Sofia." Caí de joelhos, quebrado. Peguei o celular e vi a foto de Renata no meu feed: "Celebrando o futuro brilhante do meu menino!" Meu menino. Uma fúria cega me dominou. Atirei o celular na parede. Um grito animalesco irrompeu de mim, um som de dor e raiva. Então ouvi a voz dela vindo do corredor: "Eu não acredito que o Marcelo fez isso! Ele estragou tudo! O Tiago ficou chateado. Todo aquele dinheiro que gastei com o Tiago… O Marcelo pensa que a dívida é por causa dos tratamentos médicos dele. Mal sabe ele." A dívida. As horas extras. Os sacrifícios de Sofia. Tudo por uma mentira que custou a vida da minha filha. A dor virou gelo. Uma semente de vingança brotou em meu peito.
O Cirurgião e a Mentira: Sangue nas Mãos do Poder
O carro fúnebre parou, a chuva fina a molhar o vidro. O funeral da minha mãe tinha acabado, mas mal. Minha mãe entrou no hospital para uma fratura simples. Saiu de lá num caixão. O meu marido, Pedro, ao volante, defendia o pai cirurgião, o Dr. Tiago, diretor do hospital. Dizia que o "melhor" do pai não foi suficiente. Ele, o grande cirurgião, não conseguiu salvar a minha mãe após a cirurgia que ele mesmo fez. Fui tratada com indiferença pela família deles, como se a dor da minha mãe fosse um mero inconveniente. Pedro e a minha cunhada, Sofia, consideravam-na apenas um "assunto menor". Como assim, um assunto menor? A minha mãe gritou de dor durante horas enquanto a ignoravam. Minha cabeça estava onde devia. Eu sabia que algo estava errado, que a morte dela não era um simples "acidente". A raiva e a dor borbulhavam, culminando num ultimato: "Vamos divorciar-nos." Pedro reagiu com fúria, os olhos arregalados, defendendo cegamente o pai. Ele me acusava de loucura, de egoísmo, de não ter compaixão. Mas a compaixão deles, onde estava quando minha mãe precisava? Não havia nada mais para conversar. "Eu quero o divórcio, Pedro. É a minha decisão final." Quando eu sentia que o mundo desabava e estava completamente sozinha, o meu telemóvel vibrou. Uma mensagem de um número desconhecido: "Eu sei o que aconteceu à sua mãe. Não foi um acidente. Encontre-me." O meu coração parou. A verdade estava lá fora, e eu ia buscá-la.
Quando o Amor Chega Tarde Demais
Abri os olhos. Não estava no Cabo da Roca, mas sim na suíte nupcial do Hotel Ritz, a noite do meu casamento com a Sofia. Tinha voltado. Mas não para mim. Mas para ela. Tinha de cumprir os três desejos não ditos da Sofia, os três maiores arrependimentos que a atormentaram na primeira vida: anular este casamento, desafiar a vontade do pai dela, e garantir a felicidade de Lucas, o homem que ela amava. Para a libertar, manipulei-a a assinar o divórcio, aguentei a sua crueldade quando me mandou mergulhar no mar gelado por um relógio de Lucas e fui atacado pelo seu carro, ao tentar salvá-la de si mesma depois de um reencontro fatídico com ele. Deixei Lucas colher os louros por ter salvo o pai dela de um incêndio e doei o meu próprio sangue, mesmo com a perna partida, para salvar a vida do meu rival. Cada ato de sacrifício era uma facada no peito, mas eu suportava, acreditando que a sua cegueira, manipulada pelo Lucas, um dia se dissiparia. Seria a felicidade dela digna de tanto sofrimento? Mas quando Lucas, num acesso de fúria, a empurrou pelas escadas, foi ela que se atirou à minha frente. E nesse instante de desespero, percebi que a minha missão, e a nossa última parte, estava finalmente a começar-não para a felicidade dela, mas para a minha, a libertação de uma paixão que tanto me custou.
