Quando atendi aquele telefonema do meu pai, no fundo, eu já sabia. Na noite anterior ao acidente, tive um sonho estranho. Nele, meu irmão me olhava com uma expressão que eu nunca havia visto antes, pesarosa, calma e infinitamente triste. Ele me pedia para ter paciência com nosso pai, para tentar perdoá-lo. Eu não entendi na hora, mas os olhos verdes de Pietro estavam diferentes. Ele sorriu, e eu senti uma pontada profunda no peito. Uma dor dilacerante que me arrancou do sono aos gritos.
No minuto seguinte, o telefone tocou e meu mundo desabou.
O destino, esse canalha impiedoso, já havia me arrancado minha mãe cinco anos atrás. Achei que nada mais pudesse me derrubar da forma como aquela perda me destruiu. Mas estava errado. O universo ainda tinha mais uma peça a mover e, dessa vez, foi meu irmão. Meu melhor amigo, meu espelho.
Pietro Spinola era tudo que eu nunca fui: gentil, generoso, esperançoso. E agora estava ali... imóvel, com o corpo frio e a expressão serena demais para quem havia vivido com tanta intensidade. O homem que costumava gargalhar alto, chorar pelos filmes da Disney e abraçar forte como se o mundo pudesse desmoronar a qualquer segundo... agora jazia sob um caixão fechado.
A chuva caía sobre o cemitério com uma constância dolorosa. O cheiro da terra molhada me invadia as narinas enquanto o vento cortava minha pele como navalhas. Mas eu não me movia. Não queria sair dali, me recusava a aceitar.
Desviei os olhos do caixão e vi Catarina, minha sobrinha, sendo amparada pela mãe. Meu coração se partiu mais uma vez. Eu queria correr até ela, abraçá-la, prometer que tudo ficaria bem. Mas não consegui. Porque nem eu acreditava nisso.
Dentro de mim, havia um grito. Um urro desesperado que não encontrava voz. Eu não era mais um homem, eu era uma sombra, um corpo vestido de luto.
Ali, diante do túmulo do meu irmão, fiz uma promessa silenciosa. Não amarei mais ninguém. Porque todos que amo são arrancados de mim. Um por um.
Primeiro, minha mãe. Agora, Pietro.
Se o amor tem preço, o meu já custou mais do que qualquer um pode pagar. Não suporto mais perder. Não suporto mais sentir. Viverei... mas jamais me permitirei amar outra vez.
Porque para mim, o amor morreu junto com ele.
✦ ✦ ✦
Madrid, Espanha
Nina Sanchez
Sempre ouvi dizer que o amor era a resposta. Que era abrigo, que era cura. Mas tudo que o amor me deu... foi trauma.
Mahatma Gandhi dizia: "Onde há amor, há vida." E eu só consigo pensar no quanto ele estava enganado.
Estou sentada no banco de um aeroporto frio e silencioso, esperando um voo que me levará para longe da cidade onde vivi os piores dias da minha vida. A mala ao meu lado é pequena, mas carrega tudo que me sobrou: alguns livros, uma blusa da minha mãe, uma fotografia antiga... e pedaços do que um dia fui.
Dezesseis anos vividos dentro de uma casa onde o amor era confundido com obsessão. Onde o toque que deveria acalmar, marcava. Onde a palavra "filha" era dita com cobrança, nunca com afeto.
Minha mãe morreu de amor. Amor por um homem que a destruiu lentamente, que a consumiu até que nada mais restasse além de silêncio. E quando ela partiu, eu também morri um pouco. Ela escolheu amar alguém mais do que a mim e pagou o preço.
Desde então, eu jurei que nunca mais amaria ninguém. Porque o amor prende. O amor fere, o amor... mata.
"Última chamada para o voo 135, destino: Boston. Embarque imediato pelo portão F."
A voz metálica ecoa pelo alto-falante, interrompendo meus pensamentos. Aperto a alça da mala com força e me levanto, sentindo o corpo pesar com memórias. Antes de atravessar o portão, olho uma última vez para trás.
Não há ninguém para me desejar boa viagem.
Não há ninguém chorando pela minha partida.
E isso... me liberta.
Agradeço mentalmente aos meus padrinhos. Foram eles que compraram a passagem. Que abriram as portas, que prometeram me acolher como filha. É para a casa deles que estou indo. Um novo país, uma nova chance, uma nova Nina.
Mas uma coisa é certa: na minha nova vida, não haverá espaço para o amor.
Porque eu não sou mais aquela que sonhava com finais felizes. Sou feita de cicatrizes. E nelas, o amor não tem permissão para habitar.