O apartamento cheirava a café velho e papel, a única combinação que me fazia sentir inteiramente eu mesma.
Pelo menos, até ouvir aquela batida.
Franzi a testa. Meu pai nunca batia a porta. Não daquele jeito.
- Pai? - chamei, me levantando do sofá com os livros ainda pressionados contra o peito como um escudo que eu ainda não sabia que precisaria.
Ele surgiu na entrada da sala alguns segundos depois, e não era o homem que eu conhecia. O grande Charles Moretti, o neurocirurgião mais renomado de toda a Itália, o homem que reconstruíra centenas de vidas com as próprias mãos, o pai que nunca havia erguido a voz em toda a minha existência, estava curvado, abatido, com os olhos vermelhos e a gravata pendendo torta no pescoço. Parecia ter envelhecido dez anos desde o café da manhã, quando ainda havíamos tomado nosso expressos juntos e ele comentara sobre um caso cirúrgico complexo com aquela paixão que sempre o definia.
- Ane... precisamos conversar.
Senti um calafrio subir pela espinha antes mesmo de entender por quê. Havia algo na voz dele - uma fratura que nunca esteve ali antes - que fez o meu estômago se apertar antes que qualquer palavra específica chegasse. Abaixei os livros no braço do sofá e fui até ele. Meu pai afundou na poltrona como se o mundo inteiro estivesse pesando sobre cada osso dos seus ombros, como se as pernas houvessem finalmente perdido a discussão com a gravidade.
Me ajoelhei à frente dele e segurei suas mãos, aquelas mãos que eu havia visto mover-se com precisão cirúrgica desde a infância, que me haviam ensinado a andar de bicicleta, que haviam assinado minha matrícula na faculdade de medicina com um orgulho que eu ainda me lembrava de sentir na pressão dos braços dele ao meu redor naquele dia. As mãos tremiam.
- O que aconteceu? Você tá me assustando.
Ele passou as mãos pelo rosto, respirou fundo - aquele tipo de respiração que antecede revelações -, e soltou a frase como se cuspisse cacos de vidro.
- Estou falido. Perdi tudo nos jogos. Tudo, Ane. - A voz fraturou mais ainda. - E estou doente. Tenho um tumor no cérebro. Inoperável, segundo os médicos. - Ele soltou uma risada amarga, desprovida de qualquer humor real. - Um neurocirurgião com um tumor no próprio cérebro. Que ironia cruel, não é?
Eu simplesmente congelei. As palavras dançavam diante dos meus olhos como se não fizessem sentido, como se o idioma português houvesse subitamente se tornado estrangeiro para mim. Tumor. Falido. Inoperável. Cada substantivo era um projétil disparado em câmera lenta, chegando antes que eu pudesse construir defesa alguma.
- Mas... como? Por quê? - sussurrei, a voz saindo num fio tão fino que mal a reconheci como minha.
Ele engoliu em seco e começou a contar. As palavras saíram devagar no começo, depois numa torrente que não havia como deter. Me contou sobre o cassino - aquele que eu nunca soubera que frequentava. Sobre as noites em que tentou dobrar uma sorte que já havia abandonado, sobre as fichas que se multiplicavam nas mesas erradas, sobre o desespero crescente de um homem que descobrira ter um tumor no cérebro e decidira, na sua loucura particular, que a fortuna poderia pagar a conta do tratamento. E sobre aquela última noite: a sala privada com paredes forradas de seda vermelha, Don Vittorio Mancini do outro lado da mesa com olhos frios de predador e sorriso satisfeito de quem nunca havia perdido um jogo importante.
- Eu sabia que estava sendo levado direto pra armadilha - ele murmurou, o olhar perdido num ponto que só ele conseguia ver. - Mas eu já tinha perdido tudo. A dignidade... o futuro. E ele sabia disso. Eles sempre sabem. - Meu estômago revirou quando ele disse o que viria a seguir. - Eu te apostei.
Por um instante, achei que havia entendido errado. Que ele havia dito qualquer outra coisa, minha herança, a casa, os investimentos, os instrumentos cirúrgicos que guardava como se fossem extensões do próprio corpo. Qualquer coisa que não fosse eu. Mas não havia outra leitura possível para aquelas palavras.
- Você... o quê?
- Eu perdi você no jogo, Ane. - As palavras saíram como confissão e sentença ao mesmo tempo. - Mas eles me ofereceram uma saída. Disseram que, em troca, você se casaria com o filho do Don, Sebastian Mancini. As dívidas seriam quitadas. Eu receberia o tratamento. Manteríamos a casa. Eu só pensei em salvar alguma coisa para te deixar.
- Você me vendeu. - Minhas palavras saíram fracas, mas cortantes como navalha passada devagar. - Como se eu fosse uma mercadoria. Um bem que se aposta numa mesa de jogo.
Ele cobriu o rosto com as mãos, encolhendo-se de uma vergonha que dobrava sua postura de dentro para fora. A imagem do meu pai destruído era algo que eu nunca havia imaginado ver. Aquele homem sempre fora meu pilar, minha certeza, o único que havia sobrevivido intacto nas minhas certezas de filha.
E agora havia me trocado por fichas de cassino.
- Eu tentei recusar. Juro que tentei. Disse que você não fazia parte desse mundo. Que você era inocente. Que sua mãe era filha ilegítima, que ninguém da nossa família pertencia a esse universo sombrio. - Ele hesitou, e naquela hesitação eu aprendi que o pior ainda estava por vir. - Foi aí que o Don acenou para um dos capangas, que jogou uma pasta em cima da mesa. E quando eu abri, Ane, era tudo verdade. Sua mãe... ela era filha bastarda do antigo chefe da família Bellini. O sangue deles corre em você.
Levei a mão à boca, sem conseguir processar. A minha mãe, que morreu dois dias depois que eu nasci de quem eu só conhecia fotografias e histórias narradas com carinho e tristeza, havia sido filha de um mafioso? Minha identidade inteira estava se refazendo naquele segundo, os contornos que eu havia aprendido a reconhecer como meus se distorcendo em algo diferente.
Fechei os olhos. Tudo girava. Meu mundo, minha realidade, minha própria identidade estava desmoronando debaixo dos meus pés como areia úmida.
E foi nesse momento que a porta foi aberta sem cerimônia. Não tocou. Não pediu licença. Passos ecoaram pela casa, pesados, seguros, impossíveis de ignorar, e em segundos três homens surgiram no vão da sala como se pertencessem àquele espaço por direito.
No centro deles, um homem que parecia saído de um pesadelo elegante. Alto, ombros largos, terno escuro que custava mais do que qualquer coisa que eu jamais possuíra. O olhar de aço, fixo em mim com uma precisão calculada, como alguém que já decidiu o resultado antes mesmo de a partida começar.
- Senhorita Moretti. Meu nome é Sebastian Mancini. Estou aqui para levá-la. Arrume apenas o necessário.
Levá-la. Não conhecê-la. Não conversar. Não perguntar se eu tinha escolha ou opinião ou voz. Apenas levar, como se eu fosse uma mala que havia ficado no lugar errado por muito tempo.
Olhei para meu pai. Ele abaixou a cabeça. Silêncio. Culpa. Derrota. A pior combinação possível num único homem.
- Eu não vou me casar com você - falei, virando-me para Sebastian com toda a firmeza que consegui reunir, sentindo cada centímetro do meu corpo se enrijecer contra a situação. - Eu não sou uma moeda de troca. Não sou uma recompensa de aposta. E não sou sua.
Ele parou no meio do caminho, os olhos escurecendo de um jeito que me fez recuar instintivamente - mas não o suficiente. Em dois passos, estava próximo demais. Os dedos dele envolveram meu rosto com firmeza, quase brutalidade, obrigando-me a encarar aquele olhar de pedra.
- Não tem culpa se o seu pai foi fraco - murmurou, a voz baixa e perigosa como o som que antecede uma tempestade. - Eu só vim buscar o que me pertence por acordo.
- Eu não pertenço a você. - Tentei me soltar, mas ele segurou firme. - Eu não pertenço a ninguém.
Ele me soltou de repente, com força. Dei dois passos trôpegos para trás e caí. As costas bateram no chão frio do hall de entrada, e a dor mal doeu comparada à humilhação de estar no chão diante de um homem que havia entrado na minha casa como se fosse a dele.
Antes que eu pudesse me levantar, um dos homens que o acompanhavam puxou a arma do coldre e a apontou para a cabeça do meu pai com um movimento tão natural que foi ainda mais aterrorizante pela ausência de drama.
- Não! - gritei, me levantando de um salto. - Não! Por favor!
- Você tem três segundos para fazer sua escolha - disse Sebastian, olhando para mim com a calma de um juiz numa corte onde já conhece a sentença. - Um...
- Sebastian, por favor...
- Dois...
- Eu vou! - berrei, sentindo o sabor amargo da rendição preenchendo minha garganta. - Eu vou com você!
O silêncio caiu como uma sentença definitiva. Sebastian observou-me por alguns segundos longos, certificando-se de que minha rendição era real e não um prólogo para outra resistência. Depois acenou com a cabeça, e o homem baixou a arma como se tivesse apenas recolhido um documento assinado.
- Vá pegar o que precisa.
Subi as escadas com o coração em pedaços. No meu quarto, fechei a porta, deslizei até o chão e permiti três segundos de desamparo - só três - antes de me levantar e abrir a mochila. Havia coisas que não podiam esperar nem três segundos: eu precisava saber que ainda era capaz de me mover, de escolher, de agir, mesmo que a ação fosse apenas decidir o que levar. Três cadernos de medicina. Dois livros. Roupas para poucos dias. O jaleco branco que havia vestido pela primeira vez no hospital escola dois anos atrás.
Tudo que coube no tempo que me restava de mim mesma.