Ele transformou esse hospital em um império. Tornou-se uma lenda no mundo da saúde privada. E agora, como era de se esperar, quer que eu continue o legado.
O problema? Eu não quero.
Meu pai sonha em me ver vestindo um terno, sentado à frente do conselho administrativo, liderando contratos milionários, aumentando lucros e cuidando da imagem do hospital.
Mas eu não nasci para isso. Sentado atrás de uma mesa de vidro, observando os outros operarem, enquanto eu apenas assino papéis?
Não. Meu lugar é dentro da sala de cirurgia. Ali, eu respiro.
- Pinça de DeBakey - pedi, com a voz baixa, firme e sem desviar o olhar do campo operatório.
O instrumento pousou na minha mão com precisão.
O metal gelado encaixou-se entre meus dedos como se fosse uma extensão do meu corpo.
Nem precisei erguer a cabeça para saber quem estava do outro lado. As mãos dos residentes sempre tremem quando operam comigo. Eles sabem exatamente quem eu sou. Sabem o que eu exijo.
O tórax do paciente estava aberto, o coração parado, ligado à máquina de circulação extracorpórea.
As artérias frágeis, milimetricamente expostas sob o feixe de luz do foco cirúrgico.
Respirei fundo, mais um caso delicado, mais um procedimento que outros hospitais recusaram.
E, como sempre, ele veio parar na minha mesa, é assim há anos.
O relógio avançava e eu nem percebia o tempo passar. Minhas mãos costuravam as artérias com movimentos automáticos, treinados por milhares de horas.
Cada ponto dado era uma linha traçada entre a vida e a morte, quatro horas depois, terminei a última sutura. Soltei o ar preso nos pulmões e recuei um passo.
- Fechem, por favor.
A equipe soltou o ar quase em coro, como se todos estivessem esperando por aquele momento. Eu, como sempre, mal prestei atenção nos rostos, não costumo fazer isso. Não crio laços. Não tenho tempo. No corredor, ainda ajustando a máscara no pescoço e tirando as luvas, dei de cara com meu pai.
O paletó sob medida, a gravata sem um vinco, o olhar calculista de sempre. Ele se colocou no meio do meu caminho, bloqueando a passagem.
- Oliver - disse, com aquele tom que não deixa espaço para ignorar.
Passei as mãos pelo cabelo, tentando controlar o cansaço.
- Pai, agora não. Acabei de sair da cirurgia.
- Exatamente por isso precisamos conversar - a voz dele soou firme, impaciente - você está adiando o inevitável.
- Não estou adiando nada. Só não quero o que você quer pra mim.
Ele cruzou os braços, o rosto impassível.
- Você precisa assumir o hospital, Oliver. Já passou da hora.
Soltei um suspiro longo e me escorei na parede fria do corredor.
- Meu lugar não é atrás de uma mesa. Eu salvo vidas, pai. Não quero ser CEO. Quero ser cirurgião.
Ele me encarou com os olhos duros, frios como aço.
- Você não vai operar para sempre. Vai chegar o momento em que as suas mãos vão cansar. E quando esse dia chegar, quero que esteja preparado para o próximo passo.
- E até lá? Quer que eu me aposente antes da hora? - O silêncio dele respondeu por si.
Os olhos de Edward sempre foram os mesmos: calculistas, estratégicos e frios.
- O Memorial é o nosso legado, Oliver. E você é o único capaz de continuar isso. Não se esqueça do seu sobrenome.
Olhei para ele sem piscar, eu sei exatamente quem eu sou, mas também sei quem não quero ser, me afastei, sem dizer mais nada, o som dos meus passos ecoando pelo piso do hospital foi a única resposta que dei.
Fui direto para o refeitório. Meu ritual pós-cirurgia é sempre o mesmo: café preto, sem açúcar, sem conversa.
A cafeteria estava cheia, médicos em grupos, residentes comentando casos do dia, as vozes misturadas ao tilintar dos talheres.
Mas, naquela tarde, algo fez meu corpo parar, perto da janela, sozinha, havia uma residente que eu nunca tinha visto antes.
Os cabelos castanhos presos de qualquer jeito, o jaleco desalinhado, e um caderno aberto sobre a mesa. Ela mordia a tampa da caneta com tanta concentração que parecia alheia ao barulho ao redor.
O sol entrava pelas vidraças e tocava o rosto dela, realçando a curva da mandíbula, a testa franzida, os olhos intensos correndo pelas linhas da folha.
Meu primeiro impulso foi desviar o olhar, mas não desviei, e provavelmente era do primeiro ano da residência. Jovem. Muito jovem.
Mesmo assim, havia nela uma segurança rara. Uma fome de fazer a diferença.
Eu reconheço esse tipo de olhar.
De repente, ela ergueu os olhos, e nossos olhares se encontraram por dois segundos ou talvez três.
Ela não desviou, mas eu sim. Peguei meu café e me sentei no canto mais afastado da sala, tentando afastar aquela imagem da cabeça.
Mas não consegui, naquele instante, percebi exatamente o que me incomodava:
Ela me tirou do eixo, e eu sequer sabia o nome dela. Não ainda.
***
O resto do meu dia passou, mas minha cabeça não acompanhou.
Atendi alguns pacientes no consultório particular do hospital, revisei laudos, dei um parecer em dois casos cirúrgicos de colegas.
Participei de uma reunião rápida, com o comitê ético sobre um protocolo novo.
Fiz tudo no automático. A verdade é que, em cada intervalo, minha mente voltava para a mesma cena: a menina da janela.
Residente nova, provavelmente do primeiro ano. Vinte e poucos anos, no máximo.
Aquela concentração absurda nas anotações, o jeito como mordia a tampa da caneta, os olhos escuros que não recuaram quando eu os encarei.
E o pior: a sensação de que ela sabia exatamente o que estava fazendo quando não desviou.
Era como se ela tivesse me desafiado em silêncio. Saí do hospital já no começo da noite.
A cidade lá fora estava úmida, típica de Nova York no início de outono. As ruas iluminadas, o movimento de táxis, buzinas, pessoas apressadas. Tudo do jeito que sempre foi.
Caminhei até meu prédio com o corpo cansado, mas a cabeça acesa demais para relaxar.
Meu apartamento fica no décimo oitavo andar da Park Avenue. Duas coberturas por andar, um silêncio que contrasta com o caos do hospital. Gosto disso. Me isola.
Toquei no bolso do paletó, procurando as chaves, e entrei no saguão já pensando em um banho quente e um copo de uísque.
Chamei o elevador. As portas se abriram e entrei sozinho, mas, quando as portas começaram a se fechar, uma voz cortou o silêncio.
- Espera! Segura, por favor!
Instintivamente, estiquei o braço e pressionei o botão de abertura. As portas travaram.
Vi uma silhueta vindo em minha direção, apressada, quase tropeçando nos próprios pés.
Ela entrou no elevador ofegante, ajeitando a alça da mochila no ombro. Quando ergueu o rosto, eu soube na hora.
Era ela, a mesma residente do refeitório. Por um instante, o tempo pareceu travar.
O som do mundo lá fora sumiu. Ficamos apenas nós dois, dentro daquele espaço pequeno demais. Os olhos dela encontraram os meus de novo, e, dessa vez, algo passou entre nós. Um tipo de energia que eu não costumo sentir, tensão, desejo contido, aquela linha tênue entre o proibido e o inevitável.
Minhas mãos ainda seguravam a porta do elevador, embora ela já estivesse dentro.
Ela respirava rápido, talvez pela corrida, talvez por outra coisa.
- Obrigada - disse, e sua voz soou mais baixa do que o normal, quase rouca.
- Sem problema - respondi, soltando o botão.
As portas se fecharam, e quando olhei para o painel, notei o número iluminado 18, o mesmo andar que o meu, dois apartamentos por andar.
Merda.
Ficamos em silêncio durante a subida, o espaço era pequeno demais. O ar parecia denso demais, a distância entre nós era quase nula, senti o perfume suave dela, algo fresco, limpo, que grudou na minha memória. Ela ajeitou a mochila nas costas, e eu percebi as mãos dela levemente trêmulas. Mas não era nervosismo de medo, era o mesmo tipo de tensão que estava me corroendo por dentro. Quando as portas abriram, ela deu um passo à frente. Eu segui atrás.
Virou-se de leve, com um meio sorriso desconcertado, como quem sabe que aquilo é estranho, mas não consegue evitar, e eu também não consegui.
E foi ali, no corredor vazio do décimo oitavo andar, que tive certeza: aquilo não era coincidência, era o começo de um problema, ou, talvez, de algo ainda maior.