Ele era alto, de pele morena, ombros largos e impecavelmente alinhado em um terno escuro sob medida, cortado por alfaiates italianos renomados. Os cabelos pretos, penteados com precisão, refletiam a luz quente do teto trabalhado em afrescos, contrastando de forma impressionante com seus olhos castanhos-claros - um olhar frio, analítico e acostumado a impor presença sem erguer a voz.
Seu nome foi murmurado pela recepcionista ao meu lado em um tom contido, quase reverente:
- Senhor Eduardo Monteiro.
Meu peito reagiu com um sobressalto automático. Havia uma força intensa naquele homem, mas o meu orgulho falou mais alto no mesmo instante.
Havia trabalhado duro para construir minha vida; homens ricos e acostumados a mandar passavam por ali todos os dias, e eu não me intimidaria por mais um.
Enquanto a recepção organizava as credenciais de sua chegada, os olhos castanhos-claros dele cruzaram os meus. Um segundo. Dois. Três. O contato visual fez uma faísca elétrica percorrer minha espinha.
Eduardo demorou o olhar sobre mim, varrendo com atenção detalhada meus longos cabelos loiros que estavam presos em um coque sobre o uniforme ajustado, o contorno do meu corpo escultural que a roupa de trabalho não conseguia ocultar e o tom vívido dos meus olhos azuis."
Em vez de abaixar o olhar com timidez, sustentei a atenção dele sem recuar, alinhando a coluna e mantendo o queixo erguido. Percebi o canto dos lábios dele se curvar em um esboço de sorriso provocador. Ele sabia do impacto que causava, mas mal sabia com quem estava lidando.
Mais tarde, o rádio no meu avental chiou com a chamada da governança. A suíte presidencial - o apartamento 507, na ala mais nobre do palácio - necessitava de uma inspeção final antes do check-in do hóspede VIP.
Era ele. Eduardo Monteiro.
Ajeitei o material no carrinho de serviço e segui pelo corredor reservado do último andar, onde os carpetes espessos abafavam cada passo.
Minhas mãos apertavam a barra metálica do carrinho enquanto eu repetia a mim mesma que se tratava apenas de mais uma suíte luxuosa e mais um cliente exigente.
Ao encostar o cartão magnético na porta e entrar, fui recepcionada por uma vista impressionante das cúpulas históricas de Milão através das janelas em arco. Móveis de carvalho, cortinas pesadas de veludo e uma cama king-size vestida com lençóis de linho impecáveis.
Iniciei o trabalho com agilidade e método, alinhando os recipientes de porcelana, conferindo o polimento dos metais e ajustando os detalhes com o capricho de sempre.
- Gosto de profissionais que prestam atenção aos detalhes - disse uma voz grave e profunda logo atrás de mim.
Virei-me devagar, recusando-me a demonstrar qualquer sobressalto. Lá estava ele.
Encostado no batente da passagem interna, sem a jaqueta do terno, as mãos nos bolsos da calça social e os primeiros botões da camisa de algodão abertos. Os cabelos pretos desalinhados com charme e os olhos castanhos-claros fixos em mim com uma intensidade devoradora.
Eduardo me estudava da cabeça aos pés, abertamente fascinado pela curva da minha cintura, a postura ereta e a vivacidade dos meus olhos azuis.
- Boa tarde, senhor. A governanta me informou que a suíte ainda estava desocupada durante o meu turno - respondi, mantendo o tom de voz calmo, profissional e firme.
- Gosto de acompanhar os processos de perto. Isso revela muito sobre o nível do estabelecimento - ele deu dois passos lentos em minha direção. A presença física dele preenchia a sala com uma gravidade quase sufocante. - Você é nova na equipe?
- Trabalho no Palazzo Galleria há dois anos, senhor Monteiro - respondi, encarando-o diretamente nos olhos, sem dar um passo para trás.
- Hm... Nunca a notei nos corredores. E eu certamente registraria uma mulher como você. Esse cabelo, esses olhos... você não passa despercebida em lugar nenhum.
As palavras vieram carregadas de uma intimidade calculada, o tipo de abordagem assertiva que ele costumava usar para testar limites e impor dominância.
Ele reduziu a distância entre nós até que o perfume amadeirado, denso e sofisticado dele ficasse perceptível no ar. O calor da proximidade dele era real e fazia meu pulso acelerar, mas minha rejeição àquela postura de comando era incomparavelmente maior.
- Qual o seu nome? - perguntou ele, baixando a voz para um tom áspero e insinuante.
- Lívia - disse, sem hesitar.
Eduardo ergueu a mão com calma, estendendo os dedos no gesto calculado de quem busca tocar meu queixo para erguer meu rosto. Um movimento automático de quem está habituado ao controle total.
Antes que a ponta dos dedos dele me alcançasse, dei um passo firme para trás e ergui a mão, interrompendo a aproximação no ar.
- Por favor, senhor Monteiro. Não me toque - declarei em tom claro, audível e categórico.
Eduardo parou a mão no ar. A expressão dele mudou imediatamente. O choque cobriu suas feições. Ele claramente não esperava uma recusa, muito menos vinda de uma funcionária uniformizada no meio de seu ambiente de conforto.
- Como disse? - ele franziu o cenho, avaliando a situação como quem tenta processar um imprevisto.
- O senhor contratou os serviços de hospedagem do hotel, não a minha pessoa - mantive o olhar fixo no dele, sustentando a postura sem recuar. - Sou responsável pela higienização da sua suíte e por garantir seu conforto técnico aqui dentro. Meu trabalho é pautado no respeito, e o senhor não tem permissão para invadir meu espaço pessoal.
A tensão dentro da sala tornou-se quase palpatória. O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de uma eletricidade contida entre nós.
Eduardo fechou o maxilar em uma linha rígida, e seus olhos castanhos-claros faíscaram com um misto de contrariedade e um fascínio absolutamente incontrolável por aquela loira de olhos azuis que o enfrentava sem medo. Ele não estava acostumado a ouvir um "não".
- Você tem noção de com quem está falando, Lívia? - a voz dele saiu ainda mais baixa, áspera e perigosa, tentando usar a imponência da própria figura para me intimidar.
- Sei exatamente. O senhor é o hóspede da suíte 507 - respondi com uma calma cortante, ajeitando o crachá no peito. - E eu sou a profissional encarregada de deixar seu quarto pronto. Se o senhor necessitar de mais toalhas, serviço de quarto ou apoio de copa, basta acionar a recepção pelo ramal interno.
Ele deu mais um passo curto à frente, os olhos cravados nos meus, a respiração demonstrando o impacto que aquela reação causara. Contudo, manteve as mãos para trás, compreendendo que não extrairia qualquer sinal de submissão da minha parte.
- Você é extremamente atrevida. Ninguém se dirige a mim dessa forma - murmurou ele com o maxilar tenso, mantendo a atenção completamente presa à minha figura, intrigado e obcecado pela minha audácia.
- Então é um bom momento para o senhor compreender que limites precisam ser respeitados - respondi sem piscar, sentindo o peito acelerado pela carga de adrenalina, mas mantendo a postura impecável.
Ajeitei meu material de trabalho, passei por ele sem demonstrar hesitação e segui em direção à saída principal da suíte, sentindo os olhos dele queimarem nas minhas costas, acompanhando o movimento das minhas curvas. Antes de atravessar a porta, inclinei o rosto levemente sobre o ombro.
- Tenha um excelente final de tarde, senhor Monteiro. A suíte está entregue.
Saí e fechei a porta de madeira nobre com um som seco e definitivo.
Já no corredor reservado, encostei as costas contra a parede por alguns instantes, puxando o ar com força. Minhas mãos mantinham um leve tremor pela intensidade do confronto, mas um sorriso controlado surgiu em meu rosto.
Ele podia ser o homem mais rico e poderoso de Milão, com sua pele clara, cabelos escuros e olhos dominadores, mas diante de mim ele acabara de aprender que poder nenhum comprava minha postura ou minha dignidade.