A liderança não caiu no meu colo por sorte, nem por herança familiar convencional. Ela foi banhada a sangue, construída sobre as cinzas de uma infância que me foi roubada dezessete anos atrás.
Renata, uma das poucas pessoas que conheci logo nos meus primeiros anos no morro através do Júlio - da segurança da boca -, era uma das poucas almas que conhecia os contornos da minha duplicidade. Ela não precisava me julgar; ali em cima, todo mundo carregava cicatrizes, mas as minhas eram profundas o bastante para manter qualquer um a uma distância segura.
A polícia me caçava, claro. Viviam colados nos meus calcanhares, colando cartazes e tentando entender quem comandava o tabuleiro.
Mas quem achava que eu era apenas mais uma criminosa sedenta por sangue se enganava redondamente.
Eu não matava por esporte ou crueldade gratuita. No entanto, fraqueza era algo que eu não tolerava. Dias antes, por exemplo, quase executei um dos meus próprios homens por crueldade desnecessária contra uma mãe de família.
Ele achou que podia espancar uma mulher por causa de um erro banal dentro do território. Paguei na mesma moeda, mostrando visualmente quem ditava as regras. Quem mandava ali era eu. E quando a raiva ancestral que habitava em mim vinha à tona, não havia trégua.
Porque a minha história não começou no crime. Ela começou numa noite que foi apagada a tiros.
Eu tinha apenas oito anos. Naquela noite, a nossa casa parecia um oásis de normalidade e falsa segurança.
Meus pais e meu irmão jantavam enquanto a mansão exibia aquela fachada sofisticada que tanto chamava atenção das minhas colegas de escola. Meu pai era um homem de silêncios pesados, uma figura de autoridade inquestionável que nunca precisava elevar o tom de voz para impor respeito.
Mas havia um lado dele que ele escondia a sete chaves: um escritório trancado onde guardava um verdadeiro arsenal de guerra.
Naquela noite fatídica, por capricho do destino ou curiosidade infantil, a porta daquele escritório estava entreaberta. Entrei e vi o armário de vidro refletindo o brilho metálico de armas pesadas. Não entendi o que aquilo significava na época, mas guardei cada detalhe. Pouco depois, o som seco de uma explosão estilhaçou a paz da casa.
O caos se instalou em segundos. Lembro do desespero do meu pai, do som abafado dos disparos e da ordem desesperada antes de me empurrar para o meu refúgio secreto:
- Corre para o seu esconderijo, minha princesa, eu vou te encontrar!
Mas ele não voltou.
Abafei meus próprios soluços dentro do esconderijo, ouvindo os gritos e a execução sistemática da minha família. Quando o silêncio fúnebre finalmente tomou conta, rastejei para fora e espreguei os olhos na escada. A cena era uma pintura do inferno: meus pais e meu irmão caídos, o sangue manchando o piso impecável.
Um homem se destacava entre os assassinos. Ele chutou o corpo do meu pai, que ainda respirava com dificuldade, e vociferou com um ódio que me congelou a espinha:
- Eu vou achar sua filha e acabar com seu clã maldito! Esse morro será meu, e você, seu merda, já matou demais dos meus. Agora chegou a minha vez de brilhar e me vingar de você. Sua mulher era para ser minha, e um dia vou fazer você pagar por isso!
O monstro ainda rugiu, procurando por mim, ameaçando me matar na frente do meu pai agonizante. Protegida pelas sombras, recuei para o meu esconderijo e só saí horas depois, quando a sirene da polícia cortou a madrugada e uma policial me encontrou encolhida, trêmula e completamente sozinha no mundo.
Fui morar com minha tia Heloísa em Ipanema. Tive o melhor colégio, a faculdade, a terapia que tentava em vão apagar os rostos daqueles homens da minha mente.
Mas a terapia não adiantava contra a sede de justiça que queimava no meu peito. Eu reconheci cada rosto naquelas fotos que a polícia me mostrou. E jurei que eles pagariam. Até mesmo Genebra, o segurança que teoricamente deveria ter nos protegido e que me enchia de presentinhos, fazia parte da traição.
Cresci dividida entre dois universos. Na Zona Sul, Maya estudava arquitetura, vivia romances passageiros sem importância - como aquela primeira vez desajeitada com um universitário correto que não cabia no meu mundo caótico - e mantinha as aparências. No submundo, Dóris se moldava de ferro e astúcia.
Até que, em uma das noites no baile funk do morro, o passado cobrou sua fatura.
Encontrei um dos rostos daquela noite. Com a ajuda de Gael, meu fiel escudeiro, armei a armadilha e o levei para um cativeiro isolado para arrancar dele os nomes que faltavam.
Mas o plano saiu do eixo: o antigo líder do morro apareceu nos observando, filmando tudo. Ele tentou me chantagear, virar o jogo e me subjugar. Mal sabia ele que subestimar uma criança sobrevivente era um erro fatal. Eliminei o tirano e assumi o seu trono, tornando-me a temida dona do Morro do Alemão.
Agora, anos depois, o tabuleiro parecia pronto para o xeque-mate.
O som grave e estridente do funk ecoava pelas caixas de som gigantescas quando vi um homem abrir caminho entre a multidão na boca do morro. Ele tinha um porte imponente, um sorriso insolente e, por um segundo que fez meu coração falhar uma batida, traços que me lembraram fantasmas que eu enterrei.
Uma sombra se aproximou de mim, sussurrando em alerta:
- E aí, o que você veio fazer na boca da loba?
O desconhecido parou diante de mim, ignorando completamente a tensão ao redor, e cravou os olhos nos meus sem um pingo de medo.
- Tô na área pra conhecer a loba e, quem sabe, se rolar, tomo esse morro. Seria da hora, né, mano? - ele provocou, com um tom displicente que fez o sangue ferver nas minhas veias.
O segurança ao meu lado rosnou:
- Se você se meter a besta e tentar tomar esse morro, pode crer que não vai sair daqui vivo, não. Nem vai ter chance de falar quem te matou.
Ele não desviou o olhar de mim nem por um centésimo de segundo. A energia que emanava dele era perigosa, arrogante e estranhamente magnética. Eu podia sentir o perigo palpável zumbindo no ar.
Ele não sabia quem eu era, nem o que eu representava. Mas, para o meu azar ou destino, aquele homem acabara de cruzar a linha de chegada da minha paciência.
Se ele achava que podia brincar com fogo no meu território, descobriria da pior forma que a loba nunca perdoa quem ousa desafiá-la. A vingança estava em curso, e ele parecia ser a peça que faltava para incendiar tudo de vez.