Livros e Histórias de Fifine Schwan
Fome e Amor: Uma Conexão Eterna
A fome era minha sombra, uma criatura de garras e dentes roendo meu estômago desde os sete anos de idade. Eu já sabia que o mundo se dividia entre os que comiam e os que só podiam olhar. Em casa, a gente mais olhava. Um dia, a sorte bateu à porta: ganhei um frango assado num concurso de desenho. Um frango inteiro, dourado e crocante, a promessa de uma refeição que eu nunca tivera. Corri para casa, mal podia esperar para dividir aquela alegria com meus pais. Mas a alegria virou amargura, um golpe no estômago mais doloroso que a própria fome. Minha mãe pegou o frango das minhas mãos, os olhos brilhando – mas não para mim. Eles sentaram à mesa, dividiram cada pedaço, sem um olhar, uma palavra, ou sequer um osso para mim. Nem uma migalha sobrou. Noite adentro, a fome dentro de mim não roía, urrava. Por que eu, a filha, era sempre a última, a esquecida, a que não merecia nem o fruto da sua própria vitória? A dor daquele desprezo era mais aguda que qualquer pontada de fome. Naquela noite, a fome urrava, mas algo mais nasceu. Com uma faca na mão, sob o luar, fui até a horta da vizinha. Peguei dois tomates e uma espiga de milho. Saboreando cada pedaço, jurei para mim mesma que nunca mais dependeria de ninguém para saciar a minha fome – nem a do corpo, nem a da alma.
Um Novo Começo, Longe de Ti
Eu estava no chão frio da casa de banho, com o teste de gravidez positivo na minha mão trémula, quando o Pedro, o meu noivo, me ligou. A sua voz estava cheia de uma alegria que eu não conseguia partilhar: a sua mãe, a temível Dona Helena, finalmente concordara em encontrar-se comigo. Aquela noite era a minha única oportunidade de ser aceite pela elite família Andrade. Mas, bem no meio do jantar crucial, o meu telemóvel vibrou com uma notícia devastadora: o meu avô, a minha única família, sofrera um acidente. O Pedro, no seu fato caro, hesitou quando pedi para ir. A Dona Helena, impassível, disparou palavras cruéis: "Depois de três anos... vai fugir por causa de um velho que provavelmente só tropeçou num tapete?" Ela forçou-me a uma escolha impossível: o Pedro ou o meu avô. E o Pedro? Ele não me defendeu, pediu-me para "verificar se era mesmo grave". Naquele instante, o meu estômago embrulhou-se. Como pude amar um homem capaz de hesitar quando a minha família precisava de mim? Como podia eu e o meu bebé viver num mundo onde o amor era condicional e humilhante? Não olhei para trás. Deixei o anel de noivado na sua mão. Aquela noite, na solidão do hospital, prometi ao meu filho que ele nunca conheceria uma família que me pedisse para abandonar a minha. Isto não era um fim; era um novo começo.
