POV Maria Fernanda
- Eu sempre achei que amor de verdade não fazia barulho - murmurei, mais para mim do que para qualquer outra pessoa.
Michael ergueu os olhos por um segundo, mas não comentou. Continuei:
- Não aquele que precisa ser anunciado... mas o que aparece nas escolhas difíceis.
Michael deu de ombros, distraído. E tudo bem. Sempre foi assim. Eu nunca exigi nada dele. Nem promessas, nem respostas, nem garantias.
Só... fiquei, desde sempre ao lado dele.
- Você está me ouvindo? - Michael perguntou, tirando-me dos pensamentos com relação a ele mesmo.
- Sempre - respondi, com um sorriso leve.
Eu estava no quarto semestre de Enfermagem. Tinha uma bolsa integral, fruto da minha conquista e esforço.
- Você ainda acha que foi sorte estarmos aqui hoje? - Michael provocou.
- Não. Foi insistência mesmo.
Ele riu. Sabia de toda a minha história de vida: uma mãe que morreu cedo e um pai que nunca aceitou a perda.
A casa ainda era nossa porque eu não deixava de pagar. Simples assim. Meu pai há anos que não se importava com mais nada e seu tempo era dedicado ao fantasma da minha mãe, a mulher que ele sempre amou.
- Você precisa descansar mais, Fê. - Michael observou o quanto eu estava exausta.
- Preciso pagar contas - respondi. - E meu dia nem acabou. Ainda tem a jornada de babá à noite.
- Você gosta disso? Ser babá freelancer? - ele perguntou.
Gostar eu não gostava. Mas...
- Eu preciso.
Realmente eu tinha que dar conta das despesas da casa. O que Michael nunca desconfiou era do motivo pelo qual eu era freelancer como babá à noite.
Michael cursava Medicina. E quase desistiu. Eu ainda lembrava daquele dia.
- Eu vou trancar a faculdade - disse ele, acabado.
- Não vai - respondi, firme.
- Não tenho escolha.
- Tem, sim. Você não pode desistir.
Ele não sabia que, naquela mesma semana, as mensalidades estavam pagas. Por mim.
Michael por um tempo tentou saber quem havia ajudado para que terminasse o curso. Mas como foi uma doação anônima, acabou desistindo de encontrar eu bem-feitor. Ou bem-feitora. Porque a anônima fui eu. E fiz por amor. E quando se fazia por amor, não se precisava de amor ou algo em troca.
Meu irmão mais novo, William, conhecido como nosso Will, vivia desempregado. Sonhava demais num mundo onde não havia espaço para nada além da triste realidade de que éramos suburbanos falidos e fodidos.
Will achava que seria famoso. E eu torcia por isso. Mas até isso acontecer, quem segurava as pontas era eu.
E acreditava mesmo.
Quando chegou meio-dia, Michael me chamou para almoçar.
No restaurante, estava animado:
- Não acredito que a Letícia volta hoje!
Revirei os olhos:
- Foram quatro anos, Michael. Não quatro décadas.
- Pra mim pareceu quatro anos. - ele riu.
- Pra mim não - respondi, seca.
Ele riu, mas já estava no celular.
- Você está vendo o Instagram dela de novo?
- Só... curiosidade.
Claro! Letícia, minha prima linda, rica, e parâmetro para todas as meras mortais.
- Você ainda se compara com ela? - ele perguntou, percebendo meu silêncio.
- Não. Eu só lembro de todas as pequenas coisas que ela me fez.
- Vai ser um evento esse jantar de chegada dela! - Michael estava empolgado demais.
- Vai - respondi, sem entusiasmo.
- Falando nisso... preciso da sua ajuda.
- Com o quê?
- Um presente. Um anel.
Meu coração disparou.
- Um... anel?
- Sim, um anel.
Tentei manter a calma, não contendo o sorriso. Acho que enfim, ele me pediria em casamento. Tantos anos que eu o amava. E tantos outros que ele fingia que éramos só amigos
- Claro. Eu te ajudo.
Na joalheria, ele se importava se eu ia gostar ou não do anel. Claro! Me mandou escolher o anel para fazer uma surpresa depois.
- Esse aqui? - perguntou.
- Bonito.
- E esse?
- Também. - opinei.
- Você escolheria qual?
- Esse. - escolhi um delicado e que tinha tudo a ver comigo.
O joalheiro fez a medição do meu anel e Michael saiu dali com o anel no bolso.
Eu teria aceitado qualquer coisa. Até um anel de papel.
Naquela noite eu contaria a Michael sobre tudo: ter pago a sua faculdade, os tantos anos que o amei em segredo e que viver sem ele era impossível.
@MFê: Ele vai me pedir em casamento.
A resposta veio na hora.
@Will: Finalmente. Já estava na hora.
@MFê: Vai ser a noite mais importante da minha vida.
E realmente seria. Eu só não imaginava a forma como tudo acabaria. Nem o que viria depois.
O jantar começou... e a tensão veio junto.
Letícia como centro das atenções, como sempre.
- Em Paris, isso é tão comum... - dizia, chamando ainda mais a atenção de todos.
Michael, ao lado dela, parecia nervoso. E eu entendia o seu nervosismo. Mas duvidava que ele achasse que eu poderia dizer não ao seu pedido.
Esperei. Esperei. Esperei.
Afinal, quando chegaria a hora?
- Fê, você está pálida - Will sussurrou.
- É só a ansiedade.
Quando a sobremesa chegou, Michael se levantou:
- Tenho um anúncio a fazer.
O silêncio foi imediato. Meu coração acelerou. Ele sorriu e comecei a levantar. Parei quando percebi que ele não veio na minha direção. Contornou a cadeira de Letícia, que estava ao seu lado, e ajoelhou-se diante dela:
- Michael? - ela disse, surpresa.
- Letícia... quer se casar comigo? Eu sou apaixonado por você... e esperei anos por isso.
Meu coração ainda batia. Ao menos eu não estava morta. Difícil seria juntar os cacos depois dos tantos pedaços que ele havia sido quebrado.
Todo mundo aplaudiu a declaração de amor fofa e o pedido de casamento.
- Sim! - Letícia disse, com os marejados, fingindo uma falsa surpresa.
Ela o beijou. E assim eles decidiram que viveriam felizes para sempre. Eu? Bem, vi tudo. Absorvi toda dor e humilhação, já que metade das pessoas sentadas àquela mesa sabiam que eu era apaixonada por Michael desde criança.
- Levanta. - Wil puxou meu braço. - Você não precisa passar por isso.
- Espera... - tentei dizer. - aonde a gente vai?
- A gente vai embora. - ele disse com firmeza.
E foi naquele momento que a minha vida mudou para sempre. Com aquela simples decisão de deixar de lado a humilhação e tentar fingir que tudo estava bem.