Dois anos, e ainda havia momentos em que eu me virava para chamar por ela. O apartamento estava exatamente como no dia em que a deixei no hospital pela última vez - livros organizados por cor na estante, plantas na beira da janela que agora sobreviviam mais por teimosia do que por cuidados. Eu não conseguia mudar nada. Como se, ao mover um quadro ou doar uma das suas canecas, eu apagasse um pouco mais dela.
A caixa estava no alto do armário do quarto, escondida atrás de um cobertor que nunca usei. Eu não tinha coragem de mexer nela até hoje. Mas, naquela noite, alguma coisa - talvez o tédio, talvez a solidão, talvez um impulso de autossabotagem - me fez arrastar a cadeira e subir.
Era de papelão grosso, amarrada com um barbante que já se desfazia nas pontas. A tampa soltou um cheiro de papel antigo misturado com perfume. Não o perfume barato que Margaret usava nos últimos anos, mas o que ela colocava quando eu era criança, antes das contas atrasadas, antes dos silêncios mais longos que as conversas.
Comecei a tirar o conteúdo devagar, como quem folheia um livro sagrado: uma echarpe azul-marinho com um fio puxado na ponta, um porta-retratos sem foto, um bracelete de prata com as iniciais M.L., algumas cartas antigas em envelopes amassados.
E então, no fundo, encontrei um caderno de capa dura, marrom, sem nada escrito por fora. Folheei. Não eram páginas cheias, mas pedaços de frases, listas de compras, receitas rabiscadas ao lado de datas aleatórias. Até que, no meio, caiu uma folha dobrada.
O papel estava amarelado e áspero, com a tinta um pouco borrada. As palavras eram ilegíveis para mim, mas o idioma me soou familiar de alguma forma - como se já o tivesse ouvido uma vez, há muito tempo, em um lugar que não lembro de ter visitado.
Era sueco.
Senti um arrepio subir pela coluna.
Não havia remetente, apenas uma assinatura no final: Áine. Um nome que eu nunca tinha visto, mas que me pareceu antigo, quase melódico. Li uma frase em voz alta, sem entender nada. A entonação estranha na minha boca me deixou inquieta.
Guardei o papel de volta, mas não consegui fechar o caderno. O que uma carta em sueco estava fazendo no diário de Margaret?
Ela nunca me falou sobre ter amigos suecos. Nunca mencionou viagens à Europa. A única vez que tocamos no assunto foi quando eu tinha dez anos e perguntei de onde eu tinha vindo. "De longe", ela respondeu, como se a distância fosse uma parede que eu não deveria tentar escalar.
O som do aquecedor ligando me arrancou do transe. Meus dedos estavam gelados, mesmo dentro de casa. Olhei para a carta outra vez, como se ela fosse capaz de responder sozinha às perguntas que disparavam na minha cabeça.
Peguei o celular e escrevi no Google: tradutor sueco Boston. Os resultados apareceram rápido, mas hesitei. Parte de mim não queria saber. Porque saber significaria abrir portas que Margaret manteve fechadas a vida inteira.
O ponteiro do relógio passou das nove. Lá fora, a chuva engrossou. Peguei o caderno, a echarpe e o bracelete e coloquei tudo de volta na caixa. Mas a carta... a carta ficou na minha mão.
Sentei no sofá, com ela no colo, e fiquei olhando as linhas escritas com caligrafia inclinada, como se cada letra tivesse sido feita às pressas, ou com medo. Eu conseguia sentir a urgência na forma como a caneta pressionou o papel.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que não fosse apenas saudade ou apatia: curiosidade. Uma curiosidade que ardia, que puxava o ar do meu peito.
No corredor, a madeira estalou com o aquecimento. De repente, o apartamento pareceu menor. Peguei o celular outra vez e comecei a digitar uma mensagem para Harper.
Encontrei algo que você precisa ver.
Mas antes de enviar, imaginei sua reação: ela ia me encher de perguntas, me forçar a marcar um horário com alguém para traduzir, e eu não sabia se estava pronta para isso.
Dobrei a carta com cuidado e a coloquei dentro da gaveta da mesa de cabeceira. Mas, no instante em que a gaveta fechou, me arrependi.
Levantei, tirei de novo e a coloquei sobre a mesa da cozinha. A luz amarelada da luminária formava um círculo perfeito sobre o papel, como se me dissesse: olhe para mim.
Suspirei. Eu sabia que aquela noite não terminaria até eu tomar uma decisão.
Margaret passara anos evitando falar sobre meu passado. E, de repente, uma folha de papel ameaçava desmontar todas as paredes que ela construiu ao nosso redor.
Não sei se foi a chuva, a solidão ou a forma como o nome Áine parecia me chamar, mas ali, encostada na mesa da cozinha, eu tomei minha primeira decisão em muito tempo.
Eu ia descobrir o que estava escrito.
O relógio na parede marcava quase dez e meia quando fui até a cozinha preparar um chá, mais para ocupar as mãos do que por sede. O barulho da chaleira enchendo quebrava o silêncio pesado do apartamento, mas não diminuía o peso no meu peito.
A carta estava ali, no centro da mesa, iluminada pela luz amarelada, como se fosse a única coisa viva naquele espaço. Passei os dedos sobre as palavras, tentando sentir a intenção por trás de cada traço. Por um momento, imaginei a cena: alguém sentado, talvez à noite, escrevendo às pressas, sabendo que aquelas frases precisavam chegar a Margaret. Ou a mim.
Mas por quê?
Quando a água começou a ferver, desliguei o fogo e esqueci completamente do chá. Encostei na bancada, abraçando os braços para me aquecer, enquanto o cheiro de papel antigo parecia se espalhar pela cozinha.
Peguei meu celular e abri as fotos. Tirei três imagens da carta, cada uma de um ângulo diferente, com medo de que a luz refletisse demais e apagasse algum detalhe. Então, sem pensar muito, enviei para mim mesma por e-mail. Se alguma coisa acontecesse com o original, eu queria ter uma cópia.
Depois me sentei de novo, as pernas cruzadas na cadeira, e tentei decifrar algo sozinha. Nenhuma palavra fazia sentido - exceto "Uppsala". Eu já tinha ouvido esse nome antes, em alguma aula de geografia ou em um artigo que revisei na editora. Uma cidade na Suécia.
Meu coração acelerou.
Se essa carta tinha saído de lá... então talvez minha história também tivesse.
A ideia me deixou sem ar por alguns segundos. Sempre soube que havia um vazio entre o que eu sabia sobre minha vida e o que realmente aconteceu, mas ver a possibilidade materializada ali, em letras pretas sobre papel amarelado, era diferente. Assustador.
Olhei para a estante, onde uma das fotos de infância com Margaret ainda estava no mesmo porta-retrato torto. Eu tinha uns quatro anos, cabelos claros cortados curtos, um sorriso tímido. Ela estava ao meu lado, sorrindo para a câmera, mas com os olhos ligeiramente voltados para outra coisa. Como se estivesse atenta a algo fora do quadro.
Fiquei olhando para aquela foto até o ar da sala parecer mais denso. Por fim, voltei para a carta e, como se assinasse um contrato silencioso comigo mesma, sussurrei:
- Eu vou descobrir o que você está escondendo.
Não importava quantos anos tivesse demorado para chegar até aqui. Aquela seria a primeira noite de uma busca que, de algum jeito, já me pertencia antes mesmo de começar.