- Cinco anos fora e você não consegue nem ser pontual pra me buscar, Pedro? Sério mesmo?
No instante seguinte, um carro preto se aproxima. Era o carro dele, que comprou a pouco tempo.
Eu sei porque vi um vídeo do caio se exibindo com o carro dele. Porque o Pedro mesmo nem liga pra isso.
Assim que reconheci o carro, já me adiantei em sair até ele.
"Até que enfim!", pensei aliviada, ajeitando as malas para correr até ele.
Mas assim que o vidro desce e a música de rock explode pelos alto-falantes, meu estômago revira Assim que eu vejo ele.
O Pedro? Não! O caio.
- Caio?
Ele sorri.
O mesmo sorriso convencido, irritante e perigoso que ele carregava desde que eu tinha memória.
- Aninha! Uau... olha só você.
"Aninha."
Aff. Aquele apelido maldito. Como eu odiava.
- Cadê o Pedro?
pergunto seca.
- Relaxa, ele não pôde vir. Mandou o substituto oficial.
- Grande coisa.
- Vai entrar ou vai ficar me encarando?
Seguro firme as malas e olhei pras malas indicando aquele troglodita que precisava de ajuda.
- Você não vai me ajudar?
- Ah, é. Esqueci que você é assim.
- Assim como?
arqueio a sobrancelha, já pronta pro embate.
Ele dá a volta no carro, pega as malas e joga no porta-malas como se fossem plumas.
- Três malas? Já não tinha roupa suficiente naquele seu closet lotado?
- Primeiro: não era nem pra você estar aqui. Segundo: são minhas roupas, então para de se incomodar.
Ele finge estar ofendido.
- Eu, fazendo favor, e você sendo grossa. Que recepção delicada, Aninha.
Bufo, me enfio dentro do carro e gravo um áudio para Pedro, ignorando Caio o máximo que consigo.
- Você me paga, Pedro! Anos sem ver a sua irmã mais nova e você manda o Caio pra me buscar? Sério, que grande consideração!
Quando termino, Caio está olhando pelo retrovisor, rindo.
- Cinco anos e parece que ficou pior.
Dou um tapa na cabeça dele.
- Ai! Tá maluca?
- Anda logo com esse carro, Caio. Você é insuportável.
- Eu? Você que é mimada.
- Mimada uma ova!
- Olha a boca, vou contar prós seus pais.
Reviro os olhos. O Pedro me paga!
Ele dá partida ainda com aquele sorriso ladino que me faz querer arrancar os cabelos.
No caminho, fico mexendo no celular, mas sinto o olhar dele sobre mim, insistente, pelo retrovisor.
Fingindo indiferença. O silencio até que tá durando, olha.. tô impressionada.
Mas logo me arrependo do que pensa quando ele liga o som.
Um rock pesado ecoa pelo carro, quase estourando meus tímpanos.
- Sério isso?
digo, já irritada.
Ele canta junto, desafinado de propósito, e eu não aguento.
Me inclino para frente e tento desligar o som, mas ele segura meu pulso.
- Nem pensa nisso, Aninha.
- Desliga, Caio!
- Relaxa.
- Des...li...ga!
sibilo, quase em cima dele, tentando alcançar o painel.
Ele ri.
- Deixa de ser chata.
- E você de ser horrível!
No meio da briga, o carro para no sinal vermelho. Meu joelho desmorona no banco, deslizando e meu coração vai na boca.
- Ah!!
Nossos rostos ficam perigosamente próximos, respirações misturadas, e de repente... os lábios se roçam.
Meu coração dispara.
Não. Não, não, não.
Nossos olhos se encontram.
O dele brilha com uma ironia silenciosa, como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo. O meu... em choque.
Droga!
Uma buzina estrondosa corta o momento.
- BIBIIIIII!..
seguida por outras.
Pisco, voltando para a realidade.
- Tá vendo o que você fez?!
- Eu? Você que se jogou em cima de mim.
- Eu me joguei? Tá maluco? Anda logo, Caio!
Bato no ombro dele e ele dá risada, acelerando.
- Aí agressivona!
Me encosto no banco, tentando acalmar a respiração.
Quase beijei o Caio.
O Caio!
O melhor amigo do meu irmão. O cara que sempre implicou comigo. O cafajeste número um da cidade.
Não. Isso não pode estar acontecendo.
....