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Crime, Desejo e Corrupção

Crime, Desejo e Corrupção

5.0
19 Capítulo
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O delegado Marco Duarte é a própria lei na cidade... e também o homem mais perigoso dela. Respeitado pela imprensa, temido pelos criminosos e protegido por homens poderosos, ele construiu um império onde corrupção, violência e segredos caminham lado a lado. Ninguém toca em Marco. Ninguém o desafia. Porque todos sabem que homens como ele não perdem. Até Diana aparecer. Determinada a derrubar a rede criminosa que domina a cidade, a inspetora entra em um jogo muito maior do que imaginava. O problema é que, quanto mais se aproxima da verdade, mais se aproxima dele do homem frio, manipulador e irresistivelmente perigoso que parece enxergar cada fraqueza sua antes mesmo que ela perceba. Entre investigações, ameaças, desejo proibido e traições, Diana descobre que a linha entre justiça e pecado pode desaparecer rápido demais. E se apaixonar pelo homem que deveria prender talvez seja o erro mais mortal da sua vida.

Índice

Crime, Desejo e Corrupção Capítulo 1 Prólogo

PRÓLOGO - O HOMEM QUE BRINCAVA DE DEUS (NARRADO POR MARCO)

O Rio de Janeiro amanhecia bonito para quem olhava rápido, tá ligado?

Para turista deslumbrado que acha que a cidade é só a moldura de Copacabana.

Para político em campanha que cospe promessa barata antes de assinar o arrego.

Para gente burra o suficiente pra acreditar que um cartão-postal esconde a podridão de um Estado inteiro.

Lá de cima da minha cobertura envidraçada na Barra da Tijuca, o cenário parecia uma pintura viva, daquelas que custam milhões em leilão: o mar lá no fundo refletindo o primeiro vermelho-sangue do sol, os prédios espelhados brilhando como lâminas de bisturi recém-afiadas, e as avenidas principais já pulsando com o fluxo interminável de carros. Uma selva de concreto e asfalto acordando para mais um dia de moer carne humana.

Mas eu enxergava o que existia por baixo da maquiagem, parceiro. Sempre enxerguei. O Rio não era uma cidade de verdade. Era um animal ferido, com as vísceras expostas, tentando esconder o cheiro da própria carniça pra não atrair mais urubu.

E eu adorava isso. O caos é o meu habitat natural.

Segurei a taça de uísque escocês puro, sem gelo pra não batizar o sabor do poder, enquanto observava a névoa de poluição e a fumaça subindo lenta da Avenida Brasil, bem lá ao longe. Caminhões carregados, ônibus superlotados, marmiteiros correndo atrás de salários miseráveis enquanto acreditavam, na sua inocência patética, que possuíam algum tipo de controle sobre a própria vida.

Rebanho. Gado marcado.

Todo mundo precisa de um pastor segurando a coleira com força. Todo império precisa de medo pra não desabar. Toda ordem social nasce de uma violência muito bem executada. A única diferença entre mim e o resto dos homens que usam distintivo é simples: eu aceitei isso cedo demais. Eu parei de chorar pelos mortos e comecei a lucrar com eles.

O vento bateu contra os vidros blindados da cobertura, fazendo as cortinas de linho negro balançarem suavemente atrás de mim. O apartamento inteiro parecia mais um bunker luxuoso, um santuário de frieza, do que uma casa de família. Mármore italiano cobrindo o chão, esculturas importadas de leilões clandestinos, quadros de artistas renomados lavados com o dinheiro de gente que já tava enterrada a sete palmos. Nada ali dentro podia ser ligado oficialmente ao nome do Delegado Marco. Meu imposto de renda era uma obra de arte da contabilidade. E ainda assim... tudo o que os olhos alcançavam ali era meu. Comprado com o silêncio e o chumbo.

Aproximei o binóculo de alta precisão dos olhos, sentindo o metal frio contra o supercílio. O Complexo da Caveira surgia distante na lente, espalhado pelas encostas do morro como uma ferida aberta na pele da metrópole. Casas de tijolo baiano empilhadas umas sobre as outras, emaranhados de gatos elétricos cruzando o céu cinzento, becos estreitos que pareciam veias entupidas de ódio. Antenas de TV improvisadas e crianças correndo descalças perto de moleques portando fuzis de última geração, como se aquilo ali fosse a coisa mais normal do mundo.

E era. A favela só parecia caótica pra quem nunca teve a capacidade mental de entender a engrenagem. Ali existia ordem. Uma ordem brutal, cirúrgica, matemática. Uma ordem totalmente comprada por mim. Minha ordem.

Ajustei o foco da lente, sentindo a adrenalina da cocaína da noite anterior dar o último estalo na minha nuca. A viatura Bravo descaracterizada cortava a avenida em direção ao acesso principal do morro. Reconheci imediatamente a maneira como aquele carro se movia. Rápida. Precisa. Sem hesitação nas curvas. Agressiva até no jeito de frear.

Diana.

Um pequeno sorriso de canto puxou a minha boca, um gesto puramente cerebral. Ah... Diana. Minha melhor policial, minha mente mais brilhante na Narcóticos. Meu maior erro estratégico e, sem dúvida alguma, o meu projeto favorito.

Eu vi pela lente quando ela reduziu a velocidade antes mesmo de chegar à subida principal do Complexo. Inteligente. Instintiva demais. O corpo daquela garota já percebia o perigo flutuando no ar antes mesmo de a mente dela conseguir formular uma explicação lógica. Gostava disso nela. Diana não era só uma policial treinada em cartilha de academia; ela sobrevivia pelas rachaduras do sistema. Enquanto os outros policiais enxergavam apenas o protocolo padrão de abordagem, ela enxergava o padrão do comportamento humano. Onde os idiotas da corporação viam silêncio, ela escutava a ameaça sussurrando.

E naquela manhã específica... o morro inteiro estava silencioso até demais. Nenhum rojão estourando no céu pra avisar a chegada da polícia. Nenhum radinho chiando nas esquinas. Nenhum vapor na contenção armada das barricadas. Nada. Um vazio absoluto.

E por que isso? Porque eu tinha comprado aquele silêncio com o dinheiro da própria rota que ela tava investigando. Paguei caro por aquela calmaria. Os olheiros do tráfico foram ordenados a se retirar. Os gerentes da boca receberam o triplo do lucro do dia pra desaparecerem por algumas horas com o bando. Em troca daquele espaço vazio, meus homens assumiram cada laje estratégica. Homens que não usavam farda, mas roupas táticas pretas. Homens treinados por ex-militares estrangeiros. Atiradores que não deixavam cápsulas no chão e que matavam com a mesma naturalidade de quem troca de roupa. Meu exército particular. O meu verdadeiro distintivo de poder.

O SACRIFÍCIO NO TABULEIRO

O rádio oficial preso na minha cintura chiu, quebrando a paz da cobertura.

Unidade Bravo em deslocamento. Iniciando incursão na Baixa da Caveira.

A voz dela atravessou a frequência. Seca. Profissional. Controlada ao extremo. Mas eu conhecia a Diana o suficiente, cada traço da personalidade dela, pra perceber o detalhe escondido na respiração curta que ela tentava disfarçar. Ela estava desconfiada. Muito desconfiada. O estômago dela tava conversando com o perigo. E isso tornava o meu jogo muito mais delicioso.

Levei a taça de uísque até os lábios, sentindo o líquido queimar a garganta, enquanto observava a viatura branca entrar exatamente na zona de exclusão, a área perfeita da emboscada. A cidade inteira, do playboy da Zona Sul ao morador do subúrbio, acreditava que eu era um símbolo de integridade. Dr. Marco. O Intocável. O homem que enfrentava o crime organizado sem dar um passo atrás. A mídia me adorava, os jornais me davam capa, políticos de Brasília me bajulavam atrás de apoio. A população gritava o meu nome nas redes sociais como se eu fosse algum tipo de salvador armado enviado dos céus.

Patético. Chegava a ser cômico. As pessoas precisam desesperadamente acreditar em heróis porque são covardes demais pra admitir que são governadas e protegidas por monstros. E eu? Eu já tinha aceitado a minha natureza de predador fazia muito tempo. A verdade nua e crua é simples: a justiça nunca passou de uma utopia pra consolar fraco. O que existe é poder. Controle. Influência. Dinheiro grosso mudando de mão. O resto é só propaganda institucional pra manter o pobre obediente dentro da senzala moderna.

Abaixei lentamente o binóculo, sentindo o peso do vidro na mão.

Veja bem, Diana... - murmurei contra o reflexo do vidro da cobertura, quase num tom carinhoso. - A curiosidade sempre leva a ovelha mais esperta até o matadouro.

O primeiro disparo veio seco. Silencioso, vindo de um rifle com supressor de ruído de última geração. Cirúrgico. A porta do carona da viatura explodiu em metal retorcido e estilhaços. Depois disso, o inferno desceu o morro sem pedir licença. Rajadas de fuzil ecoaram morro acima como uma tempestade de aço puro. O vidro blindado da Bravo estilhaçou sob o impacto sequencial de projéteis perfurantes. O parceiro dela, aquele moleque novato que eu mandei junto só pra fazer número, entrou em pânico imediatamente, tentando chutar a porta lateral pra sair.

Morreu antes do segundo passo. Um tiro de 7.62 no pescoço. Limpo. O sangue dele espirrou na lataria branca da viatura oficial como tinta fresca numa tela em branco.

Mas a Diana... Ah, a Diana era um bicho diferente.

Ela se jogou no asfalto quente antes mesmo de a segunda rajada de metralhadora atingir o capô do carro. Rolou para trás de uma mureta de concreto de esgoto com uma velocidade que desafiava a física. Sacou a Glock ainda no meio do movimento de queda, buscando a origem do fogo. Instinto puro. Uma predadora nata nascida no meio do lixo e do chumbo. Meu peito aqueceu num prazer doentio e estranho enquanto eu assistia àquela cena pela lente. A maioria dos policiais entra em choque, chora ou reza quando entende que foi traída e vai morrer. Diana não. O perigo fazia a mente dela clarear. Ela ficava mais letal quando o sangue dos outros tocava o chão.

Peguei o meu rádio de frequência privada, aquele canal criptografado que a tecnologia da Polícia Federal jamais conseguiria interceptar ou grampear. Minha voz saiu calma, pausada, com a autoridade inquestionável de quem comanda o tabuleiro.

Aqui é o delegado Marco para todas as unidades na escuta. Situação sob controle tático na área periférica. Operação na Caveira está suspensa devido ao risco iminente de explosão em depósito de gás clandestino. Todas as viaturas de apoio devem recuar e aguardar no perímetro externo da avenida. Repito: ninguém entra na zona quente sem autorização expressa da minha assessoria superior. Ninguém.

Silêncio na linha. Depois, as confirmações começaram a pipocar na frequência, uma atrás da outra. Obediência cega. Era isso que o verdadeiro poder fazia com os homens. Eu não precisava gritar, não precisava puxar o gatilho no meio da rua, não precisava ameaçar a família de ninguém. Bastava a minha voz existir para que a realidade se moldasse ao redor do meu comando.

A MORTE DA ESPERANÇA

Voltei o foco do binóculo para a mureta onde Diana estava encurralada. E então aconteceu. O momento exato. A quebra da alma. Ela pegou o rádio dela, ouviu a minha ordem de suspensão, ouviu o bloqueio do reforço. Ficou totalmente imóvel por dois segundos. Apenas dois segundos. Foi o suficiente para uma mente brilhante como a dela processar o tabuleiro inteiro.

Eu vi pela lente o momento exato em que a esperança na instituição morreu dentro daqueles olhos escuros. Não era medo do fim. Era algo muito pior, algo que rasga por dentro: a certeza da traição. A expressão do rosto dela endureceu de uma forma que chegava a ser bonita, quase artística. O maxilar travado, os olhos frios como duas pedras de gelo, o corpo inteiro assimilando que ninguém, absolutamente ninguém, viria salvá-la daquele buraco. Porque o mestre em quem ela confiava cegamente era o mesmo arquiteto que tinha assinado e carimbado a sua sentença de morte.

Por um instante, achei que ela aceitaria o destino e tentaria uma rota de fuga desesperada pelos bueiros. Mas a Diana sempre carregou o defeito fatal de todos os idealistas que eu mandei pra vala: ela lutava com mais força quando já sabia que a derrota era certa.

Ela colocou a cabeça pra fora da cobertura da mureta. Um disparo. Um dos meus atiradores de elite caiu de cima da laje de amianto como um saco de batatas. Outro tiro ritmado, sem errar a massa. O segundo homem despencou no beco. O terceiro tentou reposicionar a mira do fuzil e levou um projétil cravado bem no meio do peito. Preciso. Sem um milímetro de hesitação. O meu sorriso cresceu devagar na cobertura vazia.

Isso... - sussurrei para o reflexo no vidro, sentindo um tesão psicológico indescritível. - Mostra pra mim quem você realmente é quando tiram o teu chão, Diana.

Um arrepio genuíno percorreu a minha nuca. Era algo quase íntimo, um elo de sangue entre o criador e a criatura. Porque naquele exato instante, sob a chuva de balas da Caveira, Diana deixava de ser uma funcionária do Estado, deixava de ser uma policial caxias guiada por livrinho de regras. Ela estava nascendo para algo muito mais real e poderoso. O ódio. O ódio verdadeiro, destilado na traição, transforma qualquer pessoa comum numa arma de destruição em massa. E eu queria ver até onde aquela loba seria capaz de caminhar no escuro por causa desse sentimento.

Fechei o binóculo devagar, guardando o brinquedo na caixa de veludo. O sol já subia forte e violento sobre o skyline do Rio de Janeiro, esquentando o vidro da cobertura. Lá embaixo, o som distante dos tiros continuava ecoando entre as vielas e os barracos do Complexo da Caveira, mas o volume tava diminuindo. Meus homens tavam recuando conforme o plano. Eu sabia que ela sobreviveria. Diana conhecia aqueles becos como conhecia a própria respiração, ela tinha o mapa daquela favela desenhado na mente. E, no fundo da minha psicopatia, eu não queria ver o corpo dela num saco preto hoje. Ainda não. O jogo tava ficando complexo e interessante demais para acabar logo no primeiro ato.

Peguei as chaves da Range Rover blindada sobre a bancada de mármore da cozinha. Era hora de vestir a minha outra pele. Hora de colocar a máscara do paladino.

A MÁQUINA DE MOER VERDADES

O elevador privativo desceu silencioso, sem solavancos, até a garagem subterrânea do edifício. Assim que as portas de metal se abriram, encontrei o meu SUV preto me esperando na vaga isolada como um animal faminto pronto para a caça urbana. Blindagem nível máximo, motor modificado para interceptação, documentação fantasma totalmente limpa nos registros do Detran. O dinheiro e o medo resolvem qualquer entrave burocrático nesse país. Entrei no carro, bati a porta e dei a partida no motor. O ronco grave do V8 vibrou nas paredes de concreto do estacionamento vazio.

Enquanto eu saía da garagem em direção à orla, o meu celular funcional começou a vibrar no console central sem parar, uma árvore de natal de notificações. Mensagens criptografadas de aplicativos estrangeiros. Deputados estaduais nervosos, empresários que financiavam as campanhas da cúpula, secretários de segurança pública apavorados com a repercussão de um tiroteio daquela magnitude em horário de pico. Todos desesperados pra saber se a operação tinha saído do controle do "Dr. Marco".

Engraçado. Chegava a ser hipócrita. Eles sempre agiam como puritanos moralistas diante das câmeras dos telejornais, chorando pelos cantos e pedindo paz, mas bastava a cidade ameaçar explodir ou o lucro deles correr risco que corriam pro meu gabinete como ratos assustados atrás do dono do veneno. Eles sabiam que eu era o único capaz de manter a engrenagem rodando sem travar.

Passei pela praia da Barra observando o reflexo dourado do sol batendo nos prédios espelhados da orla. O Rio de Janeiro era lindo visto de longe. Lindo e reluzente como uma arma banhada a ouro nas mãos de um louco. E exatamente tão letal quanto.

Encostei a cabeça no banco de couro por um instante enquanto o sinal fechava. Lembrei perfeitamente do primeiro dia da Diana na minha divisão de inteligência. Ela entrou na sala usando aquele olhar feroz, aquela chama quase infantil de quem ainda acreditava piamente na palavra "justiça". Jovem, extremamente inteligente, ambiciosa ao extremo. Perigosa para o sistema. Eu reconheci aquele olhar na mesma hora em que apertei a mão dela. Porque muitos anos antes, antes de eu enterrar o meu pai e ver o sangue dele escorrer pelo bueiro por causa de erro do Estado, aquele tinha sido o meu olhar também. Antes de eu entender que a honestidade não sustenta império nenhum e que o distintivo só serve pra te dar o álibi pra fazer o que precisa ser feito.

Treinei a Diana pessoalmente, como se fosse uma filha. Ensinei a ela como ler uma cena de crime real, como extrair a verdade num interrogatório destrinchando a linguagem corporal do criminoso, como detectar uma mentira sutil pelo movimento das mãos ou pela dilatação da pupila. Ensinei a garota a sobreviver na guerra invisível que acontece nos bastidores do Rio. Eu queria moldá-la à minha imagem e semelhança. Queria transformá-la na minha sucessora natural no comando do crime oficial.

Mas ela cometeu o erro fatal dos curiosos: começou a cavar fundo demais onde a terra já tava fofa de tanto corpo enterrado. Começou a perceber os sumiços estranhos de relatórios de apreensão. Adulteração de pesagem de cocaína nos depósitos da delegacia. Operações que geravam lucro excessivo pra empresários da Zona Oeste. Armas confiscadas que sumiam do sistema e apareciam nas mãos de milicianos na semana seguinte. Ela tava chegando perto demais da minha mesa de mogno. E gente curiosa demais no meu mundo só tem dois caminhos possíveis, parceiro: ou vira cadáver com boca cheia de formiga, ou vira monstro e senta do meu lado pra dividir o banquete.

Ao passar pelo acesso da Linha Amarela, dois policiais militares que faziam a blitz bateram continência em respeito quando viram a placa oficial do meu carro. Quase dei uma gargalhada alta dentro do veículo blindado. Se aqueles dois idiotas soubessem que metade da munição de fuzil que tava sendo disparada contra os colegas de farda deles naquela mesma manhã na Caveira tinha saído diretamente dos meus depósitos clandestinos na Baixada... Talvez eles ainda prestassem a continência. Talvez batessem até mais forte, esperando uma fatia do bolo no final do mês. A corrupção institucionalizada é muito confortável quando serve pra pagar as contas de quem tá na linha de frente passando fome.

O TEATRO DA CIDADE DA POLÍCIA

Abri o aplicativo tático no celular. Três baixas confirmadas na minha equipe de contenção no morro. Diana tava destruindo os meus homens de aluguel com a precisão de um cirurgião de guerra. Meu peito vibrou num prazer sombrio, quase orgulhoso. Aquela vadia aprendia rápido demais. Muito mais rápido do que eu tinha planejado.

Digitei uma mensagem curta, usando o teclado alfanumérico do aparelho, direto pro meu contato de confiança dentro da Corregedoria Geral:

"Preparar laudo psiquiátrico de urgência. Diana Veiga apresentando quadro de instabilidade mental grave pós-trauma em operação. Iniciar protocolo de afastamento imediatamente."

Enviei. Mensagem apagada automaticamente. Fim da linha burocrática.

É assim que se mata uma loba hoje em dia no Rio de Janeiro, meu irmão. Você não precisa gastar uma bala de fuzil de mil reais se puder simplesmente arrancar a credibilidade dela perante o juiz. Se a Diana sobrevivesse ao tiroteio no Complexo da Caveira e conseguisse descer o morro caminhando, ela encontraria outra guerra, muito mais suja e silenciosa, esperando por ela no asfalto. A guerra da papelada. A guerra covarde dos bastidores burocráticos.

Chamariam a garota de desequilibrada mental nas redes sociais. Paranoica. Traidora da própria instituição. Inventariam provas falsas de ligação dela com o tráfico local. Alterariam os relatórios de rádio daquela manhã. Apagariam os registros de áudio do servidor central. A máquina inteira do Estado ia pisar em cima daquela inspetora até que ninguém mais no tribunal soubesse distinguir o que era verdade do que era loucura da cabeça dela. Porque o roteiro já tinha sido escrito, revisado e assinado por mim muito antes de o primeiro tiro ser disparado na Brasil. E o Rio de Janeiro adorava comprar as minhas histórias com palmas.

Entrei nos portões da Cidade da Polícia poucos minutos depois, cortando o pátio principal. Assim que estacionei na minha vaga privativa e saí do carro, senti a eletricidade da tensão flutuando no ar condicionado do saguão. Rádios disparando chamadas frenéticas na frequência aberta. Agentes correndo de um lado pro outro portando fuzis e coletes táticos. Telefones fixos tocando em todas as mesas. O caos perfeito que eu precisava pra montar a minha cortina de fumaça.

O Comissário de plantão apareceu quase tropeçando nos próprios pés na minha direção. O rosto suado, a camisa desajeitada, o desespero estampado nos olhos gordos.

Delegado Marco! Pelo amor de Deus, senhor! A unidade Bravo foi emboscada na subida da Caveira! A inspetora Diana e o novato tão encurralados na favela! O rádio tá mudo!

Coloquei a minha mão direita sobre o ombro dele. Um toque firme, pesado, controlado. O gesto exato que os líderes psicopatas usam quando precisam transmitir uma falsa sensação de segurança para os fracos de espírito. Olhei bem no fundo dos olhos dele, modulando a minha voz para o tom da serenidade absoluta.

Eu já estou ciente de toda a situação, Comissário. Já estou coordenando o cerco de contenção pessoalmente pelo meu canal privado. Mantenha a calma.

Uma mentira dita com a frieza de quem pede um copo d'água sempre soa dez vezes mais verdadeira do que qualquer fato documentado.

Mas senhor, pelo amor de Deus, precisamos mandar o comboio do CORE com os blindados agora mesmo pra tirar a garota de lá! Eles vão ser triturados!

Não. - cortei a frase dele imediatamente, deixando a minha voz gélida feito o metal de uma lâmina. - Aquela área de acesso virou uma armadilha tática de guerrilha urbana. Se mandarmos o comboio agora, sem inteligência de campo, nós apenas multiplicamos as nossas baixas e entregamos mais homens pro abate. Eu não vou sacrificar mais policiais por causa de um erro de percurso.

Ele hesitou por um segundo. Vi a dúvida passar pela mente burocrática dele, o impulso de questionar a lógica daquela decisão covarde. Mas então ele olhou bem para os meus olhos vazios. E, como todos os outros medíocres daquela repartição, ele apenas abaixou a cabeça, aceitando o comando do dono da coleira. Obediência outra vez. O poder é um anestésico social maravilhoso.

Monte um gabinete de crise na sala principal de monitoramento - ordenei, limpando a poeira invisível do meu terno. - Quero todas as comunicações daquela área filtradas direto pelo meu terminal antes de irem pro sistema. Ninguém fala com a imprensa sem a minha assinatura no release.

Sim, senhor delegado. Imediatamente.

O RETRATO DA INOCÊNCIA

Entrei na minha sala da chefia e bati a porta pesada de madeira. O silêncio voltou a reinar no meu espaço, quebrando o ruído do corredor. Finalmente sozinho. Afrouxei o nó da minha gravata de seda lentamente enquanto observava o movimento da avenida pelas frestas das persianas semiabertas. O sol agora queimava o asfalto lá fora.

Então meus olhos caíram sobre o porta-retratos de metal escovado em cima da minha mesa de mogno. Diana. A foto oficial da formatura dela na academia da polícia, três anos atrás. Ela parecia tão mais jovem ali, com um sorriso discreto no canto dos lábios e o orgulho estampado na postura ereta, segurando o diploma como se aquela folha de papel valesse alguma coisa. Ainda acreditando de verdade que o distintivo no peito significava honra, moralidade e dever cumprido.

Peguei a moldura pesada nas mãos, sentindo o vidro frio contra os meus dedos suados. Fiquei olhando para aquele rosto jovem por alguns segundos, apreciando a pureza daquela ignorância que eu tava prestes a destruir por completo.

Depois, com um movimento lento e deliberado, virei o porta-retratos de cabeça para baixo contra a madeira escura da mesa, escondendo o sorriso dela.

Bem-vinda ao mundo real, inspetora... - sussurrei para a sala vazia.

Sentei-me na minha cadeira de chefe, sentindo o couro preto ranger baixo sob o meu peso. Lá fora, o Rio de Janeiro continuava o seu curso normal de loucura cotidiana. Gente comum correndo pro trabalho pra não ser demitida. Crianças entrando chorando em escola pública sem estrutura. Casais brigando por causa de trânsito na Linha Vermelha. Ambulantes montando barraca de fruta estragada na calçada. Tudo perfeitamente normal na superfície da engrenagem.

E enquanto isso acontecia na engrenagem do asfalto, no alto de um morro cercado de lixo e sangue, uma mulher de distintivo descobria da pior forma possível que o homem que ela tinha como pai, como mentor e como herói máximo da vida era o próprio demônio vestindo a farda oficial que ela jurou honrar.

E essa compreensão ia mudar toda a história do crime nessa cidade. Porque a Diana não era do tipo de policial que aceitava virar corpo estatístico e morrer quieta num beco sem revidar. Ela ia sobreviver àquela manhã de chumbo. Eu sabia disso. E quando ela conseguisse sair daquela favela, ela viria atrás de mim com tudo o que tinha no peito. Viria armada com o ódio mais puro, com uma obsessão doentia que destruiria o sono dela, com uma sede de vingança que consumiria as entranhas dela até não sobrar mais nada daquela menina da foto.

E para conseguir chegar perto da minha mesa, para conseguir me alcançar no topo desse castelo de cartas marcadas, ela teria que pisar exatamente em cima de todas as linhas morais que ela jurou nunca cruzar na vida. Ela teria que mentir pro juiz. Teria que manipular provas pra conseguir mandado. Teria que torturar informante no escuro pra arrancar nome de miliciano. Teria que quebrar cada protocolo de direitos humanos que ela defendia nas reuniões. Ela teria que matar quem ficasse no caminho.

A metamorfose da loba em monstro já tinha sido iniciada com o meu primeiro comando de rádio.

Sorri sozinho na penumbra da sala blindada, tomando o último gole do uísque quente que eu tinha trazido no frasco de bolso. No fim de tudo, esse sempre foi o meu verdadeiro experimento social. Não era pelo controle do tráfico de armas, não era pelos milhões lavados em contas de fachada nas Bahamas, não era pela influência política no palácio do governo. Era pelas pessoas. Pela brincadeira de ser Deus com o destino alheio.

Até onde um ser humano considerado "justo" consegue manter a própria alma intacta e limpa quando é jogado sem corda no fundo do inferno que eu gerencio? A maioria quebra na primeira semana, chora e aceita o suborno pra comprar apartamento em Cabo Frio.

Mas a Diana... Ah... A Diana tinha o sangue ruim do pai dentro dela. Ela não ia aceitar o dinheiro. Ela ia querer o meu sangue. E isso fazia dela o meu projeto mais perigoso e espetacular. Ela talvez sobrevivesse tempo suficiente pra aprender o meu jogo e se transformar em algo infinitamente pior, mais cruel e mais implacável do que eu jamais fui.

Peguei o celular funcional sobre a mesa outra vez. Uma nova notificação criptografada piscou na tela escura, direto da frequência tática dos meus capangas:

"Alvo Bravo quebrou o cerco sul. Escapou da zona vermelha pelos fundos do valão. Baixas adicionais na equipe."

O meu sorriso cresceu devagar, mostrando os dentes brancos e alinhados. Claro que ela tinha escapado. Eu não esperava nada menos da minha melhor criação.

Levantei-me da cadeira de couro e caminhei novamente até a janela panorâmica da chefia. O Rio de Janeiro brilhava intensamente sob o sol forte das dez da manhã, parecendo uma joia amaldiçoada flutuando no oceano de lama da própria história. Lindo por fora, extremamente violento por dentro, podre até a última raiz do poder público.

Perfeito para o meu governo das sombras.

Vamos ver até onde o teu caráter de cidadã de bem aguenta o tranco, Diana... - murmurei para o meu próprio reflexo cínico no vidro espelhado.

Porque no final dessa guerra que eu acabei de desenhar, não iam existir heróis salvando a pátria pra ganhar medalha em desfile de sete de setembro. Não ia existir o bem vencendo o mal. Iam sobrar apenas dois predadores de elite usando máscaras de autoridade diferentes, disputando quem morde mais forte no escuro da lei. E eu mal podia esperar pra ver qual dessas faces a minha inspetora escolheria usar quando finalmente entendesse a verdade mais cruel, fria e real de todas as ruas dessa cidade de merda:

O Rio de Janeiro não destrói os monstros que nascem no esgoto. O Rio de Janeiro adota eles, dá um terno de grife, coloca uma estrela no peito e chama eles de Excelência. E a Diana tava prestes a aprender a governar o inferno junto comigo. Que comece o espetáculo.

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