Ele tratou a destruição do nosso casamento como um acordo de negócios.
Tentei falar sobre a dor que devorava minhas entranhas, o câncer em estágio IV que tornava o simples ato de ficar de pé uma agonia. Mas ele apenas revirou os olhos, chamando minha fraqueza de "ciúme" e meu silêncio de "teatrinho".
Ele chegou a destruir nossa primeira casa - o esconderijo onde nos apaixonamos - para construir um quarto de bebê para ela.
Quando finalmente perguntei: "E se eu estiver morrendo?", ele nem sequer fez uma pausa a caminho da porta.
- Então morra em silêncio - ele disse. - Já tenho dores de cabeça demais por hoje.
Então, eu o fiz.
Queimei cada foto nossa. Assinei os papéis do divórcio. E fui a um cemitério municipal comprar um túmulo com meu nome de solteira, longe do mausoléu da família dele.
Morri sozinha em um banco de pedra frio, exatamente como ele pediu.
Foi só quando ele ficou de pé no necrotério, segurando minha mão esquelética e percebendo que eu não pesava nada além de ossos e luto, que o Rei de São Paulo finalmente quebrou.
Ele encontrou meu diário no lixo, onde eu havia escrito minha última anotação:
"Eu queria nunca ter conhecido Dante Costello."
Agora, ele está de joelhos na terra, implorando por um perdão que nunca virá a uma lápide fria.
Capítulo 1
A médica me disse que eu tinha trinta dias de vida. Exatamente dez minutos depois, meu marido me disse que sua amante estava grávida.
Eu estava sentada no meio da vasta sala de estar da mansão dos Costello. O piso de mármore era frio o suficiente para atravessar minhas meias e gelar meus ossos, mas o frio dentro do meu peito era muito pior. Esta casa era uma fortaleza. Foi construída com dinheiro de sangue, extorsão e o tipo de violência que faz a polícia de São Paulo olhar para o outro lado.
Meu marido, Dante Costello, construiu isso.
Ele entrou pelas portas duplas de carvalho, trazendo consigo o cheiro de frio e pólvora. Ele era o Chefe do Comando de São Paulo. Um homem que controlava os sindicatos, o porto de Santos e a vida de qualquer um que respirasse em sua cidade. Quando nos conhecemos, ele era apenas um soldado da rua com os nós dos dedos machucados e o sonho de um império. Eu costumava costurar seus ferimentos de faca no banheiro do meu conjugado enquanto ele me prometia o mundo.
Agora ele era dono do mundo, e eu era apenas um fantasma assombrando seu corredor.
Ele não olhou para mim. Estava no celular, sua voz baixa e perigosa, latindo ordens sobre uma carga na Zona Sul. Ele desligou e finalmente me notou sentada no sofá branco.
- Helena - ele disse. Sua voz costumava ser o som da minha segurança. Agora soava como um juiz lendo uma sentença. - Precisamos falar sobre o acordo.
Ele se referia a Lorena.
Ela era a solução para seu único fracasso. Sete anos de casamento. Nenhum herdeiro. Em nosso mundo, um Chefe sem um filho é um homem com um alvo nas costas. Quando os médicos nos disseram que o problema era comigo, Dante ficou na frente de seus Capitães e assumiu a culpa para proteger minha honra. Eu o amei por isso. Eu o venerei por isso.
Mas isso foi antes da pressão quebrá-lo. Isso foi antes de ele decidir que o amor era um luxo, mas um legado era uma necessidade.
- A Lorena vai se mudar para a Ala Leste - ele disse, desabotoando os punhos da camisa. - Ela está entrando no segundo trimestre. Precisa da segurança da mansão principal.
Ele disse isso casualmente. Como se estivesse falando de mover um móvel, não de trazer a mulher que carregava seu filho para a casa que construímos.
Olhei para o vaso sobre a mesa. Era de cristal, importado da Itália. Levantei-me e o varri para o chão.
O barulho foi alto. Ele se estilhaçou em mil diamantes irregulares.
Dante não se abalou. Ele apenas olhou para a bagunça, depois para mim, com olhos que eram negros e mortos.
- Pare de agir como uma criança, Helena.
- Eu sou sua esposa - sussurrei. Minha voz tremia. Não de medo. Do câncer comendo meu pâncreas. Da dor irradiando nas minhas costas que eu vinha escondendo com aspirina e sorrisos por semanas.
- Você é minha esposa - ele concordou, passando por cima do vidro. - E ela é a mãe do futuro Chefe. É um acordo de negócios. Você conhece as leis da Omertà. Sentimentos não ditam a sobrevivência da Família.
Ele caminhou até o bar e serviu uma bebida. Parecia exausto. Ser um Rei é um trabalho cansativo.
- Eu quero o divórcio - eu disse.
O copo parou a meio caminho de seus lábios. O silêncio se estendeu, tenso e sufocante. Na Máfia, você não se divorcia. Você morre, ou fica viúva. Não há papelada para ir embora.
Ele se virou lentamente. Um sorriso cruel brincou em seus lábios. Era um olhar que eu o vira dar a homens antes de colocar uma bala em suas cabeças.
- Um divórcio? - ele perguntou. - E ir para onde? Voltar a servir mesas? Tudo o que você veste, tudo o que você come, o ar que você respira nesta cidade é porque eu permito.
- Eu só quero ir embora, Dante.
Ele riu. Foi um som sombrio e seco. - Você está histérica. Está com ciúmes. Eu entendo. Mas não me ameace com ir embora. Você é uma Costello. Você me pertence.
Ele bebeu o uísque de um gole e pousou o copo pesadamente no balcão.
- Estou fazendo isso por nós - ele disse, sua voz baixando para um rosnado. - Pelo nome. Assim que o menino nascer, Lorena será compensada e removida. Você vai criá-lo. Você será a mãe.
Senti o bile subir na minha garganta. Ele queria que eu criasse a prova de sua traição.
- Eu não consigo mais fazer isso - eu disse, agarrando meu estômago enquanto uma cãibra aguda torcia minhas entranhas.
Dante olhou para minha mão apertando meu abdômen. Ele revirou os olhos.
- Pare com o teatrinho, Helena. Você não é a vítima aqui. Eu sou quem está impedindo esta cidade de queimar enquanto garanto que tenhamos um futuro.
Ele olhou para o relógio.
- Tenho que ir. A Lorena tem um ultrassom. Não me espere acordada.
Ele caminhou em direção à porta. O homem que uma vez se ajoelhou na chuva para amarrar meu sapato porque eu tinha uma bolha. O homem que incendiou um armazém porque um rival olhou para mim de forma errada.
- Dante - eu disse.
Ele parou, a mão na maçaneta de latão.
- E se eu estiver morrendo? - perguntei.
Ele não se virou. Ele não fez uma pausa.
- Então morra em silêncio - ele disse. - Já tenho dores de cabeça demais por hoje.
A porta bateu. O eco ricocheteou nas paredes frias de mármore. Tirei o laudo médico do meu bolso, o papel amassado e quente do meu aperto. Estágio IV. Inoperável.
Olhei para o calendário na parede. Dia um do meu longo adeus.