- Você está linda - Rafael sussurrou, me puxando pela cintura com o sorriso fácil que sempre usava para me desarmar.
Desde o terceiro ano do ensino médio, ele dizia que um dia eu seria dele. Ele lutou por mim, me conquistou, e em todos esses anos se mostrou um homem de caráter incorruptível. Minha família o adorava.
- Todos dizem que sou sortuda - murmurei, enquanto garçons passavam com champanhe.
- Eles estão certos - ele beijou meu ombro nu. - Mas eu sou o mais sortudo.
Os convidados sorriam ao nos ver. Ele fazia questão de mostrar ao mundo que me tinha nos braços. E eu... eu o amava. Não um amor ingênuo de filme, mas um amor de cumplicidade, de noites dividindo segredos e manhãs em lençóis amarrotados.
- Seu tio está nos observando de novo - comentei, rindo entre dentes. - Acha que ele está desconfiando?
Rafael seguiu meu olhar. Do outro lado do salão, Lúcio, o poderoso e temido empresário, nos observava com uma expressão sombria, quase predatória. Um homem que já teve o mundo nas mãos e agora mal conseguia levantar um copo. O dinheiro não era capaz de salvá-lo da maldição de ser ganancioso e cruel.
- É só a cara de quem está prestes a perder metade de tudo - Rafael brincou, me puxando para mais perto. - E a culpa vai ser sua.
- Minha?
- Você é irresistível - ele respondeu, mordendo o lábio. - Casar com você foi a melhor coisa que fizemos. Seu futuro está garantido ao meu lado.
O dinheiro de Rafael nunca me interessou. Eu tinha meus próprios planos. Mas casar com ele agora era a chave para a herança que seu tio havia travado. Parte da fortuna de Lúcio. E com a saúde frágil do tio, era questão de tempo até conseguirmos o resto.
Desde que o irmão de Lúcio morreu, ele se tornou um homem que inspirava medo e pânico. Eu o conhecia há quatro anos, quando tinha dezoito e comecei a namorar Rafael. Hoje, mesmo com seu porte atraente, Lúcio era apenas uma casca doente, definhando. Mas algo nele não se rendia. Um olhar que atravessava, que lia além do véu, além do vestido. Eu tinha medo que ele soubesse o que Rafael estava tramando.
- Rafael, é tão desconfortável ele nos observando... - comecei, mas quando olhei para ele, sua expressão havia mudado.
Ele estava com o celular na mão, o rosto fechado, como se algo o incomodasse.
- Preciso atender uma ligação de negócios. Volto em quinze minutos. Continue sorrindo e sendo perfeita, como sempre.
Beijou minha testa e entrou no elevador que levava à suíte presidencial.
Eu continuei sorrindo. Aceitei parabéns, bebi mais champanhe, ri das piadas sem graça dos acionistas. Mas depois de alguns minutos, um deles se aproximou.
- Sabe onde está o Rafael? Ele ficou de me apresentar ao consultor...
Olhei para o relógio. Já faziam vinte minutos. O tempo esticou. Meu instinto, que nunca falhava, começou a latejar.
- Vou ver se ele já terminou.
Desculpei-me, ajeitei a saia do vestido e caminhei até o elevador. Meu coração batia num ritmo estranho. Ele estava demorando mais do que o previsto. Onde ele estava?
E, no fundo, eu já sabia: algo estava terrivelmente errado.