Livros e Histórias de Xu Shi Nian
O Filho, O Legado
O barulho na sala de desenvolvimento era quase insuportável, não pelos teclados, mas pela cena no centro: Patrícia, minha ex-melhor amiga, segurando o filho que teve com Marcos, meu ex-noivo, rindo alto como se fosse a dona do lugar. E, de certa forma, era. Eles tinham tomado tudo de mim cinco anos atrás, expulsando-me da empresa que fundei, grávida e sozinha. O menino, de uns quatro anos, correu e quase derrubou um monitor caro. "A mamãe e o papai construíram tudo isso para você, sabia? Um dia, tudo isso será seu", Patrícia melosamente disse, seus olhos encontrando os meus em um claro desafio. Todos a tratavam como rainha, a esposa do chefe, a mãe do herdeiro. Para eles, eu era só Ana, uma desenvolvedora sênior que, misteriosamente, voltara à empresa que um dia fundou como mera funcionária. Ninguém sabia que cada linha de código de "Crônicas Astrais"- o jogo de ouro da empresa - saiu de minhas noites em claro. Minha mente voltou às noites em que eu e Marcos sonhávamos juntos, enquanto Patrícia, minha "melhor amiga", nos incentivava. Mal sabia eu que, pelas minhas costas, eles armavam um plano para me destruir, usando uma procuração que assinei sem ler, grávida e cega de amor. Quando o jogo explodiu, fui expulsa com a desculpa de "diferenças criativas", sem nada. E agora, ela estava ali, sorrindo falsamente, pedindo-me para "resumir" minhas novas ideias de expansão. Aquela mesma Ana ingênua de cinco anos atrás teria cedido. Mas essa Ana estava morta. "Não", respondi, minha voz fria. O choque em seu rosto foi delicioso. Ela planejava me humilhar, mas não esperava a nova Ana. Minha fúria gélida não era apenas ressentimento; era uma promessa silenciosa de retorno. A primeira peça do dominó havia caído.
A Verdade Escondida nas Chamas
Eu estava grávida de oito meses. O fumo preenchia o apartamento, o alarme de incêndio ensurdecia. Liguei desesperada ao meu marido, Miguel. "Miguel, fogo! O prédio está a arder! Não consigo sair!" Ele mal me deixou falar. "Estou com a Sofia nas urgências. O tornozelo dela está torcido. Liga para o 112." E desligou. O meu marido escolheu uma torção de tornozelo em vez da minha vida e da do nosso filho. Pouco depois, desmaiei, o fumo a roubar-me o ar. Acordei no hospital, a barriga vazia. O nosso bebé não sobrevivera. Miguel veio ter comigo, com uma preocupação forçada, sem uma lágrima pelo nosso filho. "Estas coisas acontecem", disse ele, encolhendo os ombros. A dor transformou-se em clareza gelada. Mas a verdade era ainda mais escura: ele enviara mais de 50.000€ da nossa conta conjunta para a irmã dele. E no dia do incêndio? Um presente de cinco mil euros para Sofia, para o seu carro novo. A "urgência" dela? Uma mentira descarada para encobrir a compra do carro. Eles estavam a celebrar enquanto eu lutava para sobreviver. Este homem não me amava. Ele nem sequer me viu. Decidi que a sua série de mentiras e traições não ficaria impune. O divórcio seria apenas o começo. Eu queria justiça.
O Recomeço de Lucas
Lucas ajeitou a gravata borboleta. O perfume do coq au vin, prato favorito de Sofia, enchia o apartamento. Cinco anos de casamento. Sofia estava duas horas atrasada para o aniversário, e a comida esfriava. Quando ela chegou, sequer olhou a mesa, entregando um presente impessoal e falando ao celular com Bernardo, seu amor verdadeiro. Dona Laura, sogra de Lucas, vendo sua dor, fez uma confissão chocante: o casamento, forçado por ela, foi um arranjo precipitado. Lucas salvou Sofia de uma lancha, enquanto Bernardo hesitou. Ela propôs o matrimônio para esquecer Bernardo e financiar o tratamento da mãe de Lucas. Dona Laura, em lágrimas, ofereceu-lhe dinheiro para recomeçar em Lisboa e divorciar-se. Foi um alívio sombrio. Ele preparou sua saída. Mas Sofia, em sua alienação, assinou os papéis do divórcio pensando serem outra coisa. Lucas se mudou, mas ela, furiosa pela falta do "marido faz-tudo", bombardeou-o, enquanto Clara e Bernardo o humilhavam por telefone. A injustiça doía. "Você é um ninguém, Lucas! Um encostado!", Clara gritou. Ele era apenas uma conveniência, seu talento e sacrifício ignorados. A cegueira de Sofia e a manipulação de Bernardo eram um fardo insuportável. Contudo, a paciência de cinco anos findou. A decisão era firme. Lucas, finalmente, libertar-se-ia.
