- Mas é verdade mesmo que o Lucas traiu a Mariana? - perguntou Bruna, perto da porta da farmácia.
- Com a Cibele. Todo mundo está falando. - Débora baixou a voz, sem baixar o suficiente. - E ela nem desconfiava, coitada. Dizem que a Mariana ficou sabendo por...
Bruna cutucou a amiga com o cotovelo.
As duas se calaram de uma vez. Débora virou o rosto devagar e inclinou a cabeça, num gesto pequeno, quase gentil. Bruna fingiu ler a prancheta que tinha na mão.
Era o olhar que dizia "coitada" e "me conta tudo" ao mesmo tempo.
Mariana não diminuiu o passo nem acelerou. O aperto na prancheta aumentou mais do que o necessário.
E agora todo mundo sabia.
Entrou na sala de materiais e começou a alinhar as bandejas de instrumentos, peça por peça, com uma precisão maior do que o normal. Como se aquilo bastasse para manter o resto no lugar.
Clara, que chefiava o bloco, entrou logo atrás e fechou a porta.
- Ignora, amiga.
- Eu tô ignorando.
- Não parece.
Mariana não respondeu. Clara suspirou e tirou uma ficha do bolso do jaleco.
- Leva isso pro Alencar. Eu tô presa aqui.
Mariana hesitou meio segundo.
O doutor Gabriel Alencar era o neurocirurgião mais jovem do hospital e o mais comentado. Operava casos que outros recusavam e ninguém sabia muito sobre ele. As enfermeiras suspiravam por ele nos corredores. Ele nunca pareceu perceber.
- Tá - disse, pegando a ficha.
Bateu uma vez antes de entrar.
- Dr. Alencar?
Gabriel estava de pé junto à janela, com a manga da camisa dobrada até o cotovelo, lendo um exame contra a luz. Não se virou de imediato. Terminou de ler, devolveu o exame à pasta e só então ergueu o olhar, no tempo exato de reconhecer quem era.
Tinha o tipo de rosto que não pedia atenção e a recebia mesmo assim. Os olhos escuros, o maxilar contido, as mãos longas e firmes que, diziam, nunca tremiam, nem em sala de cirurgia.
- Pediram pra entregar isso.
Ele pegou a ficha. Os dedos roçaram nos dela, rápido demais para ser qualquer coisa, e ainda assim perceptível.
- Obrigado.
A voz saiu baixa, direta.
Mariana assentiu e se virou para sair.
Só no corredor percebeu que tinha prendido o ar. Esperava o olhar que todo mundo lhe lançava desde a manhã, aquele misto de pena e curiosidade. Ele não tinha olhado assim. Tinha olhado para ela como olhava para qualquer pessoa que entrava na sala.
Era quase um alívio. Era também estranho.
O restante da manhã passou no automático. Conferiu, preparou, organizou. Contou as compressas duas vezes só para ter o que fazer com as mãos.
Quando voltou à sala de materiais, a porta se abriu antes que ela alcançasse a mesa.
- Posso?
Mariana reconheceu a voz antes de levantar o olhar.
Cibele entrou como se tivesse todo o direito de estar ali.
- Eu não ia deixar passar sem falar com você - disse, ajustando a manga com um gesto mínimo.
Mariana não respondeu.
- Algumas coisas... já não estavam bem antes.
Silêncio.
- Às vezes a gente só demora pra perceber.
Mariana apoiou a bandeja na mesa, alinhando as bordas com cuidado demais.
- Se você veio aqui pra isso, perdeu tempo.
Cibele inclinou levemente a cabeça, tranquila.
- Não. Eu só acho que certas situações... não acontecem do nada.
Uma pausa.
- Ninguém trai sem motivo.
O olhar de Mariana subiu devagar.
- E você sabe muito bem qual foi o dele - continuou Cibele, sem pressa. - Anos de namoro e...
Deixou a frase morrer, com um sorriso discreto.
Mariana ficou em silêncio por um instante. Esperar tinha sido decisão dos dois. Ela quis que fosse depois do casamento, e ele disse que tudo bem, que não tinha pressa. Disse isso mais de uma vez, olhando nos olhos dela.
O pior não era a insinuação. Era perceber que ele tinha contado aquilo à Cibele, e que provavelmente tinha contado rindo.
Então ela levantou o queixo.
- Comigo ele esperou - disse, em voz baixa. - Com você, não precisou.
O sorriso de Cibele vacilou por um segundo.
- Ele respeitou quem queria que ficasse - completou Mariana.
Cibele ajeitou a manga outra vez, mais devagar do que antes.
- Enfim... Eu nunca escondi que gostava dele. Achei justo você ouvir de mim.
Virou-se e saiu, sem a pose de quando entrou.
O silêncio que ficou não era o mesmo de antes.
Quando finalmente conseguiu um intervalo, Mariana seguiu até a copa. O ambiente estava vazio, o som do hospital abafado pelas paredes. Ela apoiou a xícara na bancada e começou a mexer o café sem perceber.
- Turno pesado?
A voz veio atrás dela. Mariana se virou e encontrou Gabriel encostado na entrada, observando com calma. Por um segundo, não respondeu.
- Dá pra dizer isso.
Ele se aproximou sem pressa e pegou outra xícara.
- Não parece só isso.
Mariana levou a xícara aos lábios, sentiu o calor, mas não bebeu.
- Hoje todo mundo teve um assunto em comum - disse, sem encará-lo. - Eu.
- Não é da conta deles.
- Mas falam.
- Falam. - Ele serviu o café. - Eu prefiro o que dá para ver.
Mariana desviou o olhar, a unha batendo de leve na borda da xícara.
- E o que você vê?
Ele tomou um gole e apoiou a xícara com cuidado.
- Que você foi a única que não parou de trabalhar.
Ela o encarou, sem saber se aquilo era elogio ou só um fato.
- Você devia voltar.
- Eu sei.
Mas não saiu. E ele, que não tinha motivo nenhum para ficar, também não.
Quando o turno terminou, o hospital já estava mais silencioso.
Ao atravessar as portas, o ar da noite bateu no rosto, frio o bastante para fazê-la respirar de verdade. Mariana parou por alguns segundos.
Ir embora era o esperado. Em casa, só havia o peito apertado, o quarto e a mesma cama. Por isso mesmo, não foi o que fez.
Caminhou pelo estacionamento sem direção clara, o olhar passando pelos carros até parar no dele, mais ao fundo, discreto como sempre. O motor estava desligado, mas o painel ainda brilhava, como se ele também não tivesse decidido ir embora.
Ela desviou o olhar e deu alguns passos, pronta para ir. O corpo queria sair dali. A cabeça também.
Ela voltou.
Parou ao lado do carro, hesitou por um instante e bateu de leve no vidro.
Gabriel ergueu o olhar, franziu a testa e destravou a porta. Mariana mal tinha entrado quando ele perguntou:
- Algum paciente?
O silêncio dentro do carro era mais fechado, o cheiro leve de couro e algo amadeirado ficando mais evidente quando a porta se fechou.
- Não. Está tudo bem com todos.
- Então o que foi?
Ela manteve os olhos no para-brisa, acompanhando a própria respiração desacelerar aos poucos.
- Nada do hospital. Eu só não queria voltar agora.
A frase saiu baixa, mas firme.
Gabriel a olhou por um instante, como se medisse o que ela não disse.
- Isso não parece o seu tipo.
Mariana soltou um riso curto, quase inaudível.
- Acho que eu também não estou mais sendo o meu tipo. - Virou o rosto e sustentou o olhar. - Hoje eu só não quero pensar.
Ele assentiu de leve.
- Pensar evita problema.
- Não evitou.
Gabriel manteve o olhar nela por um segundo a mais, então desviou.
- Amanhã isso vai pesar.
- Talvez. - Mariana o encarou. - Mas hoje eu quero esquecer. E acho que você sabe como.
Ele ficou em silêncio.
Os olhos desceram até a boca dela e voltaram.
Mariana não desviou. O coração batia alto demais para a calma que mostrava.
- Não faço promessa - disse ele, por fim, a voz baixa. - Amanhã, se você se arrepender, não venha falar comigo.
- Não vou.