A mochila militar pesava no ombro esquerdo como se ainda carregasse o fuzil e o rádio de combate. O corpo, aos trinta e oito, continuava acostumado ao peso de coletes, munição e a tensão constante de quem passou anos esperando o próximo tiro. O calor úmido do Rio me acertou no rosto assim que saí do terminal. Maresia, diesel, suor e fritura de comida de rua invadiram os pulmões e, por um segundo, me senti outra vez com dezoito anos, a mesma idade em que tinha subido aquela ladeira pela última vez com uma mala de plástico e o coração em pedaços. Dezoito anos depois eu voltava mais alto, mais marcado, com o cabelo raspado e fios brancos precoces, a pele morena clara cortada por cicatrizes que o sol do deserto e o frio das montanhas tinham deixado, e os olhos verdes que ninguém no Coiote nunca esqueceu.
Peguei o Uber e mandei o motorista seguir direto pro morro. Ele me olhou pelo retrovisor com a cara de quem já viu de tudo.
- Tem certeza, irmão? O Coiote tá brabo hoje. Tiroteio ontem de novo, os cria tão agitados.
- Não te preocupa. Eu sei exatamente onde estou me enfiando.
A voz saiu rouca, baixa, a mesma que usava para dar ordens em inglês no meio da poeira afegã. Ele ainda tentou falar mais, mas eu já tinha fechado a cara. As cicatrizes no rosto e o corpo tatuado de símbolos que só quem viveu o inferno reconhece faziam o resto do trabalho. O carro subiu as ruas estreitas. Casas grudadas umas nas outras, fios elétricos enrolados como cobras nos postes, crianças descalças correndo entre poças de esgoto, mulheres gritando de janela pra janela. O grave de um funk pesado batia no peito como um segundo coração. Era familiar e ao mesmo tempo distante, como se eu fosse um fantasma voltando pra assombrar o próprio passado.
Desci no início da subida principal e continuei a pé. O sol queimava, mas nada comparável ao deserto que eu tinha atravessado com a mesma mochila nas costas. O Morro do Coiote estava igual ao que eu lembrava, só que pior. As vielas apertadas, o cheiro de esgoto aberto misturado com maconha e churrasco de laje, o lixo acumulado nas esquinas, as pichações de facção que agora eu não sabia mais distinguir. Um grupo de moleques parou de jogar bola para me encarar.
- Eita, quem é esse maluco aí?
Ignorei. Passo firme, ombros retos, queixo baixo. O treinamento militar não sai do corpo. Eu, quase um metro e noventa, alto demais para aqueles becos, dava pinta de gringo, de forasteiro, de alguém que não pertencia mais. Uma senhora na janela fez o sinal da cruz quando me viu passar. Eu baixei a cabeça e segui. Não estava ali para causar confusão. Pelo menos era o que eu queria acreditar.
Saí do Coiote ainda moleque, cara cheia de espinha, coração já pesado de quem tinha visto demais cedo demais. Agora voltava outro homem. As Forças Especiais americanas me transformaram numa máquina de guerra: noites sem dormir, missões que nunca deveriam ter existido, mãos que aprenderam a matar antes de aprender a tocar o berimbau que minha mãe me deu. Nada, absolutamente nada, me preparou para o que vi quando pisei de novo naquela ladeira. O asfalto rachado, as casas subindo a favela ainda mais apertadas, como se lutassem por espaço para respirar. O som distante do funk misturado com grito de criança, latido de cachorro e ronco de moto subindo a rampa. Dentro da mochila velha - a mesma que carreguei no Afeganistão e na Síria - só o essencial: roupa limpa, passaporte, o berimbau de madeira escura que minha mãe me entregou antes de morrer e a cicatriz enorme no ombro esquerdo que ainda doía quando o tempo fechava.
Caminhei devagar pela rua principal sentindo os olhares grudarem na minha nuca. Aqui um homem da minha estatura, pele clara demais para o morro, cabelo curto com fios brancos e olhos verdes não passa despercebido. Cada passo ecoava memórias: a saída da escola, a mão da minha mãe me puxando pela ladeira, o cheiro de feijão e café que saía da nossa casa de madeira. Tudo aquilo tinha virado cinza quando ela morreu. A notícia chegou por mensagem curta, fria, de uma tia que eu mal lembrava. O funeral tinha sido rápido. Eu não consegui voltar a tempo. Agora o corpo dela já estava enterrado, mas o vazio que ela deixou ainda ardia no peito como pólvora úmida.
A Escola Municipal Professora Maria Clara ficava no mesmo lugar de sempre, no meio do morro, onde a ladeira dava uma pequena folga. Quando cheguei na frente do portão enferrujado, o peito apertou com força. O prédio estava destruído. Paredes rabiscadas com pichações de gangues, janelas quebradas, parte do telhado caído. O pátio que um dia foi pintado de verde agora era terra batida misturada com lixo e cacos de vidro. Parecia um cenário de guerra, e de certa forma era. Eu fiquei parado ali, lembrando da minha mãe me esperando na saída da aula com o sorriso cansado e a lancheira na mão, quando o primeiro tiro rasgou o ar.
Pá!
O som seco ecoou entre os prédios como um chicote. Meu corpo reagiu antes da mente: joelhos flexionados, peso deslocado para a frente, mão direita indo automaticamente para a cintura onde outrora eu carregava a pistola. O coração disparou, a visão estreito, o suor frio escorreu pela nuca. O cheiro de pólvora fresca misturou-se ao de esgoto e maconha. Alguém gritou mais acima. Uma moto acelerou. Eu fiquei imóvel por dois segundos que pareceram minutos, sentindo o metal imaginário sob os dedos e a adrenalina queimando nas veias como nos velhos tempos.
Não estava mais em zona de conflito.
Ou estava?
A pergunta ficou presa na garganta enquanto eu ouvia o segundo tiro e sentia o joelho direito tremer contra o asfalto quente.