Suzana não acreditava no que estava acontecendo, ela achava que aquilo só poderia ser um pesadelo. Depois de quatro anos de casamento, não era possível que tinha sido enganada por Joaquim. Ele devia estar brincando com ela, fazendo uma piada de muito mau gosto por sinal.
- Para de brincar comigo, Wallace, isso não se faz. – Ela resmungou para o advogado
- Infelizmente não é brincadeira, Suzana, você não tem mais nada. Nem casa, nem a sua parte na empresa, nada no banco e nem a casa dos seus pais. Você deu o direito ao Joaquim de vender tudo. Ele fez todas essas negociações com uma procuração assinada por você. Foi tudo legal, eu lamento.
- Meu Deus!
Ela sentiu algo apertar sua garganta, sem acreditar que perdeu a casa dos pais. Aquele desgraçado a traiu e ainda vendeu a casa dos pais dela! Foram anos economizando dinheiro para comprar a casa, e agora tudo se foi. Ela percebeu que sua vida fora destruída e não sabia o que faria. O cretino do marido deu um golpe, levou tudo o que tinham construído juntos. E agora ela estava na rua, sem nada.
O que faria agora se não tinha para onde ir?
Não tinha emprego, dinheiro e sem nenhuma ideia de como sobreviver?
Apenas lhe restou suas roupas e o dinheiro que tinha na carteira, todo o resto se foi, não tinha restado mais nada.
- Como vou viver, Wallace? Eu não tenho para onde ir. E os meus pais? Onde vou colocá-los? Ainda tem a minha irmã e a sua filhinha, ela só tem oito meses. Eu sou responsável por todos. Como eles ficarão?
O advogado a olhou com pesar, e isso a matou. Suzana odiava quando as pessoas sentiam pena dela.
- Eu tentarei te ajudar, Suzana. Vou ver se te arrumo um emprego. Sinceramente, estou tão chocado quanto você. Juro que não sabia que o Joaquim estava tramando um golpe contra você. Eu presto serviços para ele desde o início da empresa, nunca imaginei que ele fosse capaz de algo tão monstruoso assim.
- Ainda acho que é brincadeira. – As lágrimas voltaram a cair pelo seu rosto
- Não é. Essa ordem de despejo que recebeu é verdadeira, e todos os outros documentos também. Ele te roubou e fez tudo isso legalmente. Eu mesmo conferi a assinatura do documento, e ela é sua. Mas se quiser podemos contratar um perito e confirmar a veracidade da assinatura.
- E vou fazer isso com que dinheiro? Só tenho dinheiro para comprar umas três refeições em algum restaurante barato e pagar minha passagem para ir até a casa da Priscila.
- Bem... Realmente, um perito não é barato, mas posso pagar e depois você acerta comigo.
- Você sabe que não terei condições para isso, eu não tenho formação acadêmica, sempre trabalhei com o canalha do Joaquim. Não tenho como arrumar um emprego que me dê um bom salário para te pagar. E ainda vou ter que cuidar da minha família, meu pai não pode trabalhar por causa do coração, a aposentadoria dele é uma miséria e o salário da minha mãe não dá para eles sobreviverem. Agora que eles não têm a casa... – A voz dela falhou ao se lembrar disso. – Eu não conseguirei pagar um aluguel, bancar o tratamento do papai e ainda sustentar a maluca da minha irmã com uma filha pequena. Eu terei que fazer isso, mas agora que não tenho nada, não sei como fazer isso. Não posso arrumar uma dívida agora, não quando tantas pessoas dependem de mim. – Mais uma vez, ela viu pena nos olhos de Wallace e sentiu vontade de sair correndo dali.
- Você está certa, precisa resolver a situação da sua família. – Ele suspirou e devolveu a ordem de despejo que estava em suas mãos. – Eu vou tentar te arrumar um emprego, mas confesso que não tenho como encontrar algo que pague bem. Apesar de você ter experiência em escritório, como mesmo disse, não tem formação, e o seu marido vendeu a empresa. Como você era uma das donas, não terá como receber uma referência de trabalho.
- Tudo isso é surreal.
Ontem, ela estava contando os dias para o marido voltar de viagem, e hoje estava sem nada e sem marido. Isso não podia, de fato, estar acontecendo.
- Parece mesmo, lamento querida.
Sem conseguir aguentar o olhar de pena dele, Suzana se retirou e saiu sem saber o que fazer. Tinha apenas uma semana para retirar as suas coisas da casa. Não que ela precisasse de tanto tempo, só poderia levar as suas roupas e os objetos pessoais. O canalha do marido vendeu a casa com todos os móveis juntos. Só lhe restou pouca coisa para carregar, ele não deu nem o direito de ela ficar com as suas joias. Todas sumiram, e agora ela tinha certeza que ele levou tudo na viagem de mentira que inventou.
Há uma semana, ele saiu dizendo que iria participar de uma reunião com novos clientes, mas, no fundo, o filho da mãe estava fugindo, sabe Deus para onde. A vida de Suzana estava um caos, porque ele conseguiu uma procuração com a sua autêntica assinatura, mas ela
não se lembrava de ter assinado esses papéis. Sempre lia tudo o que assinava e sempre recebia a recriminação dele por fazer isso. Agora entendia porque ele sempre brigava com ela quando precisava assinar algum documento da
empresa, o desgraçado já tinha intenção de roubar tudo dela.
Seu celular tocou, e ela nem se preocupou em saber quem era:
- Alô.
- Desculpa, amiga, mas eu acordei tarde e só agora vi sua mensagem.
- Trabalhou em outro evento ontem?
- Sim. Essa semana tem sido agitada.
Desde que a melhor amiga de Suzana, Priscila, arrumou esse novo emprego em eventos de gala, andava caindo nas noitadas. Ela trabalhava até de madrugada e só chegava em casa com o dia raiando.
– O que aconteceu? Você disse que
precisava falar comigo com urgência.
- Posso ir à sua casa?
- Claro que sim, estou te esperando.
- Certo.
Ela olhou para o ponto de ônibus e caminhou até lá. Depois de anos sem saber o que era andar em um coletivo, ia ter que se acostumar a usá-los novamente. De agora em diante a sua vida seria outra e carros da moda não estariam mais ao seu alcance, teria que andar muito a pé e em ônibus, não tinha outra solução.