Ou fingia estar.
Naquela casa, ninguém precisava falar para ser entendido. O silêncio fazia isso por eles - e quase sempre dizia coisas cruéis demais.
Eyul suspirou, apoiando as mãos cansadas sobre a pia. O vapor da água quente grudava no tecido do lenço que cobria seus cabelos, deixando-o úmido e pesado.
- Mais um dia... - ela murmurou para si mesma, sem emoção.
Mas seus olhos não estavam no presente.
Estavam naquela fotografia.
Escondida atrás de um pote de farinha, como se até o passado precisasse ser escondido naquela casa.
Ela hesitou.
Depois, pegou.
O papel estava gasto nas bordas, como se tivesse sido segurado mil vezes antes de ser abandonado.
Leyla.
Sua irmã mais velha sorria na imagem - um sorriso leve, quase teimoso. Um tempo em que o mundo ainda não tinha quebrado as duas ao meio.
Antes da fuga.
Antes do escândalo.
Antes do nome do pai se transformar em sentença.
Os dedos de Eyul deslizaram pela borda da fotografia com cuidado, como se tocar demais pudesse rasgar o que restava dela.
- Onde você está agora, abla...? - sussurrou, a voz quebrando no final.
Ela fechou os olhos por um segundo.
E então-
TOC. TOC. TOC.
Três batidas.
Fortes.
Secas.
Urgentes demais para aquela hora.
Eyul congelou.
O coração bateu alto demais no próprio peito.
- Não... - ela murmurou, quase como se negar pudesse impedir.
As batidas vieram novamente.
Mais firmes.
Mais impacientes.
Ela enxugou as mãos no pano, respirando fundo.
- Quem pode ser... agora? - sussurrou, como se a casa pudesse responder.
Caminhou devagar até a porta. Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Antes de abrir, encostou o ouvido na madeira.
Silêncio do outro lado.
Mas não era um silêncio normal.
Era o tipo de silêncio que antecede notícias ruins.
Ela abriu.
O vento frio da rua entrou primeiro.
Depois, um homem.
Alto. Terno escuro encharcado pela chuva. O cabelo grudado na testa. O rosto rígido, controlado demais para alguém naquela condição.
Ele parecia não pertencer àquela rua.
Nem àquele mundo.
- Senhorita Eyul Kaya? - perguntou ele.
A voz era educada.
Mas vazia.
Ela assentiu lentamente.
- Sim... sou eu.
O homem inclinou levemente a cabeça.
- Peço desculpas pela hora. Venho da mansão Kırımlı.
O nome caiu no ar como algo pesado demais para ser dito dentro daquela casa.
Kırımlı.
O estômago de Eyul revirou.
Os dedos apertaram a porta.
- O que... o que aconteceu? - ela perguntou, antes mesmo de conseguir pensar.
O homem hesitou por um segundo. Um único segundo que pareceu longo demais.
- Sua irmã... Leyla Kırımlı... faleceu.
O mundo não apenas parou.
Ele quebrou.
Eyul sentiu o corpo perder força, como se o chão tivesse decidido desaparecer sob seus pés.
- Não... - a palavra saiu quebrada, quase sem som. - Não, isso não... isso não pode ser verdade.
A chuva atrás do homem pareceu aumentar, como se a cidade respondesse por ela.
Ele manteve a postura.
Profissional.
Distante.
- Antes de morrer, ela deixou um pedido.
Eyul segurou a maçaneta com mais força, como se fosse a única coisa que a mantinha em pé.
- Um pedido...? - repetiu, sem entender.
Os olhos dela já estavam cheios de água.
- Qual pedido?
O homem respirou fundo.
- Que a senhorita cuide do filho dela.
Silêncio.
Desta vez, não o silêncio da casa.
Mas um silêncio maior.
Mais fundo.
Mais cruel.
Como se até o tempo tivesse perdido o movimento.
Eyul piscou lentamente.
Uma vez.
Duas.
- Filho...? - sua voz saiu quase em um sussurro. - Leyla tinha... um filho?
O homem não respondeu imediatamente.
E isso foi resposta suficiente.
As lágrimas vieram antes da consciência.
Quentes.
Pesadas.
Irreversíveis.
Eyul levou a mão à boca, tentando conter o que já não podia ser contido.
- Ela nunca... - a voz falhou. - Ela nunca me disse nada...
O homem baixou um pouco o olhar, pela primeira vez quebrando a rigidez.
- Ela não teve tempo de dizer.
A chuva caiu mais forte.
Como se o céu estivesse ouvindo.
Como se o céu também estivesse de luto.
Eyul deslizou lentamente até encostar na parede ao lado da porta. As pernas não obedeciam mais.
- Onde... - ela engoliu em seco. - Onde ele está?
O homem demorou mais um instante.
- Na mansão Kırımlı.
Ela fechou os olhos.
E naquele instante, tudo voltou de uma vez.
Leyla sorrindo.
Leyla indo embora.
O pai gritando.
A porta sendo fechada para sempre.
- Ela... - Eyul sussurrou, a voz quebrada entre ódio e amor. - Ela me deixou de novo...
As lágrimas agora não eram silenciosas.
Eram vivas.
- Eu sinto muito - disse o homem, finalmente.
Mas não havia consolo naquele tipo de frase.
Só vazio.
Eyul levantou o olhar, ainda chorando.
- Como... - ela respirou fundo, tremendo. - Como ele se chama?
O homem hesitou.
E então respondeu:
- Emre.
O nome ficou suspenso no ar.
Pesado.
Desconhecido.
Perigoso, sem motivo aparente.
O homem fez menção de se afastar, mas parou por um instante.
- Há algo mais que a senhorita deveria saber...
Eyul prendeu a respiração.
Ele a encarou com seriedade.
- A mansão Kırımlı não é um lugar comum.
Uma pausa.
- E o menino... também não é.
A porta rangeu levemente atrás dela, como se a casa tentasse avisar.
Mas já era tarde.
Porque, naquele momento, Eyul ainda não sabia:
A morte de Leyla não era o fim de nada.
Era o começo.
E a verdadeira tempestade não vinha da chuva de Istambul.
Vinha de dentro da mansão Kırımlı.
E tinha nome.
Yaman.