- Eu, chorar? Quase me fez rir. Mas você sabe que não faço essas coisas. Sorrir e chorar não é comigo. Mas você, eu faço chorar desde que éramos crianças. Agora, adultos, não cruze o caminho que foi definido por nossos pais, Sasha. Será um caminho sem volta.
- Não tenho medo, Rurik. Não interfira no meu território.
Sasha desliga o celular. Eu o coloco na mesa. Não sei por que ainda falo com esse merda. Depois que assumiu o lugar do pai, está querendo destruir a união que nossos pais fizeram há anos. A alta cúpula vai acabar com ele, se continuar por esse caminho. E logo serei membro da alta cúpula e farei questão de eliminar logo esse assunto.
Vou resolver alguns negócios. Negócios: única coisa que faz sentido na minha vida.
Tudo que sou, tudo que tenho, tudo que conquistei... foi pela força, pelo sangue, pela lealdade. A Bratva é minha casa, meu sangue, minha religião. Tudo o que existe fora dela é apenas ruído.
Amor? Afeto? Sentimentalismo? Isso nunca fez parte do meu vocabulário, e nunca vai fazer.
Nunca derramei uma lágrima na vida. Nem quando tomei meu primeiro tiro, nem quando matei meu primeiro homem, nem quando enterrei minha mãe.
Chorar é coisa de fraco. E eu não sou fraco. Meu telefone vibra sobre a mesa. Olho de relance. Número internacional. Brasil. Meu velho. Atendo.
- Maxim. - A voz dele soa animada, descontraída, como sempre. - Como você está, filho?
Reviro os olhos, acendo um cigarro, cruzo as pernas.
- O de sempre. Ocupado. O que foi?
- Direto, como sempre. - Ele ri. - Preciso te pedir um favor.
Suspiro. Aí vem merda.
- Diga. - Respondo, seco, soltando a fumaça.
- É sobre a filha da minha esposa. - Ele fala com tanta naturalidade que quase cuspo o café na mesa.
- O quê? - minha voz sai mais áspera do que eu gostaria. - Que filha?
- A filha dela. Ela não é minha filha de sangue, claro, mas é uma boa garota. Está estudando russo, quer praticar. Achei que talvez ela pudesse passar um tempo aí, com você.
O silêncio que se segue não é desconfortável. É ameaçador. Eu simplesmente não acredito no que acabei de ouvir.
- Você só pode estar brincando comigo. - Minha voz é um fio de navalha.
- Maxim... - Ele suspira, como se soubesse exatamente que tipo de reação esperar. - Ela é uma boa garota. Não vai te dar trabalho. E seria importante pra ela. A cultura, o idioma... Entender um pouco das nossas raízes vai fazer bem pra ela.
Seguro o telefone com tanta força que sinto os dedos estalarem.
- Não. - É tudo o que digo.
- Maxim...
- Não, pai. Eu não tenho tempo para isso. Não sei nem quem é essa garota, nunca falei com ela, nunca vi, e nem quero ver. Não sou babá de ninguém.
- Você acha que estou te pedindo para cuidar dela? - ele ri, aquele riso irritante de quem sabe que vai vencer a discussão. - Ela só precisa de um lugar para ficar. Tem uma casa enorme aí, cheia de quartos, cheia de gente te servindo. Você nem vai perceber que ela existe. Seus irmãos já concordaram. Só falta você.
- Apenas não. - Corto.
- Maxim... - Ele insiste. - Pensa como um negócio, então. Você me deve algumas, filho. E sabe que deve.
Fecho os olhos, massageio a têmpora. Ele sabe exatamente como me pegar.
- Quanto tempo? - minha voz sai dura, seca.
- Um mês, dois, talvez... Até ela se adaptar melhor. Depois, ela pode alugar um apartamento, se quiser.
Bato os dedos na mesa. Cada batida é uma maldição que penso em jogar pra esse universo desgraçado.
- Com uma condição. - Digo, firme.
- Fala.
- Ela não fala comigo. Não olha pra mim. Não respira na mesma sala que eu. Ela entra, fica no quarto, faz o que quiser... mas não existe pra mim. Tá claro?
Silêncio. Depois, a risada dele.
- Tá claro, Maxim. Mais claro que isso, impossível.
Desligo antes que ele continue com esse papo absurdo.
Jogo o telefone sobre a mesa, apago o cigarro e pego outro na sequência. A nicotina ajuda, mas não é suficiente para digerir isso.
Uma garota brasileira. Filha da esposa do meu pai. Vindo morar na minha casa.
Perfeito. Exatamente o que eu precisava na minha rotina cheia de tráfico, lavagem de dinheiro, extorsão e execuções.
Me levanto, caminho até a janela. A neve cai lá fora, cobrindo Moscou com aquele manto branco que só faz lembrar que tudo é frio, tudo é duro, tudo é morte.
E é assim que eu gosto. Nada de cores, nada de alegria, nada de vida além dos negócios.
Pego o rádio no bolso, aperto o botão.
- Ilya. - Chamo meu braço direito.
- Aqui. - A resposta vem rápida.
- Mande preparar um dos quartos de hóspedes. O mais afastado possível do meu. Vai ter uma hóspede.
- Hóspede? - ele soa surpreso. - Quem?
- Não interessa. Só faz o que mandei. - Corto.
- Perfeito, chefe.
Solto o botão. Suspiro. Já me arrependo de ter aceitado.
O problema não é só ter uma garota na casa. O problema é tudo o que isso representa: distração, bagunça, sentimentalismo.
E eu não tenho espaço pra isso. Minha vida é feita de códigos, lealdade, sangue, disciplina e ordem.
Garotas da idade dela, seja lá qual for - já ouvi meus irmãos falarem que é jovem. Só sabem falar besteiras, gastar tempo com coisas inúteis e se meter onde não devem.
E eu não tenho paciência. Nunca tive, nem vou ter.
Se ela for inteligente, vai entender rápido que aqui não é lugar pra brincadeira.
Se não for... Bom, que Deus ajude essa garota.
Porque eu, definitivamente, não vou.