Alguns amores nascem cedo demais e, talvez por isso, passem anos escondidos no silêncio do coração. Eu tinha apenas quinze anos quando percebi que o meu coração batia mais forte pelo melhor amigo do meu irmão. Na noite do meu aniversário de quinze anos, entre música alta e risos felizes, acabei dançando com os três melhores amigos de Bernardo. Com o Bruno foi a sensação - ele sempre foi como mais um irmão para mim. O Rafa era o escândalo: o rapaz que amava fazer brincadeiras com tudo. Mas, com o Arthur, tudo foi diferente - o jeito como segurou na minha mão, a forma como olhou nos meus olhos. O meu coração bateu forte por ele naquele momento. Lembro-me de que encostei a minha cabeça no seu peito. O seu coração também estava acelerado na palma da minha mão, e as batidas se descompassavam ao ritmo da música.
Aquilo me fez sorrir. Me senti boba. Eu... estava apaixonada, acho. Então cometi o meu primeiro grande erro - beijei Arthur Kamau no meio da dança. No meio dos meus convidados. Foi um beijo tímido, calmo, mas cheio de expectativas. Contudo, ele se afastou um pouco. Olhou dentro dos meus olhos e o seu maxilar se enrijeceu.
Prendi a respiração e pensei: não faça isso.
Droga, as minhas amigas estavam lá, assistindo a esse momento que eu pensei que seria mágico. Os seus lábios se mexeram, e o som que saiu deles me fez sair correndo do meio do salão.
- Me desculpe! - ele disse, e algo dentro de mim se quebrou.
Depois desse dia, tive de lidar com o garoto extrovertido e mais popular da escola sorrindo para todas as garotas, atravessando o colégio de mão em mão, de sorriso em sorriso. E, com isso, aprendi a disfarçar os meus sentimentos. Aprendi a engolir cada chama que ardia no meu peito, a fingir normalidade perto dele, a sorrir como se o meu coração não estivesse sempre um passo atrás do dele. Arthur nunca me olhou como eu olhava para ele. E quando fui para a faculdade, resolvi cortar de vez esse laço que insistia em me unir a esse amor do passado.
Então, finalmente conheci alguém. Téo Fidelis se tornou uma promessa de futuro melhor. Contudo, não passou de promessas rasas - e a droga é que eu descobri isso tarde demais.
- Grávida? - Indagou ele, exasperado.
Lembro-me de que sorri tão amplamente, tão cheia de esperança.
- De quem? - continuou.
Então recebi a punhalada que eu não esperava.
- Como assim, de quem? Eu sou a sua namorada! E eu só saí com você.
O sorriso que ele abriu, a maneira como encolheu os olhos, tirou o chão de debaixo dos meus pés.
- Me desculpe, Nati, mas esse filho não pode ser meu. Você está sozinha nessa.
Uma resposta rápida, fria e cruel.
Foi naquele momento que deixei de ser apenas uma garota tola e apaixonada, e me tornei uma... mãe.
Meses depois, Lucas nasceu, e com ele veio uma avalanche de sentimentos que eu mal conseguia administrar: amor, medo, força, entrega - tudo na mesma proporção. E meses após o seu nascimento, veio o diagnóstico: autismo. Uma palavra que caiu sobre mim como um mundo inteiro - pesado, desconhecido e assustador. Mas Lucas nunca foi peso para mim. Pelo contrário, ele foi a minha luz.
Ele é a minha luz.
Meu filho é especial, é intenso e é único. E se o mundo exige mais dele, exige mais de mim também. Mas isso não me enfraqueceu. Com a chegada do Lucas, resolvi andar com minhas próprias pernas. Saí da casa dos meus pais e assumi meu papel como assessora de eventos da empresa da família. Desde então, tenho me dedicado a esses dois mundos que são somente meus. Não existe mais espaço para sonhos românticos, nem para corações distraídos. Aprendi a ser suficiente sozinha - ou pelo menos estou tentando.
- Ele chegou! Ele chegou!
Desperto dos meus devaneios quando alguém grita com empolgação. As luzes do salão se apagam, as portas largas se abrem, e eu o vejo.
Arthur Kamau está bem ali, em pé na minha frente, após tantos anos. E, para o meu desespero, percebo que os sentimentos que sufoquei continuam aqui dentro de mim, completamente intactos e, o mais assustador: estão mais fortes do que nunca.
- Pirralha! - ele ralha, ao se aproximar.
O tom extrovertido de sempre não esconde o quanto amadureceu. Está ainda mais seguro de si e, consequentemente, mais distante. E ainda assim, absurdamente próximo, porque bastou um olhar para que tudo o que eu havia guardado a sete chaves voltasse a respirar forte dentro de mim.
- Ah, Arthur - respondo seca, com um aperto firme de mãos, que ele faz questão de transformar num beijo na minha bochecha.
O seu perfume cítrico faz o meu coração acelerar forte demais no peito, e eu prendo a respiração.
- É bom te ver de novo.
Engulo o nó que sufoca a minha garganta. Engulo o meu orgulho. Forço um sorriso e finjo naturalidade.
- Seja bem-vindo de volta ao Brasil!
Um suspiro escapou antes que eu pudesse contê-lo, e ele nem percebeu. Talvez nunca perceba. Afinal, alguns amores nasceram para viver assim: silenciosos, resistentes, presos ao tempo e às escolhas erradas. E eu, bom, eu ainda estou aqui tentando fingir que o meu coração não reconhece exatamente onde sempre pertenceu.