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O Filho da Noite que eu não esqueci

O Filho da Noite que eu não esqueci

5.0
12 Capítulo
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Meu nome é Helena Duarte. Durante vinte e quatro anos, acreditei que ser adotada significava dever minha vida às pessoas que me acolheram.Estava errada.Naquela casa, nunca fui uma filha. Era apenas a menina que precisava agradecer por existir, mesmo quando as palavras vinham acompanhadas de humilhações, castigos e portas trancadas.Na noite em que finalmente fugi, não tinha dinheiro suficiente, lugar para dormir ou alguém para quem telefonar. Só tinha uma pequena mala, um casaco emprestado e um colar que pertencera à minha mãe biológica.Foi naquela noite que conheci um desconhecido.Um homem de olhos escuros, voz firme e uma tristeza que ele escondia muito bem. Não sabia seu sobrenome, sua profissão ou por que parecia tão solitário quanto eu. Não deveria ter confiado nele. Muito menos passado a noite em seus braços.Mas passei.E fui embora antes do amanhecer, deixando para trás a única lembrança que tinha da minha origem: meu colar.Quatro anos depois, voltei àquela cidade com um menino de três anos pela mão.Meu filho.Eu acreditava que aquela noite havia sido apenas uma lembrança bonita de uma vida que não existia mais.Até reconhecer, no noticiário, o rosto do homem que nunca consegui esquecer.Ele estava usando meu colar.E, aparentemente, havia passado os últimos quatro anos procurando pela mulher que desapareceu de sua vida.O problema é que agora eu não estava mais sozinha.E meu filho tinha os mesmos olhos dele.

Índice

O Filho da Noite que eu não esqueci Capítulo 1 A CASA ONDE NUNCA FUI FILHA

Elena A primeira coisa que aprendi naquela casa foi que algumas pessoas conseguem transformar a palavra família em uma ameaça.

A segunda foi que, quando ninguém escolhe ficar ao seu lado, você precisa aprender a sobreviver sozinha. Eu tinha vinte anos quando entendi as duas coisas.

- Helena!

Fechei os olhos por um instante ao ouvir minha mãe adotiva gritar do andar de baixo.

Minha mãe.

Era estranho como aquela palavra ainda parecia tão natural na minha cabeça, apesar de tudo.

- Já vou!

- respondi, prendendo os cabelos em um coque desajeitado.

Olhei para o relógio sobre a escrivaninha.

Sete e quarenta da manhã. Eu deveria estar no trabalho havia dez minutos, mas ainda precisava terminar de passar as camisas de Augusto, preparar o café de Cecília e organizar a cozinha.

Naquela casa, minhas obrigações nunca terminavam.

Desci as escadas carregando uma pilha de roupas.

Cecília estava sentada à mesa, impecavelmente arrumada, mexendo no celular enquanto tomava café.

Augusto, meu pai adotivo, lia o jornal. Minha irmã, Isabela, examinava as unhas recém-feitas.

Nenhum deles me cumprimentou.

- Finalmente

- Cecília comentou, sem levantar os olhos.

- Você demorou.

- Estava terminando as roupas do Augusto.

- Não pedi explicações.

Pedi que fizesse seu trabalho.

Deixei as camisas sobre uma cadeira.

- Preciso sair. Estou atrasada. Isabela soltou uma risadinha.

- Atrasada para aquele emprego miserável? Ignorei.

Trabalhava em uma pequena livraria no centro da cidade.

Não recebia muito, mas era o único lugar onde conseguia passar algumas horas sem ouvir que minha existência era um favor concedido.

- Helena, sente-se

- Augusto ordenou. Olhei para ele.

- Tenho que ir.

- Você vai sentar quando eu mandar. Respirei fundo e puxei a cadeira.

Cecília finalmente levantou os olhos.

- Recebemos uma ligação ontem. Meu estômago se contraiu.

- De quem?

- Da instituição onde você foi adotada. Fiquei imóvel. Não era comum mencionarem meu passado. Na verdade, Cecília parecia sentir prazer em lembrar que eu não havia nascido naquela família.

- Por quê?

- Estão atualizando alguns documentos. Parece que ainda existe uma pendência relacionada à sua adoção. Assenti lentamente.

- Posso resolver isso depois do trabalho. - Você sempre tem alguma desculpa. Isabela apoiou o queixo na mão.

- Talvez estejam querendo devolver a Helena. Vai que encontram uma família melhor. Ela riu. Eu não. Augusto dobrou o jornal.

- Chega, Isabela. Por um segundo, pensei que ele fosse defendê-la. Mas seu olhar voltou imediatamente para mim.

- Você deveria ser mais grata, Helena. Sua mãe e eu poderíamos ter escolhido qualquer criança. Ali estava. A frase que sempre aparecia quando eu ousava esquecer meu lugar.

Poderiam ter escolhido qualquer criança.

Como se eu precisasse passar o resto da vida compensando a decisão deles.

- Eu sei - murmurei.

- Não parece. Levantei-me antes que alguém pudesse continuar.

Na saída, ouvi Cecília comentar alguma coisa sobre minha ingratidão.

Não voltei para responder. A livraria cheirava a café e papel antigo. Era meu lugar favorito no mundo.

Não porque fosse particularmente bonito, mas porque os livros nunca me perguntavam por que eu não era parecida com meus pais.

Nunca exigiam gratidão. Nunca faziam questão de lembrar que eu tinha sido encontrada em um abrigo, com poucas informações sobre minha origem.

Ali, eu podia ser qualquer pessoa.

- Você está com uma cara péssima. Levantei os olhos. Marina, minha colega de trabalho, estava atrás do balcão segurando dois copos de café.

- Bom dia para você também. Ela colocou um deles na minha frente.

- Briga em casa? Dei de ombros.

- O de sempre. Marina conhecia algumas coisas sobre minha situação, embora eu nunca tivesse contado tudo. Tinha medo de transformar minha própria história em algo que as pessoas sentissem pena de ouvir.

- Você sabe que pode ficar na minha casa, não sabe? Sorri discretamente.

- Sei. - Estou falando sério.

- Eu também. Ela não insistiu. Durante o restante do expediente, tentei me concentrar nas tarefas. Organizei as prateleiras, atendi clientes e conferi alguns pedidos.

Por algumas horas, quase consegui esquecer o que tinha acontecido naquela manhã. Quase. Quando cheguei em casa, encontrei duas malas no corredor. Uma delas era minha. Parei no primeiro degrau. - O que está acontecendo? Cecília apareceu na sala segurando uma pasta.

- Estamos reorganizando algumas coisas. Olhei para as malas.

- Minhas coisas? - Você está ficando adulta, Helena. Já passou da hora de aprender a se virar. Demorei alguns segundos para compreender.

- Você está me expulsando? Ela suspirou, como se eu tivesse acabado de fazer uma pergunta particularmente inconveniente. - Não dramatize.

- Cecília... - Não me chame assim. Engoli em seco.

- Mãe, por favor. Seu rosto endureceu.

- Você não é minha filha de verdade, Helena. Nunca foi. E acho que já está na hora de parar de fingir que somos obrigados a sustentar você para sempre. A frase atravessou meu peito com uma precisão cruel. Eu sabia que era adotada. Sempre soube.

Mas existe uma diferença enorme entre conhecer a própria história e ouvir alguém usar sua origem como justificativa para descartá-la. Olhei para Augusto, que estava no escritório.

- Você concorda com isso? Ele não respondeu imediatamente.

Depois, simplesmente fechou a porta.

Foi naquele momento que alguma coisa dentro de mim se partiu.

Não chorei. Não implorei. Apenas subi as escadas. Meu quarto parecia menor naquela noite.

Abri o armário e comecei a colocar minhas roupas na mala. Não tinha muitas coisas.

Algumas peças, dois livros, fotografias antigas e uma pequena caixa de madeira que mantinha escondida no fundo da gaveta. Dentro dela estava meu único objeto de valor sentimental.

Um colar de prata. O pingente tinha o formato de uma pequena estrela, com uma pedra azul no centro. Fora encontrado junto comigo quando ainda era bebê.

Era a única lembrança que minha mãe biológica havia deixado. Passei o polegar sobre a superfície fria.

- Pelo menos você não me abandonou por escolha própria - sussurrei. Não sabia se falava com o colar ou comigo mesma. Às nove e meia, minha mala estava pronta.

Peguei o dinheiro que havia guardado durante meses e conferi o saldo da minha conta. Não era suficiente para começar uma vida confortável, mas talvez fosse suficiente para desaparecer por alguns dias.

Antes de sair, olhei uma última vez para o quarto.

Não sentiria falta da cama, das paredes ou dos móveis. Sentiria falta da ideia de ter uma família. Era uma diferença que eu estava começando a compreender.

Desci as escadas devagar. A casa estava silenciosa. Na porta, coloquei o casaco, ajustei a alça da bolsa e segurei a mala.

Não havia ninguém para me acompanhar. Ninguém para perguntar onde eu iria dormir.

Ninguém para desejar boa sorte. Abri a porta. E fui embora. A chuva começou antes de eu chegar ao centro.

Meu celular estava com pouca bateria, o último ônibus já havia passado e Marina não atendia às ligações.

Parei debaixo da cobertura de um hotel. Era um estabelecimento luxuoso, com portas de vidro, iluminação dourada e funcionários vestidos formalmente.

Definitivamente não era um lugar onde alguém como eu deveria entrar. Mas estava frio. E eu não tinha para onde ir. Enquanto procurava algum lugar para sentar, ouvi uma voz atrás de mim.

- Você pretende passar a noite aqui? Virei-me. O homem era alto. Usava um sobretudo escuro sobre uma camisa social e segurava um telefone junto ao ouvido. Os cabelos escuros estavam ligeiramente bagunçados, como se tivesse passado as mãos por eles inúmeras vezes.

Seus olhos encontraram os meus. Não havia curiosidade exagerada neles. Apenas uma atenção silenciosa.

- Estou esperando a chuva passar

- menti. Ele olhou para minha mala. Depois para meus sapatos encharcados.

- Claro. Desviei o rosto. - Não preciso de ajuda.

- Não perguntei se precisava. A resposta me fez encará-lo novamente. Ele desligou o telefone e guardou-o no bolso.

- Há um café aberto no saguão. Você pode esperar lá.

- Não tenho dinheiro para esse tipo de lugar. O homem pareceu surpreso.

- É um café, não um restaurante cinco estrelas. Pela primeira vez naquela noite, quase sorri.

- Mesmo assim. Ele ficou alguns segundos em silêncio.

- Meu nome é Dante. Não respondi imediatamente.

- Helena.

- Prazer, Helena. Ele não tentou tocar em mim, não perguntou por que eu estava sozinha e tampouco exigiu explicações.

Apenas abriu a porta do hotel. E, por algum motivo que eu ainda não conseguia explicar, decidi entrar. Não sabia que aquela escolha mudaria minha vida.

Muito menos que, anos depois, eu reconheceria aquele mesmo homem antes mesmo de ouvir seu nome.

Naquela noite, Dante Montenegro era apenas um desconhecido que me ofereceu um lugar seco para esperar a chuva passar.

E eu ainda não sabia que algumas noites não terminam quando o sol nasce.

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