img O Filho da Noite que eu não esqueci  /  Capítulo 4 DUAS LINHAS, UMA DECISÃO | 33.33%
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Capítulo 4 DUAS LINHAS, UMA DECISÃO

Palavras: 3655    |    Lançado em: 03/11/2026

iro, segurando o teste de gravidez entre os dedos. Já havia conferido o resultado tantas vezes que praticamente sabia de cor cada detalhe das instruções. Não havia esp

explicou que, pelas datas informadas, eu provavelmente estava no início da gravidez. Solicitou os exames necessários para iniciar o pré-natal e orientou os cuidados que eu deveria ter a partir daquele momento. Também conversamos sobre alimentação, repouso, medicamentos que deveriam ser evitados sem orientação profissional e a importância de manter o acompanhamento. Saí da clínica com uma pasta de documentos nas mãos. Marina estava me esperando. - E então? Olhei para ela. - É verdade. Ela se levantou imediatamente. - Você está mesmo grávida? Assenti. Marina me abraçou. Não foi um abraço exagerado, nem uma comemoração. Foi apenas um abraço demorado, daqueles que fazem a gente sentir que ainda existe alguma coisa boa no mundo. - Como você está? Pensei um pouco. - Com medo. - É compreensível. - E acho que ainda não caiu a ficha. Ela sorriu. - Vai cair. Olhei para a pasta em minhas mãos. Havia uma vida começando dentro de mim. Uma vida que não tinha culpa de nada. Uma vida que não deveria pagar pelos erros dos adultos. E, naquele instante, percebi que precisava começar a pensar além do meu próprio medo. Nos dias seguintes, tentei manter minha rotina. Acordava cedo, preparava o café, ia trabalhar e voltava para casa no fim da tarde. Mas alguma coisa havia mudado. Eu prestava mais atenção ao que comia, evitava carregar peso desnecessário e tentava descansar sempre que possível. Marina se transformou em uma espécie de fiscal da minha alimentação. - Você comeu? - Comi. - O quê? - Marina... - Helena. - Um pão. Ela colocou as mãos na cintura. - Isso não é almoço. - Eu estava trabalhando. - E eu estou perguntando porque você precisa comer direito. Revirei os olhos. - Você vai ser pior do que minha mãe. O sorriso dela desapareceu por um instante. Percebi imediatamente o que havia dito. - Desculpa. Marina se aproximou. - Não precisa pedir desculpas. Eu sei que não foi isso que você quis dizer. Abaixei a cabeça. - Às vezes esqueço que não preciso me defender o tempo inteiro. Ela segurou meus ombros. - Vai levar um tempo para aprender isso. Assenti. Era verdade. Eu ainda tinha muito a aprender. Duas semanas depois, consegui finalmente visitar o apartamento que a prima de Marina estava alugando. Era pequeno. A sala tinha espaço para um sofá e uma televisão. A cozinha era estreita, o banheiro precisava de alguns reparos e o quarto tinha uma janela que dava para uma rua tranquila. Mas, quando entrei, imaginei como seria morar ali. Pensei em uma cortina clara, algumas plantas na janela e uma estante pequena perto da parede. Pensei em cozinhar minhas próprias refeições, acordar sem precisar me preocupar com o humor de ninguém e voltar para casa sabendo que aquele espaço era meu. Depois, meus olhos foram até o quarto. Um quarto. Em algum momento, precisaria acomodar um berço. Meu coração apertou. - Gostou? - Marina perguntou. Olhei para ela. - Muito. - A prima disse que consegue deixar os móveis principais. Você só precisa organizar suas coisas. Passei os dedos pela parede. - Eu quero ficar com ele. Marina sorriu. - Então vamos conversar sobre o aluguel. Naquela tarde, assinei o contrato. Era pouco, mas era meu. E, pela primeira vez, comecei a acreditar que talvez conseguisse. O primeiro problema apareceu quando precisei contar a Roberto sobre a gravidez. Esperei até o fim do expediente. Ele estava organizando algumas notas fiscais quando me aproximei. - Roberto, posso conversar com você? Ele levantou os olhos. - Claro, Helena. Aconteceu alguma coisa? Respirei fundo. - Descobri que estou grávida. Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, apoiou os papéis sobre a mesa. - Entendo. Esperei alguma reação maior, mas ele apenas perguntou: - Você está bem? A pergunta me surpreendeu. - Estou. Quer dizer... ainda estou me acostumando. Ele assentiu. - Certo. Vamos precisar conversar sobre algumas coisas relacionadas ao trabalho, mas não precisa se preocupar agora. Quero apenas que você saiba que vamos respeitar seus direitos. Senti os olhos arderem. - Obrigada. - Não precisa agradecer. Você é uma boa funcionária. Saí da sala mais aliviada do que entrei. Não estava acostumada a receber compreensão. Talvez por isso cada pequeno gesto parecesse tão importante. Na primeira noite em meu novo apartamento, levei apenas algumas caixas e uma mala. Marina me ajudou a organizar tudo. Colocamos os livros na estante, dobramos as roupas e limpamos a cozinha. Quando terminamos, sentamos no chão da sala, dividindo uma pizza. - Olha só você - ela comentou. - Uma casa própria. Olhei ao redor. - É pequena. - E daí? Sorri. - Não sei. Sempre imaginei que, quando tivesse minha própria casa, seria diferente. - Diferente como? Pensei um pouco. - Maior. Mais bonita. Com móveis que combinassem. Marina apontou para as caixas. - Você acabou de começar. Vai comprar as coisas aos poucos. Assenti. Ela olhou para minha barriga. Ainda não havia nenhuma mudança visível, mas o gesto me fez perceber que aquela vida continuava ali. - Você já pensou em nomes? Soltei uma risada. - Não. - Nem um? - Marina, eu descobri que estou grávida há poucas semanas. - E daí? Não custa pensar. Deitei a cabeça na parede. - Acho que ainda não consigo imaginar. Ela assentiu. - Tudo bem. Ficamos em silêncio. Depois, peguei uma das almofadas e coloquei sobre o colo. - Mas, se for menino, gosto de Theo. Marina sorriu. - Theo? - Sim. Acho bonito. - E se for menina? Pensei um pouco. - Talvez Aurora. Ela repetiu os dois nomes, como se estivesse experimentando cada um. - Theo ou Aurora. Sorri. Pela primeira vez, pensar no futuro não pareceu completamente assustador. Naquela mesma semana, decidi tentar recuperar meu colar. A lembrança de que havia deixado o objeto no hotel continuava me incomodando. Era uma peça simples, mas tinha um valor sentimental impossível de substituir. Esperei até meu dia de folga e fui até o estabelecimento. Reconheci imediatamente a entrada de vidro, o lustre enorme e os sofás de veludo. O mesmo lugar. A mesma cafeteria. Por alguns segundos, fiquei parada na entrada. Era estranho voltar ali sem Dante. Aproximei-me da recepção. - Boa tarde. Posso ajudar? - perguntou uma funcionária. - Boa tarde. Eu estive hospedada aqui há algumas semanas e acredito que tenha perdido um objeto pessoal. Ela sorriu educadamente. - Claro. Qual seria o objeto? - Um colar de prata, com um pingente pequeno em formato de estrela. Tem uma pedra azul no centro. A funcionária digitou algumas informações no computador. - Você lembra o número do quarto? Hesitei. - Não exatamente. - O nome da reserva? Engoli em seco. - Não estava no meu nome. Ela levantou os olhos. - Entendo. A senhora estava acompanhando outra pessoa? Fiquei desconfortável. - Sim. Não era exatamente uma mentira. A funcionária consultou novamente o sistema. - Sinto muito, mas não encontrei nenhum registro de objeto com essa descrição. Meu coração afundou. - Talvez tenha sido entregue diretamente a alguém da administração. Ela pareceu pensar. - Posso verificar com o setor responsável, mas precisaria de mais informações. Não tinha nenhuma. Não sabia o sobrenome de Dante, não lembrava o número da suíte e não tinha uma data exata da reserva.

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