Vestida em camadas de seda e renda branca, ela parecia a imagem perfeita de uma noiva de elite. O coque delicado não deixava um fio sequer fora do lugar, mas por dentro, Lizandra sentia que estava se desfazendo em mil pedaços. Não havia brilho no seu olhar, nem o rubor de expectativa que deveria acompanhar aquele dia. Havia apenas o peso gélido da sobrevivência.
Nas mãos, ela apertava dois papéis que selaram seu destino: um termo de consentimento para inseminação artificial e um acordo de estrita confidencialidade.
Há poucos minutos, o advogado da família Lancaster deixara o quarto com a frieza de quem entrega uma nota fiscal.
Em três dias, ela seria submetida ao procedimento. O doador? Sebastian Lancaster, seu noivo, quando mais jovem ele havia congelado seu esperma caso surgisse uma emergência, e para Xavier a emergência havia chegado. Sebastian, um homem que ela nunca beijou, com quem nunca dividiu um segredo, e que agora, segundo os sussurros nos corredores do poder, estava preso a uma cama, contando seus últimos suspiros após o terrível acidente de quatro meses atrás.
Para o patriarca Xavier Lancaster, Lizandra não era uma nora, era um receptáculo. Uma incubadora para garantir que a linhagem da família mais poderosa da cidade não morresse com o primogênito.
- Uma dívida de sangue... - sussurrou Lizandra, sua voz falhando no quarto vazio.
A memória do pai, Robert, era uma ferida aberta.
Ele se fora há seis meses, deixando para trás um rastro de dívidas de jogo que consumiram a fortuna dos Sullivan como um incêndio. Xavier Lancaster, o antigo "amigo" que detinha as promissórias, não teve piedade. Ele ofereceu uma saída: Lizandra daria um herdeiro a seu filho, e as dívidas seriam esquecidas.
Um brilho de pânico, quase imperceptível para qualquer estranho, faiscou em seus olhos castanhos. A ideia de carregar o filho de um estranho, um homem que ela nem sabia se acordaria para ver o rosto da criança, fazia seu estômago revirar.
Ela começou a andar de um lado para o outro, a cauda do vestido arrastando pelo carpete felpudo. O pânico, antes contido, agora subia por sua garganta como ácido. Ela não podia fazer isso. Não podia se entregar a esse contrato macabro sem ao menos tentar respirar o ar puro uma última vez.
Tomada por um impulso súbito, Lizandra caminhou até a porta.
Ao abrir, o corredor deserto e luxuoso parecia um túnel sem fim. O coração batia tão forte que ela sentia os ouvidos latejarem.
"E se eu encontrar alguém? E se Xavier estiver vigiando?"
A paranoia a fez parar diante do elevador. O som metálico da chegada de uma cabine a assustou.
Se algum conhecido a visse ali, vestida de noiva e com os olhos marejados, o escândalo seria o prego final em seu caixão.
Em um gesto de desespero, Lizandra inclinou-se e arrancou os sapatos de salto agulha.
Segurando-os pelas tiras, ela ignorou o elevador e correu em direção à porta pesada das escadas de emergência.
A frieza do concreto sob seus pés descalços foi o primeiro choque de realidade. Enquanto descia os degraus em uma fuga frenética, o som da seda do vestido de noiva raspando no chão era o único aviso de que a futura Sra. Lancaster estava tentando escapar de um destino que já havia sido escrito antes mesmo do "sim".
Lizandra descia a próxima rampa, os sapatos de salto agulha ainda apertados em sua mão direita, o coração um tambor frenético em seu peito. Faltavam apenas dois lances para a liberdade relativa da rua secundária quando o som a paralisou.
Vozes. Baixas, conspiratórias e perturbadoramente próximas.
Um riso abafado, quase um sussurro cúmplice, ecoou no poço da escada logo abaixo dela. Lizandra travou.
O impulso de fugir foi instantaneamente substituído pela necessidade de se tornar invisível. Seus olhos se arregalaram e ela se pressionou contra a parede, fundindo-se com as sombras. Ela estava presa na rampa superior, separada do casal por apenas alguns degraus e uma curva escura.
Se eles subissem, a veriam, a noiva em fuga, um escândalo ambulante.
Ela ficou ali, imóvel, uma estátua de desespero, o coração parecendo que iria saltar pela garganta. O tempo parecia se dilatar enquanto ela ouvia as vozes se aproximando, a risada e os sussurros crescendo em clareza.
E então, as palavras cortaram o ar frio, gelando o sangue em suas veias.
A voz da mulher era ansiosa, quase urgente:
- É sério que o plano está bem arquitetado? Não tem furos como da última vez não é?
- Não, pode ficar tranquila meu amor, dessa vez aquele alejado estúpido não vai durar muito. Já tenho tudo bem planejado. Meu pai está me apoiando. - O riso do homem agora era frio e calculista, um som que fez os pelos da nuca de Lizandra se arrepiarem.
O homem continuou, a voz como veneno destilado:
- Ele sobreviveu ao acidente, mas de agora pra frente é só uma questão de tempo. Assim que a tal da Lizandra Sullivan fizer a inseminação artificial e ficar confirmado que deu certo, meu pai dará um jeito de dar um fim no Sebastian. Disso não tenho dúvidas.
O mundo girou ao redor de Lizandra.
O pânico de ser descoberta foi substituído por um terror novo e paralisante. Ela não estava apenas fugindo de um casamento forçado, ela tinha acabado de ouvir a conspiração para o assassinato de seu futuro marido, e ela, a "tal da Lizandra", era a peça-chave do plano.
Ela era o instrumento que daria legitimidade à morte de Sebastian.
Paralisada, ela percebeu que sua fuga pelas escadas era o menor dos seus problemas. A escuridão da escada não escondia apenas fugitivos, escondia assassinos frios e calculistas, e agora ela sabia que estava em um caos absoluto.