Enquanto ele se vingava de mim com fúria, eu caminhava lentamente em direção à morte.
Capítulo 1
O lenço pesava na minha mão, manchado com a cor de ferrugem do terceiro sangramento nasal da manhã.
O médico disse que eu poderia ter a sorte de ver as cerejeiras florescerem no Central Park na próxima primavera.
"Mas a qualidade de vida será péssima. Convulsões. Perda de memória. Perda gradual da função motora", disse o médico.
A morte seria uma misericórdia.
A verdadeira crise era que eu tinha que entrar na cova dos leões e implorar por dinheiro ao marido que me odiava, para preservar minha dignidade antes do fim.
As pontas dos meus dedos roçaram a pele debaixo dos meus olhos; era fina como papiro e parecia que a menor pressão poderia rasgá-la. A mulher dona daquele rosto era uma estranha.
A pele dela havia assumido o tom translúcido e amarelado de um pergaminho velho.
Os olhos dela estavam fundos, contornados por sombras violetas que nenhuma quantidade de corretivo de luxo poderia mascarar.
Eu tinha vinte e seis anos, mas parecia um fantasma assombrando as ruínas da minha própria vida.
Meu celular vibrou contra o balcão de mármore frio, uma intrusão brusca na profunda quietude do quarto.
Era uma notificação de um site de fofocas, e a tela se iluminou com uma manchete que gritava: O Don e sua Musa: Dante Cavallaro e Sofia Rossi vistos comprando anéis?
Eu esperei pela pontada de ciúmes, mas ela nunca veio.
O ciúme exige energia, e meu corpo não tinha mais nenhuma para dar.
Em vez disso, senti apenas uma dor surda e triturante que parecia se originar do próprio centro dos meus ossos, como o atrito de ossos virando pó.
Doença terminal.
Eu não tinha medo da morte, mas detestava a dor.
Eu queria a morfina de alta qualidade que custava mais no mercado negro do que um sedã de luxo, do tipo que o seguro não cobriria.
Mas minhas contas bancárias estavam congeladas.
Dante havia cortado meu dinheiro há três semanas. Ele gostava de me controlar com dinheiro porque percebeu que não podia mais controlar meu coração.
Eu vesti meu casaco de inverno mais pesado, fechando-o bem ao redor do corpo. Eu tinha que esconder o fato de que havia perdido quinze libras em um único mês.
Se Dante visse meus ossos salientes, ele poderia confundir minha condição com uma tentativa de despertar pena.
Eu fui para o High-Rise, o coração pulsante da Chicago Outfit.
Era a fortaleza onde Dante governava como o Capo dei Capi. Um monólito de vidro e aço, construído sobre uma fundação de sangue e jogos de azar ilegais.
Quando cheguei, os guardas na entrada fizeram acenos rígidos para mim.
Eu caminhei pelo saguão, o estalo agudo dos meus saltos ecoando no chão polido. Minhas articulações gritavam em protesto a cada passo, uma agonia triturante que subia pelas minhas pernas.
Eu mantive meu queixo erguido. Eu era Elena Vitiello. Eu não mancaria.
Eu peguei o elevador privativo para o último andar.
As portas se abriram para a suíte executiva, e lá estava ela.
Sofia Rossi.
Ela estava empoleirada na mesa da assistente executiva, lixando as unhas ociosamente.
Ela não era uma secretária. Ela era uma mensagem.
Dante a havia colocado lá como uma declaração pública, uma mensagem para todos os colunistas de fofocas de Chicago sobre exatamente quem prendia a atenção dele.
Sofia olhou para cima, com os olhos brilhantes e predatórios.
"Bem, olhe quem finalmente descongelou", ela disse com voz arrastada.
"Dante está?", eu perguntei. Minha voz estava firme. Fria. Indiferente.
"Ele está em uma reunião", Sofia disse, recostando-se na cadeira de couro que era grande demais para ela. "Negócios importantes. Você não entenderia."
"Eu entendo que sou a esposa dele", eu disse suavemente.
Sofia riu. "Esposa no papel, Elena. Todo mundo sabe que é para mim que ele volta para casa. Bem, a casa que importa." Ela fez um gesto grandioso para si mesma.
Eu olhei para ela, realmente olhei para ela.
Ela irradiava uma saúde irritante.
Sua pele estava corada de vida, seu cabelo grosso e brilhante.
Ela era tudo o que eu costumava ser antes que as mentiras e a doença me devorassem viva de dentro para fora.
"Você está péssima, a propósito", Sofia adicionou, inclinando a cabeça com falsa preocupação. "Como um cadáver. Talvez você devesse tomar um pouco de sol. Ou procurar um cirurgião plástico."
Meu olhar parou na parede de vidro da sala de conferências, e por três segundos inteiros eu não reconheci a mulher esquelética que me encarava de volta.
Ela estava certa. Eu parecia a morte.
Mas ela não sabia o quão literal era aquela comparação.
Um soldado, Enzo, saiu das sombras perto da porta.
"Cuidado com a boca, Sofia", Enzo avisou, com o tom baixo e perigoso. "Ela ainda é a esposa do Don. Se você a desrespeitar, o Don pode matá-la."
Sofia revirou os olhos, imperturbável. "Por enquanto, Enzo. Apenas por enquanto."
Por enquanto.
'Ela estava certa', eu pensei.
Em breve eu deixaria Dante. Não através de um divórcio, mas através de algo muito mais permanente.