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Dark Paradise

Dark Paradise

5.0
13 Capítulo
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Rebeca cresceu entre lixo, ferrugem, graxa e muita simplicidade. Trabalhando desde cedo em um centro de reciclagem e em um ferro-velho, aprendeu a encarar a vida com coragem e silêncio, ela só queria viver sem ser notada. Foi criada pelo tio Antônio, o único porto seguro e familiar que conheceu. Humilde, observadora e discreta, nunca esperou muito do mundo. Suas paixões eram carros, corridas clandestinas e adrenalina. E para ter acesso a isso, ela fazia o que fosse necessário sem medo das consequências. Ela guarda um segredo: um dom raro que herdou da mãe que nunca conheceu. Conforme a juventude avança, esconder esse poder se torna cada vez mais difícil. No meio de perigos, escolhas impulsivas e o primeiro amor vivido ao lado do melhor amigo de infância, sua vida começa a sair do controle. Tudo muda quando ela salva a vida de um homem perigoso, se expondo demais e desenvolvendo um laço muito forte com ele.

Índice

Dark Paradise Capítulo 1

Rebeca nunca teve uma vida fácil ou comum. Desde pequena ela sabia que era especial, mas não se via assim. Enxergava mais como uma maldição, do que uma benção.

Muitas coisas boas que a maioria dos jovens da idade dela tinham, ela nunca teve, sua vida beirava a pobreza, porém isso nunca a fez se sentir inferior aos outros, ela apenas se achava diferente.

Desde pequena, morava de favor com o tio Antônio em uma área rural, em uma cidade de 3.000 habitantes. Cresceu no meio do "lixo". Moravam em um terreno, onde havia um centro de reciclagem, um ferro-velho e uma oficina ao lado.

Tudo lá era de Célio, mais conhecido como "Rei do Latão". Ele era muito amigo do tio dela e já havia ajudado bastante os dois. Pelo menos era o que ela acreditava.

Célio era ex-policial civil, morava ali perto, cheio de conforto, a casa dele era uma mansão com piscina, área de lazer, campo de futebol. Lá tinha tudo do bom e do melhor.

Rebeca ia muito lá quando criança, brincar com o único e melhor amigo, Neto. Ele perdeu a mãe ainda pequeno, e por isso era bastante mimado, sem limites.

Seu pai o deixava solto, até demais. E ele não era tão ingênuo como Rebeca, ele sempre tinha as piores idéias, quando o assunto era aprontar e ela topava tudo.

Pareciam dois moleques e não era por acaso, Antônio a deixava assim de propósito, com os cabelos ruivos lisos muito curtos, sempre com roupas simples, surradas.

Quando ainda eram crianças, começaram a tomar gosto por esportes, faziam capoeira, jiu-jitsu, e ele outras coisas que seu pai pagava cheio de orgulho. O sonho do Neto, era ser policial e além disso, ele era obcecado por armas.

Aprendeu a atirar muito cedo, e por causa dos interesses dele, Rebeca também gostava das mesmas coisas.

Na pré adolescência entraram em uma fase de brincar muito fora de casa, explorando novos lugares de bicicleta, fazendo muita bagunça. E foi aí que ela percebeu o quanto gostava de coisas diferentes.

Passou a invadir casas, chácaras, só para olhar tudo, sua curiosidade a consumia e o prazer, de imaginar. A deixava em êxtase.

Ela sabia que Neto não iria gostar e ia sozinha, quando ele ia viajar para a casa dos familiares.

Ela sempre foi a única menina no meio dos amigos dele, mas na maioria das vezes nem parecia. Os anos passavam e ela continuava com o cabelo sempre muito curto, toda suja, mal vestida. As vezes ela ficava na oficina ou no desmanche, olhando os carros, e os clientes a olhavam sem nem perceber, que não era um garoto.

Seu corpo já mudava e ela ainda não sabia nada, sobre feminilidade, vaidade, usava o desodorante e perfume tabu, igual ao tio, e achava ótimo.

Quando iam nadar, ela sempre entrava na piscina de roupa. Nunca houve maldade entre eles, pelo menos enquanto Neto a via como uma amiga apenas.

Nas férias do final do ano, Julio primo de Neto foi passar uns dias lá, ele era um pouco mais velho que os dois, e muito mais malicioso.

Ele implicava com ela, desde sempre, fez uma brincadeira sobre ela ser feia, enferrujada igual aos carros velhos e "Maria-homem". No mesmo dia, ele a jogou na piscina e pulou em cima, brincando, fazendo com que ela se afogasse. Ela correu para casa e não contou nada ao tio, com medo de ser colocada de castigo.

E isso tudo a fez chorar, se odiar e questionar sozinha em frente ao espelho, o que estava acontecendo, pois além de ciúmes de Neto, ela estava percebendo que queria ser notada, precisava de uma certa validação. E não sabia como, mudar.

Depois ele foi se desculpar, queria que ela saísse com eles, para ir a um encontro de carros, onde faziam campeonatos de arrancadas e corridas clandestinas.

Antônio era mecânico e estava mexendo a semanas em um Maverick lindo, tunado, Neto falou que aquele carro ia correr. Rebeca apenas o ignorou, e ele até disse que a achava linda, mesmo enferrujada. Depois ele se irritou e saiu sozinho.

A mentalidade dele era um pouco diferente e a realidade, muito mais. Enquanto o primo dele, ficou lá nas férias, os dois fizeram novas amizades. Neto aprendeu a dirigir, foi para festas, baladas.

Rebeca se isolou bastante. Passava horas andando sozinha pelas estradas de terra, começou a mexer nos carros, ajudando e aprendendo na oficina, no desmanche.

Um dia ouviu uma conversa, sobre o dono do Maverick, estavam falando mal dele, dizendo que era um playboy irresponsável, que vivia bebendo, dirigindo, batendo o carro. Rebeca era muito de observar e ficar calada, pelos cantos.

A semanas ela estava evitando Neto, recusando os convites para ir jogar, comer fora, ele mudou de escola e era o primeiro ano dos dois, em escolas diferentes, depois de muito tempo, sempre indo e vindo juntos.

Ninguém mexia com ela, por causa dele, que a defendia e, no fundo, ela temia muito que sua vida piorasse.

E piorou, na primeira semana já fizeram comentários sobre as roupas, o cabelo, e ela suportava a tudo calada. Sem contar ao tio ou pedir ajuda.

Neto voltou a se aproximar, quando o primo foi embora, e percebeu que algo tinha mudado. Rebeca não conversava como antes e nem fazia perguntas, ficava sempre quieta o ouvindo falar, sobre o "mundo" que ele conheceu, sem ela.

No primeiro mês de aulas, ele deu uma festinha na piscina para os novos amigos. Convidou duas meninas também. Ele convidou Rebeca com antecedência, deixou claro que ela precisava ir. Estava super animado para que ela os conhecesse.

No dia dessa festinha, Rebeca foi um pouco depois do horário, porque precisou ir buscar na cidade, um livro com uma colega para fazer um trabalho escolar. Ela não tinha celular, acesso à internet e muito menos computador. Todos tinham e Antônio dizia que aquelas coisas eram bobagens.

E que no dia que ela fizesse um perfil, em qualquer rede social, iriam aparecer pessoas más, para pegá-la e usar seu dom, até levá-la à morte. Quando chegou lá na casa de Neto, entrou pelos fundos como de costume. Estavam ouvindo música alta, todos na piscina. Célio estava lá, vigiando a festa, fazendo churrasco. Recebeu-a como de costume e falou para ela ir na sala, porque Neto estava lá jogando videogame.

As meninas estavam de biquíni e maiô, ficaram olhando ela e julgando, rindo das roupas simples meio masculinas. Rebeca ficou reparando também, de longe, porque achou tudo bonito. Ela foi vestida com uma camiseta azul desbotada de personagem de mangá e uma calça jeans um pouco larga que havia ganhado de doação, só os tênis eram mais legais, de marca, mesmo estando bastante gastos. Neto falou oi e continuou jogando, a mandou ir na piscina com as outras, ele queria que ela despertasse um pouco, só não sabia como ajudar.

Ela ficou bastante desconcertada, sentada no cantinho, olhando elas tirando fotos na câmera, fazendo vídeos dançando, algo que ela não sabia e nem gostava de fazer. Foi a primeira festa de verdade de que participou, e foi horrível, Rebeca achou muito chata. Ela era adolescente e depois disso, começou a reparar nas roupas das pessoas. Ficava imaginando o que iria vestir bem nela ou ficar estranho, e olhava vitrines quando ia e vinha da escola.

Rebeca vivia andando no meio da reciclagem e da oficina, depois da escola, porque Neto estava estudando em período integral e ela não tinha nada para fazer em casa. Perguntou a uma moça que trabalhava lá quanto custava uma roupa nova. Ela nunca tinha ido a uma loja comprar roupa ou sapato na vida.

A mulher respondeu:

- Não dá para comprar nada com menos de R$ 50,00. O que você queria?

Rebeca falou que precisava de uma blusa melhor e uma calça jeans do tamanho dela de verdade. A moça ficou com pena, levou a calça para apertar, mediu certinho antes e trouxe mais agarradinha. Também levou uma jaqueta jeans que era dela e um sutiã de bojo pequeno. Todos lá tinham pena dela e achavam estranho o modo de Antonio a criar, a deixando tão largada como um menino. E ele simplesmente ignorava quando Rebeca queria algo diferente, e a enchia de medo, fazendo ela crescer ingênua em uma bolha.

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