Meu estômago deu um nó.
A Ala 17 não era para qualquer um. Era onde colocavam os pacientes que os outros funcionários tinham medo de atender. Criminosos com laudos psiquiátricos. Casos que ninguém queria tocar.
E eu, com meus 22 anos, e com 1,53m de altura me sentia tão pequena no meio de tudo isso.
- Por que eu? - perguntei, tentando disfarçar o tremor na voz.
Harrison nem levantou os olhos do prontuário.
- Porque você é a única estagiária que não pediu transferência depois de ouvir o nome dele.
Ele.
- Matthew Volok - li no papel. Trinta e um anos. Transferido por acordo federal. Diagnóstico preliminar: transtorno de personalidade antissocial com traços psicopáticos.
- Leia as anotações de enfermagem - Harrison completou, empurrando o dossiê na minha direção.
- Ninguém consegue ficar sozinho com ele mais de quinze minutos. Três seguranças já pediram remoção.
Engoli em seco.
- Ele fez alguma coisa?
Harrison finalmente levantou os olhos cansados.
- Esse é o problema, Miller. Ele não fez nada. E isso é o que assusta.
O corredor da Ala 17 era mais estreito que os outros. As luzes tremiam levemente, como se até a eletricidade tivesse medo de estar ali.
Dois seguranças flanqueavam a porta de isolamento. Um deles careca, braços cruzados, olhar vidrado sussurrou quando passei:
- Boa sorte, doutorinha.
Não era desejo de sorte. Era quase um pêsame.
Respirei fundo. Enfiei a chave na fechadura. A trava cedeu com um clique pesado.
A porta abriu.
E lá estava ele.
Sentado na cama de solteiro, costas retas, pernas cruzadas. Como se esperasse visita. Não como um paciente mas sim como um rei num trono improvisado.
Cabelos pretos, longos, alinhados para trás. Pele clara com um tom ligeiramente bronzeado, como se carregasse o sol onde não havia janela. Olhos cinzentos como uma de tempestade.
A primeira coisa que pensei foi que ele era bonito demais para estar ali.
A segunda foi que ele sabia.
- Enfim - ele disse, e a voz era grave, pausada, como quem tem todo o tempo do mundo.
- Uma pessoa nova.
Fechei a porta atrás de mim.
E tranquei.
O erro número um levou menos de dez segundos.
- Sr.Volok - comecei, sentando na cadeira oposta. A ficha clinica tremia levemente nas minhas mãos.
- Eu sou Emely Miller, estagiária de psiquiatria. Vou conduzir sua avaliação de admissão.
Ele não respondeu. Só olhou.
Os olhos cinzentos percorreram meu rosto, meu pescoço, as mangas do jaleco - pararam nas minhas mãos que tremiam ligeiramente.
- Você tem medo de mim - ele disse. Não era pergunta.
- Tenho medo de todos os pacientes até conhecer eles.
A mentira saiu lisa. Ele sorriu. O sorriso não era quente, não era frio. Era observador.
- Estagiária - repetiu, como se provasse a palavra.
- Quantos anos?
- Vinte e dois.
- Hm. - Ele inclinou a cabeça.
- Parece ter quinze.
O baque no peito foi imediato. Raiva ou vergonha? As duas.
- Vamos começar com algumas perguntas padrão - continuei, ignorando.
- Você sabe por que está aqui?
- Sei exatamente por que estou aqui, Emely.
- Não me chame de Emely.
- Não gosta do seu nome? - Ele parecia genuinamente curioso.
- É bonito. Soa como... mel.
Fechei os olhos por um segundo.
Profissionalismo, Miller. Profissionalismo.
- Vamos manter a relação formal, Sr. Volok.
- Matthew.
- Isso não é um nome formal.
- Matthew - repetiu, como se o problema fosse meu entendimento.
- Você vai me chamar de Matthew. E vai sentar um pouco mais perto.
- Por que eu faria isso?
- Porque eu não vou te morder.
- Você parece exatamente o tipo de pessoa que faria algo pior que isso.
O silêncio durou três batidas do meu coração.
E então ele riu.
Não foi alto. Não foi assustador. Foi... humano. Curto, baixo, como se ele tivesse esquecido como se fazia aquilo.
- Gostei de você, doutorinha.
- E eu não gostei de você.
- É tudo até aqui - sussurrei, levantando.
Tranquei a porta atrás de mim ainda tremendo com a presença desse homem.
E sinto que isto está longe de acabar.