Girei a maçaneta e encontrei a porta trancada. Sem tempo de procurar as chaves, tirei o grampo que prendia meu cabelo para arrombar a fechadura. Dois segundos depois, a porta se abriu e fui atingida pela luz solar que entrava pela janela.
Isadora estava sentada ao pé da cama, enrolada em um lençol branco, e seus olhos se arregalaram assim que ela me viu. Abri um sorriso porque finalmente a havia encontrado, mas ela tampou a boca e correu para o banheiro, vomitando pelo caminho.
O som do vômito dela pairava no silêncio e senti meu estômago revirar também quando o cheiro de azedo tomou conta do ar. Precisava ir até ela e apressá-la; o casamento seria em poucas horas e seu pai não toleraria nenhuma falha minha em não cumprir suas ordens.
Meu coração acelerou e meu peito doeu quando senti uma fragrância masculina invadindo minhas narinas, me obrigando a parar. Eu conheceria aquele cheiro em qualquer lugar e, quando me virei, levei o maior susto da minha vida. Se ele estava ali, ele estivera à noite com Isadora; isso já era o suficiente para partir meu coração.
- Lionel - eu chamei seu nome e as lágrimas já escorriam pelo meu rosto -, o que você está fazendo aqui, no quarto da Isadora?
Essa era a pergunta mais estúpida que eu poderia fazer, porque sabia exatamente o que ele estava fazendo, mas meu coração se negava a aceitar.
- Penélope, eu posso explicar - a voz dele era suave e cheia de arrependimento, e isso foi o bastante para me quebrar por dentro.
As mãos frias dele seguraram o meu braço; imediatamente eu me afastei. Eu e Lionel estávamos juntos há um ano. Ele dizia que me amava e que se casaria comigo nos próximos meses. Eu o amava desde a minha adolescência. O homem a quem eu esperava me entregar estava me traindo com a filha do meu patrão.
- Você dormiu com a Isadora? - perguntei quando percebi que ele não iria se explicar. O ácido queimava minha garganta.
- Eu não sabia como te contar - Isadora disse da porta do banheiro, em um tom cínico e sem nenhum remorso. Conseguia ver o prazer nos olhos dela, o quanto ela se deleitava com a minha dor.
- Vocês estão... - as palavras morreram em minha garganta. Como eu poderia ofender a filha do senhor Benedite sem ser castigada depois? - Me traindo?
- Não - Lionel riu secamente, tentando se aproximar de mim outra vez.
- Sim - Isadora retrucou com um rosnado.
- Não posso acreditar - sacudi a cabeça incansavelmente, a dor dilacerando meu peito lentamente.
Queria desaparecer desse pesadelo horrível. O quarto cheirava a suor e sexo e, a cada segundo que ficava ali, sentia meus joelhos falharem lentamente. Precisava desaparecer. Precisava de ar fresco e leve.
- Estamos fazendo sexo há meses, nos encontrando quando você está dormindo - ela zombou sem remorso -, já temos uma relação concreta, já deixou de ser casual há muito tempo.
- Há meses? - Repeti as palavras dela, ecoando em minha mente sem parar. Queria avançar nela e fazê-la pagar, enquanto esfregava minha pele tentando tirar o toque de Lionel impregnado em mim.
- Quase três meses, para ser mais precisa - disse Isadora, dando de ombros indiferentemente.
Ela sabia o poder que exercia sobre mim, sabia que eu não podia fazer nada contra ela enquanto me traía com o meu namorado. A tranquilidade dela fazia meu estômago revirar. Odiava saber que ela não pagaria por sua traição mesquinha, odiava saber que não podia fazer nada além de sentir dor.
Girei minha cabeça rapidamente, olhando para Lionel, buscando uma confirmação que já tinha, enquanto seu peito nu subia e descia. Ele olhou para mim, seus olhos suplicando por uma chance enquanto tentava me tocar outra vez e eu não permitia.
- Foi só sexo, Penélope. Quero ficar com você, me casar com você - ele se aproximou enquanto eu corri para o banheiro e um gemido escapou dos meus lábios rapidamente.
Vomitei as três xícaras de café que tinha tomado naquela manhã. O mundo girava ao meu redor enquanto me inclinava sobre o vaso, sentindo-me fraca, e as lágrimas encharcavam o meu rosto, misturando-se à dor por todo o meu corpo lentamente. Olhei para o lado e vi a fita com dois pontos azuis. Meu coração bateu forte contra o ouvido.
Um teste positivo de gravidez.
- Isadora - chamei com minha voz embargada e repleta de ódio -, o meu namorado é o único homem com quem você tem saído ultimamente? - perguntei, torcendo para que ela respondesse negativamente.
- Claro que sim, eu levo nosso relacionamento a sério - ela anunciou orgulhosa, como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo.
Peguei o teste de gravidez e o apertei em minha mão, sentindo-o queimar como ácido. Lionel era a pessoa que eu mais amava no mundo e minha única esperança de sair daquela casa e ter uma vida nova longe dos abusos da família Benedite. Quando olhei novamente para o teste, percebi que todos os meus sonhos haviam morrido.
- Você deveria se casar hoje - disse, saindo do banheiro e caminhando em direção a ela -, mas está grávida do meu namorado.
- Você ia descobrir logo - ela disse com um sorriso maroto. Queria acabar com aquela mulher, mas não me movi -, eu não posso me casar com um homem cruel que eu nem conheço. Ele pode ser o homem mais rico e poderoso que minha família conhece, mas amo o Lionel e teremos um filho juntos.
- O quê? - Lionel rosnou surpreso. Pude ver em seu rosto que ele não esperava por aquilo.
O que ele achava que aconteceria transando com ela quase todas as noites?
- Estou grávida, Lionel - ela sussurrou com um pequeno sorriso no rosto -, não posso me casar com outro homem enquanto carrego o nosso filho no ventre. Se ele descobrir, vai me matar.
Lionel se desesperou, colocando as mãos na cabeça enquanto caminhava de um lado para o outro. Era o fim para nós dois. As lágrimas caíam insistentemente, encharcando meu rosto. Eu o conhecia há tempo suficiente para saber o quanto formar uma família era importante para ele, e ele me conhecia tão bem que sabia que eu jamais o perdoaria por aquela traição.
- Onde ela está? - A voz do senhor Benedite ecoou do lado de fora do quarto, e Isadora correu em minha direção, agarrando com força minhas mãos.
- Você precisa informar ao meu pai que eu não vou me casar com esse homem - ela apertou cada vez mais forte quando percebeu que eu estava tentando desvincular seu toque -, por favor, Penélope, me ajude.
Que mulher cínica e cruel. Ela me traía com meu namorado, engravidava dele e depois implorava para que eu a livrasse dos seus erros?
- E se eu me negar? - As palavras saíram de repente, sabendo que as consequências disso seriam minha demissão e ruína.
- Você não pode, você é escrava do meu pai e não tem nada além desta casa e deste emprego - ela jogou a verdade em meu rosto, enquanto se aproximava de Lionel envolvendo-o em seus braços, mostrando seu prêmio -, você consegue, Penélope, enrole o meu pai até que eu encontre o substituto para esse casamento ou sofrerá as consequências. Posso jurar que consigo ser mais cruel que o senhor Benedite em castigar quem me desobedece.
Olhei para o Lionel e vi que ele concordava com as palavras de Isadora. Nesse momento, entendi que tinha perdido tudo. Perdi minha liberdade, o homem que eu amava e só me restava a dignidade.
Saí do quarto, correndo pelo corredor em direção ao salão de baile em tempo recorde. Sabia que faltavam poucos minutos para Isadora ir para o altar. Vi meu reflexo no espelho, congelado, antes de respirar três vezes e decidir.
Serei a noiva substituta.
Tinha perdido quase tudo, mas ainda tinha a chance de escapar desse inferno. Então enfiei o ódio e a dor no fundo do meu peito, em busca de força, enquanto avancei até as portas duplas e as abri de repente.