Eles me observavam, esperando por lágrimas, raiva, ciúme. Não tiveram nada. Eu era uma estátua, meu rosto uma máscara serena. Meu silêncio os perturbou. Eles continuaram seu jogo cruel, comemorando o aniversário de Kassandra com uma festa luxuosa, enquanto eu sentava em um canto isolado, observando. Heitor chegou a arrancar o medalhão de ouro da minha falecida mãe do meu pescoço para dar a Kassandra, que então o esmagou deliberadamente sob o salto do sapato.
Isso não era amor. Era uma jaula. Minha dor era o esporte deles, meu sacrifício o troféu deles.
Deitada na cama fria do hospital, esperando, senti o amor que eu nutri por anos morrer. Ele murchou e virou cinzas, deixando para trás algo duro e frio. Eu tinha chegado ao meu limite. Eu não iria consertá-los. Eu iria escapar. Eu iria destruí-los.
Capítulo 1
O marido e o filho de Alexia Monteiro eram patologicamente obcecados por ela.
Eles tinham um jeito estranho de demonstrar isso.
Heitor Almeida, seu marido, um magnata da tecnologia, e Antônio, o filho de dez anos, testavam constantemente o amor dela. Eles fingiam indiferença, cobrindo de atenção uma jovem e ambiciosa executiva da empresa de Heitor, Kassandra Ribeiro.
Eles precisavam ver Alexia sofrer. O ciúme dela, sua miséria - era a prova de sua devoção. Era a única forma que conheciam de sentir o amor dela.
Alexia entendia a doença deles. Por anos, ela suportou pacientemente, acreditando que poderia consertá-los. Acreditando que seu amor poderia curar a forma distorcida como eles precisavam dela.
Ela estava errada.
O ciclo de crueldade vinha escalando. Começou com coisas pequenas: encontros cancelados, "esquecer" o aniversário dela enquanto celebrava publicamente a promoção de Kassandra. Depois, piorou.
O ponto de ruptura chegou em uma terça-feira chuvosa.
Foi um acidente de carro. Um acidente feio.
Alexia estava dirigindo, com Heitor e Antônio no carro. Kassandra estava no banco do passageiro, um lugar que costumava ser de Alexia. Um caminhão avançou o sinal vermelho, atingindo em cheio o lado deles.
O mundo se tornou um caos de vidro quebrado e metal rangendo.
Quando Alexia recobrou a consciência, o lado do seu corpo estava dormente. Sua mão direita, a mão que compunha trilhas sonoras premiadas para o cinema nacional, estava presa, esmagada contra a porta. Kassandra gritava, um corte na testa sangrando dramaticamente.
Os paramédicos chegaram. Um deles olhou para a mão de Alexia, depois para a cabeça de Kassandra.
Seu rosto estava sombrio.
"Temos que levar as duas para o hospital, agora. Senhora", ele disse para Alexia, "sua mão está gravemente esmagada. Precisa de cirurgia especializada imediata para salvar os nervos."
Ele se virou para Heitor.
"Mas a outra moça tem um ferimento na cabeça. Precisamos priorizar."
O médico na emergência do Hospital Albert Einstein foi ainda mais direto.
"Senhor Almeida, temos uma equipe cirúrgica pronta para este tipo de trauma. A mão da sua esposa requer uma microcirurgia neurológica complexa. Qualquer atraso reduz significativamente a chance de uma recuperação completa. A senhorita Ribeiro tem uma concussão e uma laceração profunda. É sério, mas não tão urgente quanto a mão."
Ele estava pedindo para Heitor fazer uma escolha.
Antes que Heitor pudesse falar, Antônio, seu rostinho uma cópia perfeita da expressão fria de seu pai, deu um passo à frente.
"Ajude a Kassandra primeiro."
O médico encarou o menino, chocado.
Heitor olhou para o filho. Um brilho de algo - orgulho? - passou por seu rosto.
Antônio olhou diretamente para Alexia, seus olhos grandes e sérios, mas sua voz tinha uma lógica arrepiante.
"A mamãe nos ama mais que tudo. Ela vai entender. Se ela vir o quanto nos importamos com a Kassandra, vai ficar com ciúmes, e isso significa que ela nos ama mais. Ela não vai se importar de esperar. Ela nunca se importa."
Era o jogo doentio deles, exposto sob a luz estéril e impiedosa da sala de emergência.
Heitor colocou a mão no ombro de Antônio, uma aprovação silenciosa. Ele olhou para o médico, sua voz desprovida de emoção.
"Você ouviu meu filho. Cuide da senhorita Ribeiro primeiro."
Alexia os observava. Seu marido. Seu filho. As palavras ecoavam no zumbido em seus ouvidos. A dor física em sua mão não era nada comparada ao vazio gelado que se abriu em seu peito.
Não foi apenas uma escolha. Foi uma declaração. Sua dor era o esporte deles, seu sacrifício o troféu deles.
Enquanto a levavam, ela viu Heitor e Antônio pairando sobre a maca de Kassandra, seus rostos máscaras de preocupação performática.
Deitada na cama fria do hospital, esperando, Alexia sentiu o amor que ela nutriu por anos morrer. Ele murchou e virou cinzas, deixando para trás algo duro e frio.
Na névoa de dor e medicação, uma decisão se formou, clara e afiada.
Ela tinha chegado ao limite. Ela não iria consertá-los. Ela iria escapar. Ela iria destruí-los.
Horas depois, ela saiu da cirurgia. O rosto do médico estava sombrio.
"Sinto muito, senhora Almeida. Fizemos tudo o que podíamos, mas a demora foi longa demais. Há danos neurológicos significativos e permanentes."
Ele não precisou dizer o resto. Ela sabia.
Sua carreira havia acabado. As mãos que haviam criado mundos de som, que haviam dado vida a histórias com melodia, agora eram apenas mãos. A magia se fora, ceifada pelas pessoas que diziam amá-la mais do que tudo.
Os dias seguintes no hospital foram um borrão. Heitor e Antônio a visitaram, sempre com Kassandra a tiracolo. Eles mimavam Kassandra, que explorava seus ferimentos leves ao máximo, enquanto mal olhavam para Alexia.
Eles a observavam, esperando pelas lágrimas, pela raiva, pelo ciúme.
Não tiveram nada. Alexia era uma estátua, seu rosto uma máscara serena. Seu silêncio era uma linguagem que eles não entendiam, e isso os perturbava.
No dia em que recebeu alta, seu advogado a esperava. Ela o havia chamado do hospital, usando um celular pré-pago que mantinha escondido por anos.
"Está tudo pronto", disse ele, entregando-lhe uma pasta.
Ela a pegou com sua mão esquerda boa.
De volta à mansão que mais parecia uma prisão, ela passou pela sala de estar onde Heitor, Antônio e Kassandra riam. Eles se calaram quando ela entrou, observando-a, mas ela os ignorou.
Ela foi direto para o escritório particular de Heitor, um cômodo onde nunca teve permissão para entrar. A porta estava trancada, mas ela conhecia seus hábitos. A chave estava no livro oco na prateleira, *A Arte da Guerra*.
Lá dentro, o cômodo era o que ela esperava. Madeira escura, couro, uma mesa imponente. Mas atrás de uma estante, ela encontrou o que realmente procurava. Uma leve emenda no papel de parede. Ela empurrou, e uma porta oculta se abriu.
O cômodo era um santuário. Para ela.
Cada parede estava coberta com fotos de Alexia. Fotos espontâneas, tiradas sem seu conhecimento. Alexia dormindo, Alexia compondo, Alexia chorando. Era uma linha do tempo de sua vida com ele, documentada através das lentes de um perseguidor. Em prateleiras, havia itens. Uma fita de seu cabelo. Uma xícara de chá quebrada que ela usara uma vez. Um programa de seu primeiro concerto.
Era a coleção de um obcecado.
Um flashback a atingiu, nítido e doloroso. O primeiro encontro deles. Ele parecera tão distante, tão desinteressado. Ela passara anos correndo atrás dele, tentando ganhar seu afeto, confundindo sua possessividade fria com um amor profundo e não dito.
Ela viu uma pequena caixa trancada em um pedestal. Era de Antônio. Lá dentro, ela sabia, haveria "tesouros" semelhantes. Uma mecha de seu cabelo que ele cortara enquanto ela dormia. Uma caneta que ela havia perdido. Ele era filho de seu pai.
Por tanto tempo, ela disse a si mesma que este era apenas o jeito deles. Que sua paciência, sua resistência, acabaria por curar essa doença.
O hospital havia estilhaçado essa ilusão. Isso não era amor. Era uma jaula.
Com fria determinação, ela saiu do santuário, deixando a porta aberta. Foi para seu próprio quarto e começou a fazer as malas, não de roupas, mas de memórias. Pegou o álbum de casamento e o jogou no lixo. Pegou os porta-retratos deles e os quebrou, um por um.
Ela os estava apagando.
Mais tarde, Heitor, Antônio e Kassandra chegaram em casa. Passaram direto por ela, suas risadas ecoando no corredor. Eles ainda estavam jogando seu jogo.
Antônio a viu e anunciou com orgulho:
"Kassandra vai ficar para o jantar. Ela é nossa convidada especial."
Ele olhou para o pai, que assentiu, os olhos fixos em Alexia, esperando por sua reação. Eles esperavam uma cena.
Ficaram desapontados. Alexia apenas olhou para eles, sua expressão vazia.
Os sorrisos deles vacilaram. Isso não fazia parte do roteiro. A falta de dor dela era desconcertante para eles.
Kassandra, nunca perdendo uma oportunidade, começou a apontar para os móveis.
"Heitor, querido, acho que aquele sofá azul ficaria muito melhor ali. E essas cortinas são tão deprimentes."
"O que você quiser, Kassie", disse Heitor, sua voz alta, para que Alexia ouvisse. Ele estava tentando provocá-la.
Alexia simplesmente se virou e caminhou em direção à sala de jantar.
As mudanças em sua casa, seu espaço, não significavam mais nada.
Kassandra lançou-lhe um olhar, uma mistura de triunfo e inquietação.
"Você não tem uma opinião, Alexia?"
Heitor respondeu por ela.
"A opinião dela não importa."
O jantar foi uma performance de crueldade. Heitor e Antônio davam comida na boca de Kassandra, elogiavam sua conversa fútil e tratavam Alexia como um fantasma à mesa.
Alexia comeu mecanicamente, sua mente em outro lugar. Então, um pedaço de carne ficou preso em sua garganta.
Ela não conseguia respirar. Engasgou, as mãos voando para o pescoço.
Por um segundo, o pânico brilhou nos olhos de Heitor e Antônio. Heitor começou a se levantar da cadeira.
"Ai!", gritou Kassandra, derrubando o garfo. "Acho que cortei meu dedo!"
Ela ergueu a mão, onde um arranhão minúsculo, quase invisível, vertia uma única gota de sangue.
O feitiço foi quebrado. A atenção de Heitor e Antônio voltou para o jogo deles. O momento de preocupação genuína desapareceu, substituído pelo roteiro familiar de crueldade calculada.
Heitor correu para o lado de Kassandra.
"Você está bem? Deixe-me ver."
Antônio correu para pegar o kit de primeiros socorros.
Alexia estava sufocando, sua visão começando a embaçar nas bordas, e eles estavam preocupados com um corte de papel.
Uma tosse violenta sacudiu seu corpo, e ela cuspiu sangue na toalha de mesa branca. Então, ela desabou, sua cabeça batendo no chão com um baque surdo.
A última coisa que ouviu antes que a escuridão a tomasse foi a voz de Heitor, tingida de irritação teatral.
"Olha o que ela fez. Tudo para chamar a atenção."
Ela acordou no chão, o gosto metálico de sangue na boca. A casa estava silenciosa. Eles a haviam deixado ali.
Ela se levantou, o corpo doendo. Olhou para a mancha de sangue na toalha de mesa impecável.
Ela encontrou os olhos de Heitor quando ele voltou para a sala. Ele estava observando da porta.
"Foi um belo show", disse ele, a voz fria.
"Você é patético", sussurrou Alexia, a voz rouca.
Ele negou, é claro.
"Estávamos preocupados com a Kassandra. Você estava apenas sendo dramática."
Alexia estava cansada demais para discutir. Ela fechou os olhos.
"Quando você vai parar?", ela perguntou, a pergunta um fantasma de um suspiro. "Quando este jogo vai acabar?"