Livros e Histórias de Arny Gallucio
Casamento de Desespero
Meus dedos tremiam ao assinar meu nome, Ricardo, no contrato que me uniria a uma completa desconhecida. Menos de 24 horas após conhecer Ana, uma militar de olhar firme, o funcionário do cartório nos declarava casados, um ato de desespero para me libertar de Sofia. A imagem de Sofia rindo, tratando-me como lixo ao lado de Lucas, ainda queimava. A humilhação de ser expulso da casa que um dia considerei minha, encontrando meus pertences jogados como lixo em um quarto de hóspedes. Mas o que me destruiu de vez foi ouvir a voz dela, minha noiva de infância, confessando sem remorso: "Ele foi útil, eu admito. Mas agora eu sou a Dra. Sofia Oliveira, e você é o herdeiro de uma grande empresa. Somos o casal perfeito. Ricardo era só uma escada." Cada palavra era uma facada, revelando que meu amor e lealdade não passavam de ferramentas para ela. Voltei para buscar minhas coisas e então vi: o porta-retratos quebrado da minha avó, a única lembrança preciosa que me restava. "Acidentes acontecem", disse a Sra. Oliveira, com desprezo. Eles não apenas me humilharam, mas também desrespeitaram a memória de quem mais me amou. A dor se transformou em fúria quando, ao tentar me demitir do hospital, Sofia e sua família armaram um espetáculo, me pintando como instável e louco, usando sua influência para me expulsar e arruinar minha carreira. Mas a reviravolta mais cruel veio quando descobri que a intromissão deles em minha vida culminou na morte de minha avó, que não pôde pedir ajuda a tempo. Todo amor, dedicação e sacrifício se desintegraram. A vida que construí se desfez em mentiras. Quem era eu agora? Um médico sem família, sem lar, desempregado e casado com uma estranha. A voz de Ana me ancorou na escuridão: "Case-se comigo." Esse ato de loucura se tornou a única chance de sobrevivência. Eu precisava cortar todos os laços e começar de novo, longe de tudo que me lembrava daquela traição. Com uma decisão fria e determinada, eu me virava para um futuro incerto, mas finalmente livre.
O Fogo Que Me Libertou
O cheiro a queimado foi a primeira coisa que me acordou. Estava com oito meses de gravidez, presa no meu apartamento em chamas, com o alarme a gritar sem parar. Liguei para o meu marido, Tiago, com a fumaça a sufocar-me e a vida do meu bebé em perigo. Mas ele tinha uma prioridade maior: a sua amiga de infância, Helena, tinha sofrido uma 'emergência médica' . "Não posso ir agora", disse ele, a sua voz irritada, "A Helena queimou a mão a fazer café. Liga para os bombeiros." E desligou, deixando-me para trás. Acordei no hospital com a barriga vazia. O fumo ceifou a vida do meu filho. Quando Tiago apareceu, não houve uma única pergunta sobre o filho que perdemos. Em vez disso, a sua preocupação era apenas com a Helena e o seu "terrível estado de nervos" devido a uma queimadura de chaleira. E a minha sogra, Beatriz, teve a audácia de me acusar de ser egoísta por sequer pensar em divórcio num "momento tão difícil para ele". Ele deixou-me em um prédio em chamas, grávida de oito meses, para morrer com o nosso filho. E porquê? Por causa de uma queimadura trivial, um simples escaldão de chaleira na mão de outra mulher. A sua frieza, a sua escolha chocante, fez-me questionar tudo. Como pôde o homem que amei ser tão desumano? Perdi tudo, mas ganhei uma clareza gelada. No escritório da minha advogada, sentada à mesa de negociações do divórcio, decidi que a justiça seria feita. Com registos telefónicos, relatórios dos bombeiros e localização do telemóvel, eu desmascararia a verdade. Ele não só me perdeu, mas perderia tudo por ter nos abandonado a mim e ao nosso filho por uma queimadura tão trivial.
