Eu já sabia quem viria.
⚜️REUNIÃO NA MANSÃO BRATVA
O relógio marcava 22h quando entrei na sala de reuniões. O cheiro de charuto e uísque envelhecido pairava no ar. Meu pai, Mikhail Bratva, estava à cabeceira, as mãos apoiadas na bengala, observando cada um de nós com aquele olhar que nunca envelheceu. O velho tinha 83 anos e ainda impunha medo. Mas até ele sabia, eu era o cérebro agora. E ele, apenas o nome que sustentava o império.
- Eles virão esta noite. Minha voz soou firme, fria, quase sem emoção. Todos os olhares se voltaram para mim.
- Os Marazano querem nosso galpão. E acham que podem invadir o território da Bratva sem pagar o preço.
Sergei, meu irmão mais velho, me lançou um olhar descrente.
- Tem certeza disso, Valentina? Essas informações podem ser armadilha.
- Não são, respondi, encarando-o de volta. Vieram direto do meu contato infiltrado na Itália. Fernando Marazano está liderando o ataque pessoalmente.
O nome dele cortou o ar como uma lâmina. Fernando. O herdeiro do império Marazano. O homem que jurou exterminar cada traço da nossa família.
Meu pai bateu com a bengala no chão, o som ecoou pela mesa.
- Então o inevitável chegou, murmurou ele. Que os lobos provem o gosto do sangue.
Olhei fixamente para ele.
- Vou liderar a defesa, anunciei. E desta vez, pai, não vai sobrar ninguém pra contar o que viu.
Mikhail me analisou por um longo instante. Sabia que eu não era como Sergei ou Dmitri. Eu não errava. Eu matava rápido, e fazia parecer arte.
- Então vá, disse ele, por fim. Mas lembre-se: os Marazano não lutam por poder. Lutam por orgulho. E orgulho é sempre mais perigoso que uma arma.
Um sorriso frio se formou em meus lábios.
- Eles que aprendam o que acontece quando desafiam a filha da Bratva.
⚜️ O GALPÃO
A madrugada nasceu coberta por nuvens grossas. Meu corpo estava vestido de preto, o cabelo preso e coberto pela touca e máscara preta, só meus olhos azuis de fora. Eu não era Valentina agora. Eu era Sombra Negra.
O codinome havia se espalhado como uma lenda entre as máfias, um fantasma que eliminava homens sem ser vista. E naquela noite, eu seria o pesadelo dos Marazano.
Pelo comunicador, dei a última ordem.
- Posições. Ninguém dispara até meu comando.
Meus homens, doze ao todo, se espalharam como sombras ao redor do galpão. O som distante de passos se aproximava. Estavam vindo.
A respiração ficou ritmada. Meus dedos acariciaram o gatilho com calma. E então, o som metálico do portão sendo arrombado cortou o ar.
Fernando Marazano apareceu. Frio, letal, com o mesmo olhar arrogante que eu lembrava de anos atrás, após eu ter o derrotado em outra batalha e em seu olhar havia um homem feito de ferro e ódio.
Ele achava que o ataque seria rápido. Que sairia daqui com nossas armas e a glória de humilhar os Bratva. Que pena.
- Agora, sussurrei.
O inferno se abriu.
As luzes explodiram com o primeiro disparo. O som dos tiros ecoou como trovões dentro do galpão, e as sombras se moveram com precisão assassina. Meus homens atiravam com sincronia perfeita. Um, dois, três... e os gritos começaram.
Vi um dos capangas de Fernando cair com um tiro na garganta. Outro tentou recuar, mas uma lâmina atravessou o pescoço antes que pudesse gritar. A fumaça enchia o ar, e eu me movia entre ela silenciosa, mortal, invisível.
- Merda, é uma emboscada! ouvi alguém berrar. E então o som de mais tiros, mais sangue, mais corpos no chão.
Fernando reagia, tentando comandar o caos, mas o caos já era meu. Meu território, minhas regras.
Atirei sem hesitar, atingindo o ombro de um dos seus tenentes. Vi o olhar de Fernando se voltar pra mim não de medo, mas de reconhecimento. Algo dentro dele pareceu entender, mesmo antes da máscara cair.
O confronto foi rápido, brutal, inevitável. Disparei. Ele desviou. Ele avançou. Eu chutei, atirei, errei. O metal frio da arma dele reluziu quando o impacto me atingiu no ombro.
A dor queimou, mas eu não gritei. Cair de joelhos, respirei fundo, e mirei novamente. Ele foi mais rápido. Num movimento seco, me desarmou e me jogou ao chão, o joelho pressionando meu peito.
O cheiro do sangue se misturou ao perfume do couro e pólvora. Ele respirava ofegante, o olhar cravado em mim como uma sentença.
- Quem é você, desgraçado? ele rosnou, arrancando a touca da minha cabeça.
Nossos olhos se encontraram.
Por um segundo, o mundo parou. A expressão dele mudou. Raiva... espanto... e algo mais escuro, indefinido. Mas eu não desviei o olhar.
- Valentina Castiê Bratva, declarei, a voz firme apesar da dor.
- O erro foi seu, Marazano. Sempre foi.
Ele apertou ainda mais, o rosto próximo do meu, o olhar frio e sem remorso.
- Vamos ver de quem foi o erro, princesa do inferno.
Ordenou que me amarrassem. E enquanto o sangue escorria pelo meu braço, eu o encarei em silêncio. Deixei que ele pensasse que havia vencido.
Mas eu sabia algo que ele não sabia. Eu nunca perco. Eu apenas mudo o campo de batalha.
Quando as portas do galpão se fecharam atrás de mim, arrastada pelos capangas dele, o cheiro da vitória e da vingança já queimava na minha garganta.
O inevitável havia começado. E eu seria o inferno dele.