dedilhava as teclas do piano como se conversasse com fantasmas. O cheiro de uísque
single malt que ele insistia em beber aos goles lentos misturava-se ao aroma de madeira
envernizada e café fresco.
O bar ainda estava fechado. Garçons ajustavam toalhas impecáveis sobre mesas de
mogno e o som de copos sendo organizados na prateleira acompanhava a melodia do
piano. Foi nesse cenário que a porta de carvalho rangel, violando a rotina vespertina.
Um homem entrou como uma tempestade contida. Alto, magro, com ombros largos
que tencionava o tecido impecável de seu paletó azul-marinho, ele parecia ter saído de um
catálogo de revista, e, no entanto, havia algo que quebrava sua postura. Seus cabelos
castanhos escuros, levemente ondulados, caiam de forma desordenada sobre a testa como
se ele não se importasse o suficiente para domá-los. Seus olhos, porém, eram o que me
prendiam, um cinza metálico quase prateado que escaneavam o ambiente com a frieza de
um algoritmo. Não sorriu. Não cumprimentou. Apenas parou no centro do salão, com as
mãos enfiadas nos bolsos, enquanto seu olhar percorria cada um dos cantos como se
calculasse riscos invisíveis.
"O bar abre às 18 horas." Falei, fechando o laptop com um clique seco. Minha voz
era suave, mas carregada de autoridade, o que fez com que os garçons ignorassem suas
tarefas para observar.
O homem virou-se lentamente em minha direção. Seu rosto era uma escultura de
mármore, queixo angular, nariz afilado, uma cicatriz quase imperceptível cortando a
sobrancelha esquerda. Bonito, sim, mas de uma beleza que doía. Ele me fitou por alguns
segundos, os olhos pousados em mim como se decifrasse um código antes de responder.
"Não vim beber. Vim inspecionar." A voz dele era grave, rouca, como se não fosse
usada com frequência. Cruzei os braços, como que em um movimento de defesa, sentindo
um arrepio na nuca.
"Inspecionar?" Repeti arqueando a sobrancelha.
"O noivado de Gabriel e Sofia... ela é minha irmã. Preciso garantir que o local esteja
seguro. Câmeras, saídas de emergência, rotas de evacuação." Ele puxou o celular do bolso
interno do paletó, os dedos deslizando rapidamente sobre a tela. Nem sequer olhou pra
mim para falar.
Ri, um som curto e desprovido de humor. "Esse bar tem mais de trinta anos e nunca
precisou de rotas de evacuação."
Finalmente ele ergueu os olhos. Havia uma centelha ali, algo que poderia ser
irritação ou interesse.
"Se tem mais de trinta anos, pode estar cheio de falhas." respondeu secamente. "E
você é...?"
"Ária Garcia. A dona."
Ele inclinou a cabeça como se aquela informação fosse algo a ser registrado, não
uma apresentação.
"Fred Almeida. Preciso de acesso aos sistemas elétricos e ao mapa estrutural."
Senti o sangue latejar nas têmporas. Não sou uma mulher muito paciente.
"Você poderia começar com um boa tarde." Disse, descendo do banco com
movimentos lentos. Me aproximei dele, os saltos das minhas botas ecoando no assoalho.
Fred não recuou, mas seus dedos se contraíram levemente em torno do celular. Eu o
observava, impassível, enquanto inalava seu perfume, uma fragrância com uma aura de
poder inabalável, confiança que beira arrogância e o luxo de quem não pede licença. Uma
explosão fria e cortante, densa quase palpável com uma projeção que ocupa espaço como
um manto invisível de autoridade. Um cheiro daqueles que deixa um rastro que persiste
mesmo após a saída do portador, como um aviso silencioso de que ele está sempre dois
passos à frente. Ou talvez eu só esteja lendo livros demais de romance.
"Boa tarde." Concedeu após uma pausa intencional. "Agora posso ver os sistemas?"
Quase rosnei. Quase. Em vez disso, apontei para o corredor estreito atrás do
balcão. Gabriel era meu melhor amigo e era por ele que ela deixaria a irritação de lado.
"A sala técnica é lá. Mas me avise antes de mexer em qualquer coisa. Vamos abrir
em breve e não quero ter que lidar com nenhum problema."
Fred acenou com a cabeça, já se movendo em direção ao corredor. Parou um
instante ao passar pelo piano onde meu avô agora dedilhava As Time Goes By. O velho
homem inclinou o copo de uísque em sua direção, um sorriso enigmático nos lábios. Fred
hesitou. Um micro gesto que eu quase perdi, então seguiu em frente, desaparecendo na
penumbra.
Enquanto isso, do lado de fora, a chuva começava a cair, batendo nas janelas como
dedos impacientes. Voltei ao banco, abri o laptop e tentei focar na tradução. "Seu coração
era um inverno interminável..." escrevi, mas as palavras pareciam vazias. Olhei para o
corredor escuro, onde a silhueta de Fred se movia como uma sombra disciplinada.
Arrogante. Calculista. Insuportável. Mas por que minhas mãos tremiam levemente
ao digitar?
Meu avô terminou a música e levantou-se, arrastando a cadeira com um ruído
áspero, passou por mim e pousou uma mão em meu ombro.
"Cuidado, minha netinha!" Sussurrou o cheiro de uísque, envolvendo-me como um
abraço familiar. "Tempestades sempre começam com um só raio."
E antes que eu pudesse responder, ele saiu deixando para trás o eco de suas
palavras e o silêncio pesado que precede a queda de um trovão. No corredor, Fred
examinava os fios elétricos com dedos ágeis, e olhos atentos a cada detalhe.
A movimentação no de arrumação continuava, faltava menos de quarenta minutos
para abrirmos e resolvi encerrar meu trabalho de tradução . Pedi que um dos garçons
guardasse meu laptop no meu escritório e continuei observando os movimentos do
arrogante visitante perdido em seu trabalho investigativo. Assim que ele sair vou ligar pra
Gabriel para saber o motivo de tanta preocupação.
A porta rangeu mais uma vez, permitindo que outra figura irritante entrasse no local.
"Ária, você não fez o depósito que eu pedi. Eu te falei que era urgente." Tiago se
aproximou falando com indignação. Fechei meus olhos e respirei fundo.
"Não me lembro de ter concordado em fazer depósito algum na sua conta. Até onde
eu sei, Tiago, eu não te devo absolutamente nada."
"Tá de brincadeira, Ária? Eu vou te pagar. Já te falei que vou te pagar. Eu preciso
muito desse dinheiro. Posso perder meu negócio se você não fizer esse depósito pra mim."
"Tiago, acabou. Essa fonte secou. Não. Entenda isso." Ele se aproximou mais e
colocou a mão sobre meu ombro.
"Deixa eu te explicar uma coisa..." Ele foi interrompido pela chegada de Fred, que o
encarava com uma expressão séria. De repente o bar estava silencioso e não havia mais
movimento algum, todos os olhos estavam concentrados em nós. Percebi que mais dois
homens que eu desconhecia, vestidos de terno e gravata, também se aproximaram em
silêncio.
"Senhor, preciso que retire sua mão dela e se afaste devagar." Fred disse em tom
baixo, porém autoritário. Tiago retirou sua mão do meu ombro, mas não se afastou.
"Posso saber quem é você?" Tiago perguntou com um sorriso cínico na cara. Fred
deu mais dois passos em nossa direção, e seu movimento foi repetido pelos dois homens
desconhecidos.
"Eu sou a pessoa que vai te tirar à força daqui se o senhor não se afastar e sair por
conta própria." Tiago riu novamente e passou a mão pelo rosto.
"Eu sou marido dela."
"Ex. Ex-marido. Acho melhor você ir embora em paz, Tiago. Se você retornar, vou
fazer uma queixa pra polícia e pedir uma ordem de restrição." Ele ficou em silêncio por um
tempo. Seus olhos corriam de mim para Fred.
"Tá trepando com ele, Ária? É isso? Ele é seu novo brinquedinho?"
"Como disse antes, Tiago, não te devo nada, muito menos satisfação sobre com
quem eu trepo. Mas eu não vou mentir pra você." Levantei do banco e cheguei mais
pertinho de Fred, envolvi seu rosto em minhas mãos e o beijei nos lábios. Senti o corpo dele
endurecer, talvez pela surpresa, mas logo ele correspondeu o beijo e enlaçou minha cintura
me puxando mais pra perto. Eu havia pensado, se é que eu pensei em alguma coisa, em
um beijo rápido, um roçar de lábios, um golpe de cena. Mas quando a língua dele roçou na
minha, involuntária e suave, algo dentro de mim estremeceu como um cristal antigo atingido
por uma nota aguda. Aquele perfume dele me invadindo, seus braços apertando o abraço
como uma necessidade de proximidade... Meu cérebro gritava que aquilo era um erro, que
ele era um estranho, mas meu corpo traidor, registrava cada detalhe: o calor da palma dele
nas minhas costas, o gemido rouco que escapou de sua garganta, o gosto de hortelã e
perigo. O corpo dele me mostrando seu nítido desejo... Finalmente consigo me afastar.
Sinto meus lábios inchados e percebo que meu batom havia se transferido para os lábios
dele como uma tatuagem mal feita. Não percebi mais a presença de Tiago, ele havia ido
embora. Fred me encarava, seus olhos escurecidos como nuvens antes da tempestade. Ele
passou o polegar sobre a própria boca, apagando os vestígios do beijo, um pouco ofegante
e totalmente silencioso. Eu sabia que precisava dizer alguma coisa, mas não sabia
exatamente o que.
"Me desculpe. Eu só queria que ele se afastasse." Ele continuava a me encarar em
silêncio. Seus olhos se desgrudaram dos meus por um momento para dispensar os homens
que o acompanhavam, o que o fez sem dizer nada.
"Você não tem segurança aqui?" Ele voltou ao trabalho como se nada tivesse
acontecido.
"Eles já deveriam ter chegado. Sempre ficam dois seguranças aqui e dois na
entrada. Devem estar atrasados por causa da chuva. Não se preocupe." Ele olhou em volta
mais uma vez como se precisasse de tempo para se acalmar.
"Olha, Fred. Obrigada pela ajuda. Eu vou ficar bem."
"Não espere a próxima vez. Peça uma ordem de restrição. Se precisar de ajuda com
isso, me ligue." Ele tirou um cartão de visitas do bolso e me entregou. "Vou deixar meu
pessoal aqui até os seus seguranças chegarem."
Eu ia dizer que não precisava e mais alguma coisa que se perdeu na minha mente
antes mesmo de chegar a minha boca, mas ele simplesmente foi embora me deixando com
cara de boba e com as palavras que eu nem sabia que queria dizer engasgadas