- Para mim, você ainda é só o meu menino.
- Então deixa o seu menino dormir enquanto pode.
- Sua mãe está te ligando desde cedo.
- Mais um motivo para eu não levantar...Retruco, fazendo careta. Ela sorri de leve.
- Viktor, você precisa parar de tratar sua mãe assim.
- Minha mãe é você. Eu só fui gerado na barriga dela.
- Ouvir isso me alegra...Mas, ainda assim, ela está tentando.
- Tá bom... Vou pensar no caso.
Yelena balança a cabeça em negação e sai do quarto, levando as roupas encharcadas de sangue, resultado de um informante da FSB que teve a infeliz ideia de se infiltrar entre os meus homens.
Coitado.
Na verdade, ela sabe que eu não vou pensar em nada que venha de Olga. Desde o momento em que ela me entregou para os treinamentos da máfia, qualquer sentimento que eu pudesse ter por ela morreu.
Do meu pai, eu nunca esperei nada. Dentro daquele homem nunca existiu sequer a sombra de um sentimento. Mas delae uma mulher que se diz mãe... Aceitar o que fizeram comigo é algo que eu jamais vou perdoar.
Tenho um meio-irmão, Ivan, filho do meu pai com a primeira esposa, já falecida. Ele sempre quis assumir o lugar de sucessor, mas o Don Rurik me escolheu.
Olga também nunca aceitou ver o "bastardo" no poder... então preferiu me jogar aos lobos.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Ainda adolescente, fui submetido a treinamentos brutais. Aprendi, da pior forma possível, a não sentir nada, não ter compaixão, nem piedade. Me tornei algo que nunca quis ser: Uma versão ainda mais dura do meu próprio pai.
Mas existe uma diferença entre nós.
Eu tenho senso de justiça.
Não sou bom. Também não sou mau.
Sou justo... Dentro do que é possível.
A única pessoa que eu amo de verdade é Yelena. Minha nyanya desde que nasci. A única constante na minha vida. Prometi que ficaria com ela até o último dia, e sei que, quando esse dia chegar, a última parte boa que existe em mim vai morrer junto.
Mas também existe outra pessoa...
Alguém que marcou meu passado, e que eu pretendo encontrar novamente.
Porque esse sentimento nunca desapareceu.
Emília Morales.
Eu era apenas um garoto. Ela, ainda menor. Mas me lembro perfeitamente: linda, delicada...suas pequenas mãos nas minhas durante as festas que nossos pais organizavam.
Ela era minha prometida.
Sempre foi.
"Cuide bem da Emília...Ela será sua esposa um dia."
A voz do pai dela ainda ecoa na minha memória.
E eu cuidava. Do meu jeito. Segurava sua mão e a levava para brincar pelos corredores da imensa mansão onde ela vivia, na Colômbia.
Até que tudo acabou.
Yelena me contou o que aconteceu: Seus pais foram assassinados. Massacrados. Na mesma noite, Emília desapareceu.
E não foi a única.
Jorge Rodriguez, braço direito do pai dela, também sumiu.
Provavelmente fugiu levando a menina, sua sobrinha, sua afilhada.
Desde então, nunca mais houve notícias.
Eles desapareceram do mapa.
E eu fiquei sem a minha bonequinha.
Nunca esqueci aquela garotinha. Mas o tempo passou, e ela virou apenas uma lembrança... até que, meses antes de morrer, meu pai decidiu que era hora de eu me casar.
Naquele instante, pensei nela.
Mas Don Rurik já tinha outros planos.
Queria que eu me casasse com Kate Vasiliev, filha de um aliado. Minha sorte foi que ele morreu antes de conseguir me obrigar a isso.
Quando esse assunto veio à tona, eu tomei uma decisão.
Fui atrás da minha verdadeira noiva.
Jorge foi inteligente. Mudou nomes, datas, apagou rastros. Mas não o suficiente.
Eu procurei em todos os lugares.
Até no inferno.
E encontrei.
Descobri para onde foram. O país. O estado. A cidade.
Brasil.
Ainda não sei se continuam no mesmo lugar... Mas falta pouco.
Muito pouco.
Emília está quase ao meu alcance.
E tenho a sensação de que, até o fim do dia, isso vai mudar.
...
- Patrão...Licença.
- Entra, Yerik - respondo, sem tirar os olhos da lista de nomes que pretendo eliminar em breve.
- Achei o que o senhor pediu.
- Pedi muitas coisas essa semana. Seja mais específico.
- A moça que o senhor procura...
- Emília.
- Sim. Ela ainda mora no Brasil. Na mesma cidade de vinte anos atrás. Encontramos o pai primeiro...Depois ela foi fácil.
Um sorriso lento surge no meu rosto.
- Vou para o Brasil amanhã.
- Então... Tem um problema.
- Qual?
- Ela namora um membro do PCC.
Dou uma risada baixa.
- E eu tenho cara de quem teme bandido?
- Ele não é qualquer um... É primo de um dos donos do morro.
- E eu sou o dono da máfia russa. Esse título precisa servir para alguma coisa.
- Isso pode dar problema, patrão.
- Vai dar problema! O corrijo, tranquilo.
- Mas prepare tudo. Nós viajamos amanhã.
- Quem vai?
- Eu, você, Niko e mais quatro dos melhores.
- E o Mikhael?
- Fica. Alguém precisa manter tudo funcionando com o Ivan.
- Certo.
Ele sai, fechando a porta.
Sozinho, solto um suspiro lento, sentindo algo que raramente permito existir.
Expectativa.
- Minha bonequinha...Você está muito perto agora.
E, dessa vez...
Eu não vou perder você!
A Emília tem sido minha obsessão desde que eu soube que precisava me casar...Na verdade, meu amor por ela sempre existiu, só estava guardado para uma ocasião especial.