Com a pasta dos exames do pré-natal debaixo do braço e a outra mão pousada sobre a curva suave da barriga, Avery empurrou a porta da confeitaria.
A pequena sineta de latão tilintou acima de sua cabeça.
O calor do ambiente a envolveu de imediato, junto com o aroma reconfortante de baunilha, café e chocolate derretido.
A atendente atrás do balcão ergueu os olhos e abriu um sorriso.
- Boa tarde, Avery.
Ela sorriu de volta.
- Olá.
- O de sempre?
A atendente nem precisava perguntar.
- Red velvet e mousse de mirtilo?
Avery soltou uma risada baixa.
- Você me conhece bem demais.
- Eu ficaria preocupada se você pedisse outra coisa.
Alguns clientes riram.
Avery já era uma velha conhecida do lugar.
Desde o início da gravidez, passava por ali depois de quase todas as consultas de pré-natal. Os funcionários tinham acompanhado o crescimento de sua barriga mês após mês.
Depois de pagar, foi até sua mesa favorita, ao lado da janela.
Lá fora, Londres fervilhava em mais uma tarde fria de dezembro.
Enquanto aguardava o pedido, tirou o celular da bolsa.
Suas buscas recentes tinham se tornado quase ridiculamente previsíveis.
Carrinhos de bebê.
Roupinhas.
Cobertores para recém-nascidos.
Minúsculas meias de tricô.
Um sorriso surgiu em seus lábios enquanto ela passava pelas imagens de casaquinhos pequenos demais para parecerem reais.
Sua filha ficaria uma gracinha com eles.
Só de pensar nisso, sentiu o peito se aquecer.
A sineta da confeitaria tocou novamente.
Avery levantou os olhos para a entrada, quase por distração.
Um homem e uma jovem acabavam de entrar.
Ele tinha bem mais de um metro e oitenta. Vestia um sobretudo cinza-chumbo de corte impecável, e o cabelo escuro completava a imagem de um homem que atraía todos os olhares sem precisar fazer esforço.
Adrian Blackwood.
O coração dela reconheceu aquele homem antes mesmo que sua mente conseguisse assimilar o rosto.
Ao lado dele vinha uma mulher que parecia recém-formada.
Ela usava um casaco de lã rosa-claro sobre um vestido de tricô creme, botas de camurça até os joelhos e uma boina no mesmo tom, emoldurando os cachos castanhos e macios. Os olhos brilhantes e a elegância descontraída lhe davam a confiança natural de alguém que nunca tinha sido tocado pelas dificuldades mais duras da vida.
O sangue fugiu do rosto de Avery.
Seus dedos se fecharam em torno do celular.
Adrian.
Seu marido.
O pai do bebê que ela carregava no ventre.
Nenhum dos dois esperava aquele encontro.
Ou talvez...
Talvez apenas ela não esperasse.
A jovem sorriu para Adrian e disse algo que Avery não conseguiu ouvir.
Ele a escutou com paciência. No antebraço, levava a bolsa de mão rosa dela, num gesto tão natural quanto íntimo.
Era um detalhe pequeno.
Mesmo assim, cortou Avery como uma faca.
Talvez ela tivesse encarado os dois por tempo demais.
Sem nenhum disfarce.
Porque, de repente, Adrian ergueu a cabeça.
Os olhares se cruzaram de um lado a outro da confeitaria.
O tempo parou.
Não houve surpresa no rosto dele.
Nem constrangimento.
Nem culpa.
Muito menos qualquer sinal de afeto.
Adrian manteve a mesma expressão impassível de quem acabava de reconhecer alguém que tinha visto uma única vez na rua.
Uma estranha.
Nada além disso.
Após um breve segundo, desviou os olhos.
A conversa com a jovem continuou como se Avery nunca tivesse existido.
A atendente se aproximou com as sobremesas.
- Aqui estão.
O bolo de um vermelho intenso e a delicada mousse de mirtilo pareciam perfeitos, como sempre.
Em qualquer outro dia, Avery já teria pegado o garfo.
Naquela tarde, não conseguiu tocar em nenhum dos dois.
Do outro lado da confeitaria, Adrian retirou o pedido para viagem.
A jovem recebeu a sacola com um sorriso radiante, e os dois seguiram juntos para a saída.
Ao passarem pela mesa de Avery, a mulher baixou a voz.
- Ren...
Avery conhecia aquele apelido.
- Então... - sussurrou a jovem, curiosa. - Você conhecia aquela grávida? Ela ficou olhando para nós.
Adrian nem sequer olhou na direção de Avery.
- Não se preocupe com ela.
Sua voz permaneceu calma.
Indiferente.
Os dois saíram.
A porta se fechou atrás deles.
"Aquela grávida."
As palavras ecoaram dentro dela, dolorosas.
Avery tinha apenas vinte e quatro anos.
Mas a gravidez a havia transformado.
Os enjoos matinais tinham cedido lugar a um cansaço constante. Mesmo se cuidando havia semanas e tentando descansar sempre que podia, olheiras escuras marcavam seus olhos. As bochechas estavam um pouco mais arredondadas, e a silhueta elegante da qual antes tanto se orgulhava desaparecera sob camadas de roupas de inverno e um casaco grosso de gestante.
O gorro de lã que colocara ao sair do hospital escondia o cabelo que não tinha tido energia para arrumar.
Comparada à jovem radiante e despreocupada ao lado de Adrian...
De repente, Avery entendeu por que alguém poderia tomá-la por uma mulher mais velha.
Ela não deveria ter olhado.
Sabia disso.
Ainda assim, não conseguiu evitar e observou os dois pela janela da confeitaria.
Do lado de fora, Adrian destravou o Range Rover preto estacionado junto à calçada.
Caminhou na frente, abriu a porta do passageiro e, por reflexo, ergueu a mão acima da cabeça da jovem para evitar que ela batesse no batente da porta.
Ela riu de algo que ele disse.
E Adrian sorriu.
Não por educação.
Nem por obrigação.
Foi um sorriso caloroso.
Tranquilo.
Gentil.
Um sorriso que Avery jamais recebera dele.
Adrian fechou a porta com cuidado e deu a volta até o lado do motorista.
Pouco depois, o Range Rover desapareceu no fluxo de carros de Londres.
Só então Avery percebeu que estava sem respirar.
A atendente se aproximou em silêncio.
- Aproveite as sobremesas.
Avery se obrigou a sorrir.
- Obrigada.
Pegou o garfo.
Um pedaço generoso de bolo red velvet se derreteu em sua boca.
Normalmente, era doce.
Naquele dia...
Não tinha gosto de nada.
Ela forçou a comida a descer.
A dor que atravessava seu peito era bem mais intensa que qualquer sensação de fome.
Avery sempre soubera que aquele casamento terminaria um dia.
Mas saber não diminuía a dor.
A união dos dois nunca tinha começado por amor.
Uma noite de imprudência.
Uma gravidez inesperada.
Isso bastava.
A família Blackwood insistia no casamento.
Para Adrian Blackwood - o brilhante fundador e CEO da Blackwood Capital -, aquela união nunca passava de uma obrigação.
Uma responsabilidade.
Nada mais.
Aos olhos dele...
Avery era apenas a mulher que o tinha aprisionado.
Adrian nunca dizia isso em voz alta.
Não precisava.
Seu olhar dizia tudo.
Para Avery, no entanto...
Sempre era diferente.
Ela amava Adrian havia oito anos.
Desde muito antes de ele saber que ela existia.
Muito antes de o destino colocá-los na mesma sala.
Avery estudava incansavelmente, determinada a se tornar alguém digna de estar ao lado dele, em vez de apenas admirá-lo à distância.
Por fim, conquistou uma vaga como secretária de Adrian na Blackwood Capital.
Acreditou que o destino finalmente tinha sorrido para ela.
Mas...
Tudo o que recebeu foi um coração partido.
Até hoje, conseguia se lembrar da manhã seguinte àquela noite.
Da frieza nos olhos de Adrian.
Da repulsa impossível de ignorar.
Como se ter tocado ela tivesse sido o maior erro de sua vida.
De repente, uma pontada aguda atravessou a parte baixa de sua barriga.
Avery perdeu o fôlego.
O garfo escapou de seus dedos.
Outra dor veio logo em seguida.
Mais forte.
Por instinto, envolveu a barriga com as duas mãos.
- Não...
Seu rosto perdeu a cor.
Um suor frio cobriu sua testa.
Os clientes das mesas próximas perceberam na mesma hora.
- Com licença!
Uma mulher de meia-idade correu até ela.
- Você está bem?
Avery tentou responder.
Outra onda de dor, porém, roubou-lhe o ar.
Alguém já pegava o celular.
- A maternidade fica do outro lado da rua.
- Precisamos chamar ajuda.
Em poucos minutos, um funcionário da confeitaria correu até o hospital em busca de socorro. Pouco depois, Avery foi levada de cadeira de rodas de volta à maternidade do outro lado da rua.