Paro de frente ao espelho, vendo o quanto a roupa me valorizou. A calça acentuou minha cintura fina, quadril largos e a bunda consideravelmente grande. Posso estar nos Estados Unidos, mas minha maravilhosa genética brasileira jamais permitirá que eu pareça uma americana. Não tenho os cabelos loiros e escorridos, muito menos os olhos azuis como a maioria. Muito pelo contrário, minhas íris são castanhas, as mechas longas, onduladas e escuras feito a noite, contracenando perfeitamente com a minha pele morena.
Pego as minhas coisas de maquiagem, passo um corretivo, um blush, rímel e um protetor labial em meus lábios volumosos. Não estou indo para nenhuma ocasião especial, então o básico da maquiagem já é o suficiente. Calço meu tênis branco, passo meu perfume, confirmo se na pequena bolsa de mão está tudo que preciso e saio do meu quarto.
Deixo a bolsa no braço do sofá e vou direto para a cozinha. Faço um café na máquina e coloco um waffle no forno. Amo quando fazemos na hora, mas é sempre bom comprar esses pré prontos no mercado, facilita no dia a dia. Quando tudo fica pronto, sento-me na bancada que divide a minha cozinha da sala.
Meu coração gela ao ver a carta do consulado exatamente onde a deixei na noite anterior. Ela é um lembrete cruel do motivo de eu ter passado boa parte da madrugada em claro: preciso renovar meu visto e, no momento, não existe um único motivo que faça o governo americano querer me manter aqui.
O apartamento é pequeno, mas aconchegante. Moro em uma cidade vizinha à grande Nova York, então os aluguéis aqui não são tão baratos para ficar escolhendo.
_ Good morning, princess.- Passa por mim, indo em direção a cozinha.
Bom dia, princesa.
_ Dormiu bem?- Tomo um gole do meu café, a acompanhando com o olhar.
Nós nos conhecemos há oito anos atrás, quando fizemos o último ano do ensino médio juntas. Fomos fazer um trabalho em dupla e desde então nunca mais nos separamos. A família dela se tornou a minha aqui nessa terra tão distante da minha. Logicamente já tivemos algumas brigas, mas nada forte o suficiente para nos separar.
Me mudei quando tinha apenas quinze anos. Fiz uma prova e consegui uma bolsa de estudos na cidade que nunca dorme, em uma escola comum, mas com alojamento. Minha família, que sempre me apoiou, se reuniu para fazer esse sonho acontecer. Meu irmão mais velho vendeu sua moto, assim conseguimos comprar a minha passagem. Mamãe comprou algumas roupas e parcelou em doze vezes. Eu também fiz a minha parte, assim que soube que havia passado, trabalhei que nem doida para conseguir juntar um dinheiro. Não foi muito, mas ajudou bastante assim que cheguei.
Sempre fui boa em aprender novos idiomas, acho que tenho facilidade. Então ficar ouvindo muita coisa em inglês me fez ter uma noção gigantesca do idioma, quando cheguei, a própria escola me deu aulas sobre a língua e assim, dentro de pouco tempo, já sabia me comunicar e escrever perfeitamente no meu segundo idioma. Morar aqui fez toda diferença, afinal eu era obrigada a aprender, senão não conseguiria sobreviver aqui.
_ Que nem um anjo, quase que nem acordava hoje.- Suspira.
Mag pega uma xícara de café e se senta na minha frente. Ela é a típica menina loira que vemos nos filmes, só não é rica. Está vestida socialmente, pronta para encarar mais um dia andando para todos os lados, mostrando casas para pessoas que querem comprar ou alugar. Ela trabalha em uma imobiliária.
_ Não sei como você consegue pular o café da manhã.
_ Eu estou tomando café.- Argumenta.
_ Mas não está comendo nada, pode acabar passando mal.
_ Você sempre fala isso e eu nunca passo.- Revira os olhos.- Além do mais, odeio essa refeição, para mim é a que menos faz sentido.
Eu sou uma pessoa que o meu dia só começa após o meu lanche da manhã, já ela pula ele com toda a facilidade do mundo. Isso simplesmente não faz sentido nenhum na minha cabeça.
Dou de ombros, permitindo que o assunto morra. Iniciar uma nova discussão sobre isso não vai nos levar a nada.
_ E aí, preparada?
_ Não.- Deixo os meus ombros caírem em sinal de desânimo.- Se eu pudesse, voltaria para a minha cama e me esconderia debaixo do meu cobertor quentinho.
_ Vai dar certo, amiga.- Segura minha mão em cima da mesa e deixa seu sorriso mais confiante desenhar o seu rosto.
_ As minhas chances são poucas.- Solto um suspiro pesado.
Não sou uma pessoa pessimista, muito pelo contrário. Mas neste momento não me resta outra opção a não ser encarar a realidade.
Meu visto venceu este ano. Na época eu consegui um de estudantes, o que me deu dez anos aqui sem precisar me preocupar com isso. Bem, não era uma preocupação até um mês atrás, quando eu ainda trabalhava na cafeteria e conseguia pagar a mensalidade da faculdade. Mas tudo virou de cabeça para baixo, quando eu fui mandada embora e tive que trancar os estudos.
Estou fazendo a unha de algumas conhecidas e ganhando por isso, o mínimo para conseguir pagar a minha parte das despesas, não cobre a mensalidade.
Depois que tudo isso aconteceu, perdi qualquer motivo para estar aqui. Eu poderia até conseguir o de turista e ter mais três meses para tentar, mas com o novo presidente que é totalmente contra os imigrantes, minhas chances se reduzem drasticamente.
_ Vai sim.- Sorrio de volta, tentando me agarrar a isso com todas as minhas forças.