carícia de bala. Era estagiária de medicina, já tinha ano e meio em
hospitais públicos vendo gente entrar baleada, e sabia que o do ombro
não era mortal - um tiro assim, àquela distância, tinha sido
proposital, só para detê-la. Não para matá-la.
Margarita a queria viva, e só para ficar com o neto.
Que ela pare de fugir. Depois eles cuidam disso. Que pareça um
acidente.
A frase se repetia em sua cabeça havia seis dias; naquela mesma noite
havia enfiado quatro coisas numa mochila, saído pela porta de serviço
escondendo a barriga enorme e se perdido nos ônibus da madrugada. Três
pensões, duas mudanças de cabelo, uma identidade falsa que lhe custou
o dinheiro que restava. E mesmo assim a encontraram.
Virou outra esquina. Uma contração a dobrou ao meio e tirou o ar dela.
Encostou-se numa parede de tijolo, cerrou os dentes e esperou. A
contração durou cinquenta segundos.
Não. Agora não.
Mas o corpo, quando levou dois tiros e o susto de uma perseguição,
decide que o bebê tem que sair já, e ninguém pode evitar isso.
Valéria mordeu a língua para não gritar e continuou andando.
---Filha. Venha.
Valéria ergueu a cabeça.
Uma senhora baixinha, de cabelo branco preso num coque e um avental
manchado de óleo, fazia um sinal breve com a mão desde uma porta
entreaberta. Sem susto, sem espanto, como se passasse a tarde inteira
esperando que algo assim acontecesse.
Valéria hesitou. A contração seguinte chegou e não deu para pensar
mais. Cruzou a porta.
---Ao fundo. Último quarto. Tem um colchão.
---Senhora, atiraram em mim.
---Já vi. Mexa as pernas, menina.
O quarto tinha um colchão no chão, uma mesinha com um Cristo de madeira
e uma lâmpada pendurada no teto. A senhora entrou atrás dela e lhe
passou uma toalha limpa.
---Tire a roupa de baixo.
---Primeiro o ombro. A bala pode infeccionar.
---Você é médica?
---Estagiária.
---Então sabe que, se eu parar para tirar a bala agora, o bebê morre.
É isso que você quer?
Valéria não discutiu. Sabia disso. Uma estagiária com ano e meio de
plantões na emergência sabe quais são as prioridades.
Tirou a calça com as mãos desajeitadas de sangue, deitou-se e dobrou
os joelhos. A senhora levantou sua saia e enfiou dois dedos para medir
a dilatação.
---Oito centímetros. Falta pouco.
---Eu sei.
---Já pariu antes?
---Não, mas já estive em muitos partos.
---Então não preciso explicar nada.
Uma nova contração. Valéria agarrou o lençol com a mão sã e apertou tão
forte que os nós dos dedos ficaram brancos. O grito subiu pela
garganta e ela o esmagou entre os dentes.
---Solte o grito ---disse a senhora---. Aqui dentro ninguém ouve você.
---Ouvem sim. Estão vindo atrás de mim.
A senhora ficou parada dois segundos. Caminhou até a janela, olhou por
uma fresta e voltou.
---Quantos?
---Dois. Podem ser mais.
---O que eles querem?
---O menino. Depois me matam.
---Quem é tão desalmado?
---Minha sogra.
A senhora assentiu como quem já ouviu aquilo muitas vezes. Como se em
quarenta anos recebendo crianças já tivesse recebido mais de uma moça
de fora do bairro fugindo da própria família.
---Eu sou dona Carmen. Eu ajudo você. Você aguenta. Depois a gente
decide.
---Se eles vierem, não abra.
---Não abro para ninguém esta noite. Empurre.
Valéria empurrou.
O bebê nasceu às onze e vinte e três. Dona Carmen o recebeu nas duas
mãos, soprou em seu rosto e deu um tapinha suave. O bebê chorou com
aquela força limpa dos que chegam ao mundo bravos com a viagem.
---Homem. Está forte.
Cortou o cordão com uma tesoura esterilizada no fogo, envolveu-o numa
toalha e o colocou sobre o peito dela. Valéria olhou para ele, passou
um dedo pelo lábio minúsculo e, pela primeira vez em dias, sentiu algo
que não era medo.
E então a barriga se contraiu de novo.
---Dona Carmen.
---Eu sei. Senti quando enfiei os dedos. Não te contei para não
assustar.
---Outro?
---Outro. Os ultrassons são máquinas. O corpo é o corpo. Empurre.
Dona Carmen tirou o primeiro do peito dela, deixou-o sobre um cobertor
a um metro do colchão e voltou a enfiar as mãos.
---Filha, esse aí vem sentado.
Valéria fechou os olhos; seu filho tinha escolhido o pior momento para
vir sentado, ela no chão de uma vila, com uma senhora de mãos limpas,
mas sem instrumentos - podia ser sua morte, precisava de um centro
cirúrgico ou de um ginecologista experiente.
---Dona, se eu morrer não importa, tire meu filho vivo.
---Já virei bebê assim por dentro vinte e duas vezes em quarenta anos.
Vinte e dois vivos. Empurre.
Dona Carmen enfiou a mão até o pulso. Valéria gritou. Dessa vez o
grito saiu animalesco, e a senhora nem sequer olhou para ela porque
tinha os dois braços enfiados até os cotovelos em sangue tentando
virar um bebê que havia decidido nascer de lado.
---Vem, menino. Vira. Vira para sua mãe.
Passaram-se três minutos. Valéria perdeu a noção do tempo. Via manchas
negras nas bordas dos olhos. O tiro no ombro drenara mais sangue do
que ela podia repor. Por dentro subia a voz calma de sua professora de
obstetrícia: em hemorragia pós-parto a mãe tem vinte minutos antes do
choque.
---Dona, vou perdê-lo.
---Empurre.
Valéria empurrou com o que lhe restava. Empurrou pensando em Mateo
entubado, no rosto de Margarita ao telefone pedindo que a matassem,
nos dois filhos morrendo com ela naquela noite. E isso ela não ia
permitir.
O segundo bebê nasceu às onze e quarenta e um. Nasceu roxo. Não
chorou.
Dona Carmen o segurou com uma mão embaixo do pescoço e a outra embaixo
da bundinha. Soprou em seu rosto. Esfregou o peito dele com o polegar.
Passou um dedo limpo pela boca para tirar o muco. O bebê continuava
roxo.
Valéria se ergueu sobre os cotovelos apesar do tiro. A estagiária
venceu por um segundo a mãe apavorada.
---Boca no nariz. Sopros curtos. A cada três segundos. E bata nas
costas dele.
Dona Carmen colocou a boca sobre o nariz do bebê e soprou. Uma vez.
Duas. Na quarta, o bebê tossiu. E respirou. E abriu os olhos enormes,
escuros, e olhou para o teto com a calma que não perderia pelo resto
da vida.
---Outro homem ---disse dona Carmen, com a voz quebrada pela primeira
vez naquela noite---. E este chegou por conta própria.
Cortou o cordão, limpou-o, envolveu-o em outra toalha e o deixou ao
lado do primeiro. Dois bebês idênticos sobre um cobertor, no chão de
uma vila num bairro onde a polícia não entrava.
---Aguente. Vou tirar a bala.
Foi até a cozinha e voltou com uma faca pequena que passou pelo fogo,
uma pinça velha, uma garrafa de mescal e um pano limpo. Derramou o
mescal sobre o ferimento do ombro. Valéria mordeu o dorso da mão e,
pela dor, pela perda de sangue e pelo esgotamento do parto, perdeu a
consciência. A senhora se agachou ao lado do colchão e pegou um dos
bebês. Carregou-o com a suavidade de quem já carregou milhares, mas
pensou que aquela jovem inconsciente não conseguiria escapar viva
daquela gente que a procurava com dois recém-nascidos, e uma ideia
absurda cruzou sua cabeça.
Três batidas na porta. Depois mais duas, fortes.
Dona Carmen acomodou o bebê sobre o colchão vazio, colocou por cima a
toalha manchada de sangue do parto, espalhou um pouco mais de sangue
fresco ao redor com um pano e caminhou até a entrada. Antes de abrir,
respirou fundo duas vezes e ajeitou o rosto de mulher cansada que
usava havia quarenta anos.
Abriu.
Margarita Solís estava no umbral com um casaco preto e três homens
atrás dela. Sem maquiagem, sem joias, sem nada do luxo com que
costumava circular pela cidade. Só o rosto cansado e os olhos frios.
---Dona. Procuro uma moça jovem, grávida, ferida. Levou dois tiros e
entrou neste bairro há duas horas.
---Uma moça assim chegou à minha porta há duas horas. Mas já não posso
mais ajudá-la.
---O quê?
---Morreu há quarenta minutos.
Margarita estreitou os olhos. Dona Carmen se afastou e a deixou entrar
com dois dos homens atrás; o terceiro ficou na porta. Guiou-a até o
último quarto.
Sobre o colchão havia um bebê, dormindo, envolto na toalha, com a
mancha grande de sangue ao redor. Margarita ficou parada na porta e
olhou tudo: o colchão, o sangue, a pinça com a bala ainda sobre o
pratinho, a faca do fogo, a garrafa de mescal vazia.
Valéria estava morta, ou foi o que ela pensou ao ver o corpo sem
sinais; caminhou devagar, passou um dedo pela bochecha do bebê, que
abriu os olhos por um instante, olhou fixo para ela e voltou a
fechá-los. Margarita ficou imóvel. Algo se moveu em seu rosto que ela
mesma não entendeu.
---É homem.
---Sim.
Margarita ficou olhando o bebê por um longo tempo. E então, sem que
ninguém dissesse nada, o rosto dela se acomodou, pegou o neto e
caminhou até a saída, mas antes de ir tirou um maço de notas e o
colocou na mão da senhora.
---Que ninguém saiba que o menino nasceu aqui. Que ninguém saiba que
essa mãe existiu. Se eu ouvir um boato, volto e enterro a senhora no
quintal. Entendeu?
---Sim, senhora.