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A FALSA SENHORA LINCOLN

A FALSA SENHORA LINCOLN

5.0
15 Capítulo
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Ela assinou por dinheiro. Ele a reivindicou por amor. A irmã dele estava disposta a destruir os dois. Valentina Morales precisa de trezentos e oitenta mil dólares para salvar a mãe. Camilo Lincoln precisa de uma esposa antes do seu aniversário, ou seu pai escolherá uma para ele. O acordo é simples: um contrato, uma data de validade, quartos separados e nenhuma pergunta. Ninguém disse que eles acabariam se apaixonando de verdade. Mas, na mansão Lincoln, os segredos não são guardados, são herdados. E a pessoa mais perigosa daquela família não é o pai autoritário, nem a rival que a despreza: é a irmã de Camilo, uma mulher que passou a vida inteira amando o próprio irmão de uma forma que ninguém ousa nomear. Quando o contrato deixa de ser uma mentira e o amor se torna real, Camila Lincoln está disposta a incendiar tudo antes de dividir o irmão com qualquer outra mulher. E o que Valentina está prestes a descobrir sobre essa família não é apenas um escândalo da alta sociedade. É um segredo que mudará para sempre quem cada um deles realmente é. Um romance de amor proibido, traição familiar e uma pergunta que nenhuma esposa comprada deveria fazer: e se o contrato for a única coisa falsa em toda essa história?

Índice

A FALSA SENHORA LINCOLN Capítulo 1 POV CAMILA.

Camila Lincoln passava já dez minutos a mexer a salada com o garfo sem levar um único bocado à boca. Do outro lado da mesa, a mãe observava-a com aquela quietude calculada que sempre precedia os interrogatórios.

A esplanada do restaurante dava para o porto de Boston. Um local escolhido por Margaret Lincoln não pela vista, mas porque as mesas estavam suficientemente afastadas para que ninguém ouvisse o que uma família como a dela precisava de dizer em voz baixa.

- Camila, querida. Não me faças perder tempo.

Não era uma pergunta. Margaret Lincoln não fazia perguntas. Ela ordenava com a elegância de quem há quarenta anos dirige uma dinastia nas sombras.

-Não sei do que estás a falar, mãe.

-Estou a falar do teu irmão. Das três modelos diferentes que o fotografaram este mês. Da capa da Boston Magazine que o teu pai teve de mandar retirar. Estou a falar da vergonha, Camila.

Camila pousou o garfo no prato. A mensagem que tinha recebido naquela manhã ardia-lhe no bolso como uma brasa: «Os velhos estão insuportáveis. Temos de nos encontrar. Urgentemente.» Tinha-a lido seis vezes. Tinha-a apagado. Tinha-a relido no cesto dos papéis antes de a eliminar definitivamente.

Era assim que funcionavam. Mensagens que se autodestruíam. Encontros em locais sem câmaras. Anos de prática na arte de não deixar rasto.

-E o que esperas que eu faça? -respondeu Camila, controlando cada músculo do rosto.

-Que o faças entrar em razão. És a única pessoa a quem ele dá ouvidos.

*Porque sou a única pessoa que o conhece de verdade. Porque partilhamos algo que tu nunca compreenderias, mãe. Nem tu nem ninguém.*

Camila tomou um gole de água para afogar o pensamento.

- O Camilo é um adulto. Não posso obrigá-lo a mudar.

-Não te estou a pedir que o obrigues. Estou apenas a informar-te do que vai acontecer. -Margaret limpou os lábios com o guardanapo, num gesto cirúrgico-. O teu pai tomou uma decisão. Se o Camilo não apresentar uma noiva antes do seu aniversário, ele próprio vai arranjar o casamento.

O ar saiu dos pulmões de Camila como se alguém lhe tivesse dado um soco no peito.

-Casamento arranjado? Em que século é que o pai vive?

-No século em que os Lincoln têm um apelido a proteger e um império a herdar. Isabella Cortés. Conheces-a.

Conhecia-a. Demasiado bem. A Isabella, com o seu sorriso impecável e os seus olhos famintos sempre que olhava para o Camilo. A Isabella, que há anos orbitava à volta da família como um satélite paciente, à espera da sua oportunidade.

-A Isabella está apaixonada por ele desde os quinze anos, mãe. Isso não é um casamento, é uma obsessão.

-É uma aliança. Os Cortés têm o que precisamos no setor farmacêutico e nós temos o que eles precisam no setor imobiliário. O amor é um luxo que nós, os Lincoln, não nos podemos permitir.

*Se soubesses o quanto tens razão, mãe.*

-Há quanto tempo é que ele tem isso?

-Dois meses.

O telemóvel da Camila vibrou. O ecrã mostrava o nome do Richard com uma foto de família: ele, ela, os filhos. A imagem perfeita de uma vida perfeita.

-Desculpa. -Deslizou o dedo-. Estou?

-Camila, onde estás? O Mateo já há uma hora que anda a perguntar por ti. Prometeste-lhe ir ao parque depois da escola.

A voz de Richard não parecia preocupada. Parecia fria. Contida. A voz de um homem que está a reunir provas.

-Estou com a minha mãe. Chego daqui a vinte minutos.

-Disseste o mesmo há uma hora.

-Richard, por favor...

-A Sophie está com febre. Trinta e oito e meio. Mas suponho que isso também possa esperar, não é?

A repreensão cortou-a como uma lâmina. Não pela culpa - Camila tinha aprendido a conviver com a culpa como quem convive com uma doença crónica -, mas pelo que se escondia por baixo: a suspeita.

-Vou para aí. Agora mesmo.

Desligou sem esperar resposta. A Margaret observava-a com uma sobrancelha levantada.

-Problemas com o Richard?

- Nada que eu não consiga resolver.

-É melhor que sim. Um escândalo conjugal é a última coisa de que precisamos agora. -Margaret pousou o guardanapo sobre a mesa com a delicadeza de quem profere uma sentença-. Na sexta-feira há um jantar na mansão. A Isabella estará presente. Quero que venhas com o Richard e os miúdos. Quero que o Camilo veja que isto é a sério.

- Mãe...

-Não é um convite, querida. É uma ordem.

***

Camila conduziu até casa com as mãos agarradas ao volante e o coração a bater-lhe nas costelas.

Dois meses. Sessenta dias para encontrar uma solução antes que Isabella Cortés se instalasse na vida de Camilo como uma carraça elegante. Sessenta dias antes que outra mulher dormisse na sua cama, tocasse na sua pele, reivindicasse o seu apelido.

*Ninguém me vai tirar isto. Ninguém.*

O pensamento assustou-a pela sua ferocidade. Não era o pensamento de uma irmã preocupada. Era o pensamento de uma mulher territorial, possessiva, disposta a arrasar com tudo o que ameaçasse o que lhe pertencia.

Mas Camila já há anos que não conseguia distinguir onde terminava a irmã e onde começava a amante. As duas tinham-se fundido algures na sua adolescência, numa noite que mudou tudo, e já não havia forma de as separar.

O telemóvel dela vibrou. Uma mensagem de um número não registado - o protocolo que usavam quando a paranóia se intensificava -:

*«Como correu?»*

Camila respondeu sem tirar os olhos da estrada, os dedos a moverem-se por memória:

*«Mal. Isabella Cortés. Dois meses. Precisamos de falar.»*

*«Merda. Quando?»*

*«Hoje não posso. O Richard está difícil. A Sophie está com febre.»*

*«Amanhã?»*

*«Amanhã. No sítio de sempre. Mas tenho uma ideia, Camilo. É arriscada.»*

*«Tudo o que fazemos é arriscado.»*

A Camila apagou a conversa, esvaziou a lixeira e guardou o telemóvel na mala.

Quando chegou a casa, o Mateo esperava-a à porta, de braços cruzados e com a expressão magoada de uma criança que aprendeu que as promessas da mãe têm data de validade.

-Disseste que me levavas ao parque.

-Eu sei, meu amor. Desculpa-me imenso. Amanhã levo-te, prometo.

-Dizes sempre «amanhã».

Richard apareceu atrás do menino. Não disse nada. Não era preciso. O seu silêncio era mais eloquente do que qualquer reprovação, e Camila soube, com a certeza gelada de quem reconhece uma ameaça, que o seu marido estava a deixar de ser o homem complacente que ela tinha aprendido a controlar.

-Como está a Sophie? -perguntou ela, desviando o olhar de Richard.

-Dei-lhe ibuprofeno. Está a dormir.

-Vou ver como ela está.

-Camila. -A voz de Richard deteve-a a meio da escadaria. Baixa. Grave. Sem a suavidade habitual.- Depois de os miúdos adormecerem, tu e eu vamos conversar.

Não era um pedido.

Camila subiu as escadas sentindo o peso de todas as suas mentiras sobre os ombros. No quarto da Sophie, a sua filha dormia com as bochechas coradas pela febre. Tocou-lhe na testa com uma ternura que lhe causou dor, porque era genuína, porque amava aquela menina com uma ferocidade limpa e pura que nada se assemelhava ao amor doentio que sentia pelo seu irmão.

*Que tipo de mãe és tu, Camila?*

Ficou a olhar para a filha na penumbra, a ouvir a sua respiração ritmada, e por um instante - um único, breve como um relâmpago - considerou a possibilidade de largar tudo. Confessar tudo ao Richard. Afastar-se do Camilo. Ser a mãe e a esposa que a sua família merecia.

Mas o pensamento extinguiu-se antes de se concretizar, sufocado por algo mais forte do que a razão, mais forte do que a moral, mais forte do que o amor maternal.

Porque Camilo era a sua outra metade. O seu gémeo. O seu reflexo. E pedir-lhe que desistisse dele era como pedir-lhe que arrancasse um órgão vital com as próprias mãos.

Desceu as escadas.

Richard esperava-a na sala, sentado na poltrona com um copo de uísque que ainda não tinha provado. Um mau presságio. Richard não bebia uísque a menos que estivesse furioso.

- Senta-te - disse ele.

Camila sentou-se à sua frente, cruzando as pernas com a elegância ensaiada de quem sabe que está a ser avaliada.

-Sobre o que queres falar?

-Sobre nós. Sobre este casamento. Sobre o teu irmão. -Richard girou o copo entre os dedos sem beber-. Hoje liguei para o teu escritório, Camila. O Raúl disse-me que saíste às onze da manhã e não voltaste.

O estômago de Camila deu um nó.

-Fui diretamente almoçar com a minha mãe.

-O almoço foi à uma. Onde estiveste nas duas horas entretanto?

Silêncio. Um silêncio que durou três segundos e que, para Camila, foi uma eternidade.

-Passei por uma loja. Queria comprar uma coisa para a Sophie.

-E onde está o que lhe compraste?

Richard olhava para ela sem pestanejar. Sem raiva. Sem dor. Com algo pior: lucidez.

-Não encontrei nada de que gostasse.

Richard acenou com a cabeça lentamente. Bebeu um gole de uísque. E quando falou, a sua voz estava tão calma que lhe gelou o sangue:

-Não me estás a mentir, Camila. Estás a subestimar-me. E isso é muito pior.

Levantou-se, pousou o copo sobre a mesa e subiu as escadas sem olhar para ela.

Camila ficou sozinha na sala, com o coração a bater aceleradamente e uma única certeza: o tempo estava a esgotar-se. Para o plano com o Camilo. Para o seu casamento. Para a mentira que sustentava todo o seu mundo.

E, pela primeira vez em anos, não fazia ideia de como controlar tudo.

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