A música elegante ecoava pelo salão, embalando um mar de champanhe, vestidos de grife, discursos vazios e pura hipocrisia. Da varanda, segurando uma taça, Cecília observava tudo. O vestido preto abraçava suas curvas com perfeição e o cabelo loiro caía solto sobre os ombros bronzeados. Para quem olhasse de fora, ela parecia apenas calma. Mas estava trabalhando. Como sempre. Escondido dentro da bolsa havia um gravador; no bolso interno do vestido, um pendrive; e no celular, fotos suficientes para destruir pelo menos três carreiras políticas.
- Procurando alguma coisa interessante? - A voz masculina surgiu atrás dela.
Era seu noivo. O sorriso de Cecília apareceu automaticamente, a mesma máscara simpática e ensaiada que costumava reservar para as câmeras.
- Apenas observando.
- Você deveria sorrir mais.
Ela virou-se lentamente para encará-lo. - E você deveria parar de me dizer o que fazer.
Por um instante, algo sombrio atravessou os olhos dele, desaparecendo tão rápido quanto surgiu. Adrian aproximou-se. Ele era inegavelmente bonito, o rosto perfeito para os fotógrafos, mas assumia uma aura assustadora quando estavam sozinhos.
- Estamos sendo observados - ele murmurou.
- Então sorria você.
A mandíbula do senador travou. Cecília adorava provocá-lo, mas o jogo perdeu a graça quando Adrian segurou seu braço com força excessiva.
- Você esquece quem eu sou.
- Não - ela rebateu, puxando o braço de volta com firmeza. - Eu me lembro exatamente.
Adrian sorriu novamente, mas seus olhos permaneceram frios como gelo. - Tenha cuidado, Cecília.
Ela o observou se afastar, um calafrio incômodo percorrendo sua espinha. Algo estava errado. Muito errado. E seu instinto investigativo raramente falhava.
De repente, o celular vibrou em sua bolsa. Era uma mensagem anônima contendo apenas uma localização: uma sala no quarto andar. O coração de Cecília acelerou. Era aquilo. A reunião clandestina que ela tentava rastrear havia semanas. Respirando fundo para disfarçar a ansiedade, atravessou o salão sem chamar atenção e escapou pelas escadas de serviço. O quarto andar era dominado por corredores vazios, portas fechadas e um silêncio opressivo.
Uma das portas estava entreaberta. Cecília aproximou-se sorrateiramente, captando vozes de homens discutindo lá dentro, e ligou seu gravador.
- A transferência será feita amanhã.
- Moretti não vai interferir.
Ouvir aquele nome fez um arrepio percorrer sua nuca. Moretti era o rei não oficial da cidade, o homem que dominava metade do submundo e o criminoso intocável que ela perseguia incansavelmente há anos. Ela nunca o tinha encontrado pessoalmente, mas sabia exatamente quem ele era. Ou, pelo menos, acreditava saber.
Ela se encostou mais na parede, aguçando a audição.
- O governador jamais descobrirá - um deles garantiu.
- E a filha dele?
- Não importa.
Cecília congelou. A filha dele. Estavam falando dela. O pânico ameaçou dominá-la quando o som de passos ressoou pelo corredor, vindo em sua direção. Ela tentou recuar rapidamente, mas era tarde demais. A porta se abriu de supetão e um dos capangas a encarou, arregalando os olhos.
- Quem diabos é você?
Sem pensar duas vezes, ela correu. O corredor explodiu em gritos e o som pesado de passos a perseguiu. Eram homens, muitos deles. Cecília disparou escada abaixo, praguejando mentalmente contra os saltos altos que dificultavam sua fuga.
- Peguem-na! - alguém rugiu.
Com o coração martelando nos ouvidos, ela desceu do terceiro para o segundo andar, até finalmente alcançar o primeiro. Empurrou uma porta lateral com força e viu-se novamente no meio do salão principal. Instintivamente, seus perseguidores recuaram, misturando-se entre os convidados; eram espertos o suficiente para não causar uma cena pública. Ela também precisava agir naturalmente. Continuou andando, forçando a respiração a se estabilizar, tentando parecer apenas mais uma socialite caminhando pelo evento.
Foi então que o inferno começou.
Um estampido seco rasgou a música. Depois outro, e mais outro. Tiros. Em segundos, o salão de gala mergulhou no caos absoluto. Taças e vidraças explodiram, mulheres gritaram em desespero, homens correram às cegas e os seguranças sacaram suas armas. Dominada pelo pânico coletivo, Cecília jogou-se atrás de uma mesa tombada. Mais tiros ecoaram no exato momento em que um gigantesco lustre de cristal despencou do teto, fazendo o chão de mármore tremer sob o impacto. No meio da multidão que corria em todas as direções, ela arriscou erguer a cabeça e viu: havia um atirador posicionado na sacada oposta. E ele não mirava a esmo. A arma estava apontada diretamente para o seu pai, o governador.
Ela fez menção de correr na direção dele, mas, de repente, alguém agarrou sua cintura. Uma mão poderosa, firme e implacável a puxou com violência para trás de uma coluna grossa, uma fração de segundo antes que um disparo atravessasse o espaço exato onde ela estava. O mármore da pilastra explodiu, e pequenos fragmentos de pedra arranharam seu rosto.
Cecília arfou, atordoada, e olhou para cima. Diretamente para o rosto do homem que acabara de salvar sua vida.
O mundo ao redor pareceu desacelerar. Ele tinha olhos cinzentos e tempestuosos, vestia um terno preto impecável e exalava uma presença tão perigosa quanto assustadoramente magnética. Cecília sentiu algo estranho e quase impossível tomar conta de si. Era como se já tivesse visto aquele rosto de mandíbula forte antes, como se o conhecesse intimamente, despertando uma parte esquecida de sua própria alma de repente.
O homem também pareceu congelar. Ele a observava com uma intensidade crua, parecendo reconhecê-la, como se estivesse de frente para um fantasma.
- Você está ferida? - A voz dele soou grave e controlada, mas carregava uma emoção contida nas entrelinhas.
Ainda em choque, Cecília balançou a cabeça negativamente.
- Quem é você?
Os olhos cinzentos escureceram. Por apenas um segundo, ela viu dor, raiva e um alívio inexplicável brilharem ali, tudo misturado numa tempestade silenciosa. Quando ele finalmente disse seu nome, a revelação a atingiu como um soco no estômago, roubando-lhe todo o ar.
Lucien Moretti.
O mafioso. O criminoso. O homem que preenchia metade do quadro de suas investigações.
Mas não era o choque da identidade dele que a deixava sem fôlego; era a sensação absurda e instintiva de que aquele nome significava muito, muito mais para ela.
Outro tiro ecoou perto demais. Sem hesitar, Lucien a puxou novamente, protegendo-a com o próprio corpo contra a pilastra. O gesto foi tão automático que pareceu um reflexo enraizado, como se ele tivesse feito aquilo centenas de vezes. Como se protegê-la fosse a coisa mais natural do universo.
Quando seus olhares se cruzaram em meio àquela loucura, Cecília sentiu um medo paralisante pela primeira vez em muitos anos. E não era do atentado, nem dos assassinos, nem do caos que engolia o salão. O medo vinha do fato de que algo profundo dentro dela sussurrava uma verdade impossível: ela o conhecia. De algum lugar. De alguma outra vida. De alguma lembrança meticulosamente enterrada.
Para confortá-la, Lucien passou o polegar discretamente sobre a mão trêmula da jornalista, e o toque causou um curto-circuito em sua mente. Um flash vívido a atravessou: um lago de águas calmas. Uma tarde ensolarada. Um garoto. Um sorriso. Uma promessa.
E então, a imagem desapareceu tão rápido quanto surgiu.
- Quem é você de verdade? - ela sussurrou.
Lucien ficou imóvel. Os olhos dele percorreram o rosto dela com uma devoção dolorosa, como se procurassem algo precioso e perdido há incontáveis anos.
- Essa é exatamente a pergunta que eu queria fazer para você - ele respondeu.
E naquele instante, sob o som de tiros e gritos, sem que nenhum dos dois soubesse, uma guerra começou. Uma guerra com o poder de derrubar governos, destruir impérios e incendiar o próprio inferno.