Sentou-se em um banco próximo à praça de alimentação e ficou aguardando.
Cinco minutos.
Dez minutos.
Trinta minutos.
Uma hora.
O movimento do shopping foi diminuindo, e a inquietação começou a crescer dentro dela.
Safira começou a balançar a perna nervosamente.
Pegou o celular e verificou as mensagens.
Nada.
Tentou convencer a si mesma de que estava exagerando.
Talvez a mãe tivesse ido resolver alguma coisa.
Talvez Pedro estivesse demorando para voltar.
Mas um aperto estranho crescia em seu peito.
- Mãe? - murmurou, olhando em volta.
Nada.
Seu coração acelerou.
Pegou o celular dentro da bolsa para ligar, mas percebeu algo estranho.
Além de seus documentos, havia uma carta dobrada e um envelope com dinheiro.
As mãos começaram a tremer.
Ela abriu a carta.
"Safira, tente se virar. Você nunca mais nos verá novamente. Não tente voltar para casa, pois ela já foi vendida. Não quero nada que me lembre essa cidade e nem você."
Os olhos de Safira se arregalaram.
As palavras embaralharam diante das lágrimas.
Ela continuou lendo, mesmo sem querer.
"Nunca consegui gostar muito de você. Sempre senti que Pedro não me dava atenção por sua causa. Não podia sair, me arrumar ou viver minha vida porque você era um peso em nosso caminho."
Safira levou a mão à boca para conter o soluço.
Seu peito apertou com tanta força que parecia impossível respirar.
Não.
Aquilo não podia ser real.
"Agora tudo mudou. Ganhei na loteria e vou viver a vida que mereço ao lado de Pedro. Ele me pediu perdão, disse que se arrependeu e me pediu em casamento. Finalmente seremos felizes. Adeus."
Dentro do envelope, havia três mil reais.
Três mil.
Aparentemente, aquele era o valor dado para encerrar sua existência na vida da própria família.
Safira caiu no chão em lágrimas.
O choro era desesperado, sufocante, doloroso.
Como alguém abandona a própria filha?
Como uma mãe consegue escrever aquelas palavras?
Ela não entendia.
Não conseguia respirar direito.
As pessoas passavam olhando, algumas com pena, outras fingindo não ver.
Horas se passaram.
Exausta de tanto chorar, Safira acabou adormecendo sentada no banco.
Só acordou ao sentir alguém tocando seu ombro.
- Menina, acorda.
Era um segurança.
- O shopping vai fechar. Você precisa sair.
Safira piscou várias vezes, desnorteada.
Por alguns segundos, quase acreditou que tudo havia sido um pesadelo.
Mas a carta ainda estava ali.
O dinheiro também.
E o vazio em seu peito parecia ainda maior.
- Senhor... por favor - sua voz saiu trêmula. - Posso fazer uma ligação?
O homem hesitou, mas entregou o celular.
Safira discou o número da mãe.
Chamou.
Nada.
Ligou novamente.
Dessa vez, atenderam.
- Alô? Quem ousa ligar a essa hora? - a voz irritada soou do outro lado.
Safira sentiu um fio de esperança.
- Mãe! Por favor, não desliga! Por que me deixou aqui? Estou sozinha... eu tô com medo. Pede para Pedro vir me buscar, por favor!
Do outro lado, ouviu-se uma risada.
Uma risada fria.
Cruel.
- Você ainda não entendeu? - a mãe respondeu. - Eu cansei de te aturar. Foram quinze anos criando você. Agora estou milionária e finalmente vou viver minha vida.
Safira sentiu o mundo girar.
- Mãe...
- Não me chama assim. Você atrapalhou meu relacionamento por anos. Eu não podia sair, viajar ou aproveitar minha vida por sua culpa.
Cada palavra era uma facada.
- Pedro também queria isso - continuou ela. - Nós dois concordamos. Então aceite a realidade. Se vira.
- Por favor... - Safira sussurrou.
- Adeus, Safira. Me esqueça para sempre.
A ligação foi encerrada.
O telefone escorregou dos dedos dela e caiu no chão.
Era como se ainda esperasse ouvir a mãe voltar atrás.
Pedir desculpas.
Dizer que tudo não passava de uma brincadeira cruel.
Mas isso não aconteceu.
Seu peito doía tanto que parecia impossível continuar viva.
O segurança a encarou, claramente desconfortável.
- Você está bem?
Safira secou as lágrimas rapidamente.
- Estou - mentiu.
Devolveu o aparelho e saiu.
Do lado de fora, a noite estava fria.
Ela abraçou a própria mochila e sentou em um banco de praça próximo.
Dormiu ali.
Sozinha.
Abandonada.
O frio parecia atravessar sua pele.
Cada som a fazia abrir os olhos assustada.
Passos.
Carros.
Vozes desconhecidas.
Pela primeira vez, Safira entendeu o que significava estar completamente sozinha no mundo.
Na manhã seguinte, acordou assustada com um homem mandando que saísse dali.
Pegou suas coisas e começou a andar sem rumo.
Os dias seguintes foram cruéis.
Safira gastou parte do dinheiro com comida barata, água e algumas noites em um quarto simples.
Mas o dinheiro diminuía rápido.
Muito rápido.
E junto com ele, sua esperança.
No terceiro dia, faminta e tonta, atravessou uma avenida sem olhar.
PIIIIIII!
Uma buzina alta ecoou.
Um carro preto de luxo freou bruscamente a centímetros dela.
Safira congelou.
A porta traseira se abriu lentamente.
Sapatos sociais impecáveis tocaram o asfalto.
Ela ergueu os olhos.
Um homem alto saiu do veículo.
Elegante. Frio. Impecável.
Seu relógio brilhava discretamente no pulso, e o olhar intenso parecia examiná-la como se já a conhecesse.
- Interessante... - ele murmurou.
Safira franziu a testa.
- O quê?
O homem inclinou levemente a cabeça.
- Então finalmente te encontrei.
O coração dela disparou.
- Eu nem conheço você.
Um sorriso discreto surgiu nos lábios dele.
Misterioso.
Perigoso.
- Meu nome é Matteo Castellani - disse calmamente. - E você vai entrar nesse carro comigo.
Safira deu um passo para trás.
- O quê?
Os olhos escuros dele não desviaram dos dela.
- Porque sua vida está prestes a mudar completamente.