Me levanto e sinto o chão frio sob os pés. O apartamento é pequeno: quarto, sala com cozinha e um banheiro apertado, mas tudo está exatamente onde deveria estar. Organizado, bem limpo. Sob controle. E tudo era meu.
Eu precisava disso, ter controle sobre minha vida.
Caminho até o espelho preso na parede e paro na frente dele. Meu reflexo me encara de volta: cabelos castanhos, pele clara, expressão neutra. Quase fria.
Quase? Não, fria o suficiente. Sempre fui assim, algumas pessoas até acham que sou exibida, metida, mas sou apenas fria mesmo, desde sempre.
- Primeiro dia - murmuro, mais para fixar do que para comemorar.
Abro o guarda-roupa e não penso muito antes de escolher. Roupas escuras, sempre. Calça preta, blusa de gola alta, casaco estruturado. Nada chamativo. Nada que chame atenção desnecessária.
Enquanto me visto, minha cabeça já está funcionando. Faculdade pela manhã. Trabalho na loja de roupas, à tarde. Revisar contas à noite. Tudo encaixado.
Na cozinha, preparo o meu café. O cheiro preenche o apartamento e, por alguns segundos, o silêncio deixa de parecer vazio.
É... confortável.
Ou o mais próximo disso que eu conheço. Encosto na bancada com a xícara quente entre os dedos e, sem aviso, a lembrança vem. Eu tinha dez anos quando tudo aconteceu.
Vozes baixas. Adultos falando como se eu não estivesse ali, o peso no ar, aquele tipo de silêncio que diz mais do que qualquer palavra.
"Você vai ficar com seus tios agora."
Simples assim. Sem abraço. Sem explicação. Sem alguém perguntando se eu estava bem com aquela informação que só foi jogada no meu colo. E eu não estava. Mas isso nunca foi uma pergunta.
Pisco, forçando a lembrança a desaparecer.
Meus tios não foram ruins comigo. Fui acolhida na casa deles, fui para a escola, obedeci suas regras. Me ensinaram a ser... funcional. Ensinaram o que estava dentro das possibilidades, mas o carinho e o amor, dentro de mim é incompleto, como se eu não precisasse desse. Eles nunca me deram amor, então, nem sabia explicar nem o que era isso, na verdade.
E talvez tenha sido ali que eu aprendi a lição mais importante da minha vida: não depender de ninguém para nada nessa vida.
Aos dezoito, tomei a decisão de ir embora, mesmo que ficasse sozinha. E não olhei para trás. Consegui alugar este apartamento, mesmo que seja pequeno, é meu lar. E me sinto bem aqui.
Termino o café, lavo a xícara imediatamente, não gosto de coisas acumuladas, e pego minha bolsa para sair.
Mas antes, paro por um segundo e olho ao redor. Esse lugar... é meu, e isso ninguém tira de mim. Cada canto, cada móvel. Cada conta paga.
Eu consegui isso. Sozinha. Começando de baixo e isso, é o que importa.
Saio para a rua e o frio de Londres bate no meu rosto. Hackney já está acordando, gente apressada, cafés abrindo, bicicletas passando. É caótico, vivo, imperfeito. Talvez por isso funcione pra mim.
Começo a andar em direção ao ponto de ônibus. Hoje não é um dia comum, e eu não posso errar. Já vinha me preparando muito para esse dia e falhar, não estava nas opções, meu primeiro dia na faculdade tinha que ser perfeito.
O ônibus segue cheio, mas silencioso o suficiente. Eu sento perto da janela e observo a cidade passando. Grafites, vitrines, pessoas... cada uma vivendo sua própria história, sem se importar com a dos outros. Eu gosto disso.
Ninguém presta atenção, nem pergunta nada.
Quando o ônibus entra nas áreas mais centrais, o movimento aumenta. Londres nunca desacelera e, de alguma forma, isso combina comigo.
Parar e estagnar nunca foi uma opção.
Desço perto da universidade e, por um instante, meus passos desaceleram.
Eu olho para o prédio à minha frente. Grande e imponente. Cheio de gente que parece pertencer àquele lugar. Eu não pareço, mas estou aqui, pela necessidade, mas também pelo futuro que eu quero construir.
"Eu fiz isso."
O pensamento vem firme, sem hesitação. Eu fiz isso, e sem ajuda emocional. Sem alguém segurando minha mão para me apoiar, sem ninguém me garantindo que daria certo. Só eu.
Endireito os ombros automaticamente e começo a andar. Minha expressão volta ao lugar de sempre: controlada, fechada, segura. É assim que eu preciso ser.
Por dentro, não importa.
Entro no campus e sinto alguns olhares, rápidos, curiosos. Ignoro todos. Não estou aqui para fazer amigos. Não preciso disso.
A aula começa e eu me concentro imediatamente. Anoto tudo, cada detalhe. Administração não é só um curso pra mim. É independência. É garantia.
É a certeza de que eu nunca mais vou precisar de ninguém.
Quando a aula termina, eu não fico. Não converso. Não hesito.
Guardo minhas coisas e saio. Próxima parada: trabalho.
Shoreditch me recebe com seu caos organizado, ruas cheias, arte em todo lugar, gente estilosa, cafés lotados. É diferente de Hackney, mas ainda assim, combina com a vida que eu escolhi. Entro na loja e o ambiente familiar me acalma. Cheiro de roupa nova, música baixa, tudo no lugar.
Aqui eu sei o que fazer.
- Chegou cedo - diz uma colega, sorrindo.
- Primeiro dia na faculdade - respondo.
- E você veio trabalhar mesmo assim?
Eu dou de ombros.
- As contas não esperam.
E não esperam mesmo.
Começo a organizar algumas peças, alinhando tudo com cuidado. Movimento após movimento, tudo sob controle.
E então vem aquilo de novo.
Aquela sensação.
Sutil, incômoda, orgulho. Eu estou fazendo dar certo. Sozinha, mas junto com isso, existe outra coisa. Um vazio. Pequeno e silencioso, mas sempre ali.
Eu ignoro, como sempre.
Porque eu sei o que acontece quando você começa a precisar de alguém.
Eu sei o preço disso. E eu não vou pagar de novo.
Mesmo que, no fundo, eu já esteja mais perto disso do que deveria.