Olhei para o relógio, que marcava duas da madrugada. Eu sabia muito bem que não devia sair, nem ir atrás do meu pai, mas não conseguia evitar. Peguei minha bolsa e, enquanto o medo percorria meu corpo, agarrei minha arma de choque - eu precisava ter certeza de que ele estava bem. Era a minha única família, a única que me restava. Puxei o ar. A noite fria e o silêncio da rua deveriam ser o suficiente para que eu recuasse, obedecendo ao meu bom senso. Mas eu também sabia que estava nos domínios de Dante e que algo - talvez a única coisa boa de estar tão perto dele - era que ele protegia a todos em seu território de todos, exceto dele mesmo. E esse era o meu medo: meu pai não estava protegido. O vício em jogo e em bebida tinha-o feito perder todo o bom senso que um dia teve (ou tinha tido), e Dante não perdoava os devedores. Era a regra - uma de muitas às quais tínhamos que obedecer se quiséssemos sua proteção.
Caminhei pelas ruas escuras, escutando apenas os barulhos da noite. Minha mãe dizia que nossa cidade dormia de dia e despertava à noite. Em parte, era verdade: o mal preferia a noite, e em nossa cidade o mal era o dono de tudo.
O neon vermelho da fachada piscava contra a noite, o letreiro "Eclipse" tremulando como se pudesse apagar a qualquer momento. Todos na cidade sabiam o que acontecia ali dentro, embora ninguém ousasse falar alto: uma boate na frente, um antro de jogatina clandestina nos fundos. Meu pai havia desaparecido novamente, e o silêncio opressivo em nossa casa gritava que ele estava ali, afundando ainda mais no abismo que cavava havia anos. Eu precisava encontrá-lo antes que fosse tarde demais.
Passei pela segurança com um aceno rápido, o coração acelerado, o som da música eletrônica martelando em meus ouvidos. O ar carregava um misto de perfume barato, fumaça de cigarro e um odor azedo que eu preferia ignorar. Atravessei a pista lotada, desviando de olhares curiosos, até alcançar uma cortina preta no fundo. Um homem corpulento me encarou, mas murmurei algo sobre "entregar um recado" e ele me deixou passar.
O corredor estreito levava a uma sala nos fundos, onde o encontrei. A luz era fraca, uma lâmpada solitária projetando sombras tortas sobre mesas de carteado abandonadas. Meu pai estava de pé, encostado na parede, o suor escorrendo pela testa e manchando a camisa amassada. Ele não me viu - estava ocupado demais implorando ao homem sentado à mesa: Dante Moretti.
Congelei na porta, parcialmente oculta pela cortina, o sangue gelando nas veias. Todos conheciam o nome dele: o chefe da máfia, o dono das sombras daquela cidade. Ele estava recostado na cadeira, o terno preto impecável, um copo de uísque na mão. Seus olhos escuros brilhavam sob a luz, frios e afiados como lâminas, e uma cicatriz profunda cortava seu rosto, da sobrancelha ao canto da mandíbula, conferindo-lhe um ar ainda mais intimidante.
- Eu não tenho o dinheiro agora, Dante - disse meu pai, a voz trêmula, quase engolida pelo silêncio pesado. - Mas... eu posso te oferecer algo melhor. Algo que vale mais.
Prendi a respiração, um pressentimento amargo subindo pelo peito. Antes que eu pudesse compreender, ele gesticulou para o vazio, como se eu estivesse ao seu lado.
- Minha filha. Ela é jovem, bonita... pode trabalhar para você, fazer o que quiser. Só me dê mais tempo para pagar.
O chão pareceu sumir sob meus pés. Minha mão voou à boca, abafando o grito que quase escapou. Ele estava me oferecendo? Me trocando como se eu fosse uma ficha de pôquer? Meu estômago revirou, e quis correr até ele, gritar, mas minhas pernas se recusaram a obedecer.
Dante se inclinou para a frente, pousando o copo na mesa com um clique seco. Por um instante, pensei que ele fosse rir, mas sua voz saiu grave, carregada de desprezo.
- Não. Eu não negocio com carne. Se você não tem meu dinheiro, Almeida, arrume um jeito de consegui-lo. Eu te mataria agora por essa proposta, se sua dívida não fosse tão grande.
Eu deveria ter sentido alívio com sua recusa, mas a traição do meu pai me sufocava. Ele não via valor em mim, oferecendo-me como se eu fosse nada. E aquele homem - aquele monstro arrogante com uma cicatriz que parecia gritar sua brutalidade - recusava a oferta como se fosse um favor, como se sua palavra fosse lei. Ele não era melhor que meu pai. Era pior. Um predador que se colocava acima dos outros, manipulando vidas como se fossem cartas na mesa. A repulsa queimou em meu peito, quente e amarga.
- Levante-se - ordenou Dante, acendendo um charuto como se nada tivesse acontecido. - E não me faça repetir.
Meu pai cambaleou, obedecendo como um cão assustado, mas então Dante se aproximou. Com um movimento rápido, desferiu um soco no rosto do meu pai, que desabou no chão, desacordado. Puxei o ar com força, o choque me arrancando do transe, e entrei na sala sem pensar.
- Chega! Vou levar meu pai embora! - Minha voz saiu firme, apesar do tremor nas mãos. Dante virou-se para me encarar, e senti o peso de seu olhar como uma corrente. Ele segurava meu braço com firmeza. A cicatriz em seu rosto parecia ainda mais cruel de perto, e notei que sua mão apertou meu braço com mais força quando percebeu que eu o encarava
- Como ousa? - rosnou ele. Seus olhos negros ardiam como brasas, e por pouco não recuei. Um dos homens dele, um sujeito corpulento, aproximou-se rapidamente.
- É a filha dele, Dante. Deixe-a levá-lo. Já demos o recado.
Dante me encarou por mais alguns segundos, o aperto em meu braço afrouxando lentamente.
- Sorte sua que estou de bom humor hoje - disse ele, a voz cortante. - Leve esse verme daqui. E, se ouviu o que ele propôs, saiba que ele não merece seus cuidados. Você estaria mais segura sem ele.
Ele me soltou e voltou para a mesa, como se eu não existisse mais. Um dos capangas se aproximou, ajudando a arrastar meu pai, que gemia baixo, ainda meio desacordado. Não olhei para trás, mas senti os olhos de Dante cravados em mim enquanto saía, carregando o peso do meu pai e a raiva que agora me consumia.