Até passou pela minha cabeça a ideia de estourar o celular na parede. Felizmente, lembrei que escolhi aquele alarme de propósito: de tão irritante, era capaz de me arrancar dos pesadelos com meu ex, Jonas. Apesar da irritação, era melhor do que acordar com os gritos dele. Ou com o silêncio de quando ele me trancava no quarto, por vários dias. Mutei o aparelho e encarei o teto decorado com adesivos fotoluminescentes, em formato de estrelas. Durante o dia, absorviam a luz e, à noite, brilhavam. Na manhã seguinte, voltavam a desaparecer na cor branca do gesso.
"Por que só no escuro as estrelas conseguem brilhar?", filosofei brevemente, afinal, filosofar não pagaria minhas contas.
Com grande esforço, me sentei na cama. Às vezes, meu corpo parecia prestes a se partir, como se eu fosse uma boneca de porcelana jogada no lixo.
As paredes do quarto eram pintadas num tom azul-bebê. Também eram repletas de adesivos: foguetes e astronautas numa missão secreta. Havia ainda uma estante de livros infantis e bonecos de super-heróis: era o quarto de Noah, filho dela, que passava uma temporada com o pai, na Rússia. Em breve, ele voltaria.
Havia alguns meses que eu morava no apartamento de Camila, desde que fugi de Jonas e ele foi preso. Ela, a amiga da faculdade com aquela vibe de mãezona, me acolheu sem fazer muitas perguntas. E eu precisava me mudar antes do pequeno Noah regressar. Não queria ser a amiga intrusa. Precisava trabalhar o dobro para levantar uma grana e vazar o quanto antes.
Ao sair do quarto, como nos desenhos animados, cheguei a ver o cheiro de torradas me puxando para a cozinha. E me deixei ser levada para encontrar Camila cantando uma música em inglês. Ela dançava enquanto esperava a cafeteira apitar.
- Acordou, Bela Adormecida? - brincou, sem olhar na minha direção. - Sonhou com príncipes ou com sapos?
- Com boletos atrasados. E, pra ser sincera, tô preferindo sapos falantes a príncipes.
Apenas riu em resposta. Mesmo em um moletom velho, com o cabelo preso de qualquer jeito e de pés descalços, parecia mais firme que o prédio antigo onde morávamos.
- Tem cliente hoje. Pediu diretamente por você.
- Diretamente? Como assim?
- Disse que ouviu falar das suas mãos milagrosas num meeting de empresárias. Está passando por problemas difíceis e acredita que uma massagem com... sensibilidade... poderia ajudar. E, antes que você pergunte: é mulher. Relaxa.
Como relaxar se, nos últimos dias, minha vontade era correr até sumir?
- Seria muita sacanagem você me pedir para massagear homens, depois do que passei, né? Não tô pronta. Nem sei se estarei um dia.
- Eu nunca faria isso. - Me fitou com um olhar maternal, sem deixar, no entanto, sua visão de empresária. - E, de certa forma, o spa é seu também. Você me ajudou a montar tudo. Se quiser atender só mulheres, ótimo. Se quiser ficar na recepção também. Só não se sabota no meio do caminho.
Permaneci observando o vapor do café, até que soltei:
- Eu não tô me sabotando. Tô só... testando o terreno. Passo a passo, não é isso que diz a música que você estava cantando?
- Além de testar o terreno, você está carregando um bote inflável, um GPS e um sinalizador. Gosto muito do sinalizador, inclusive. Fica mais fácil de eu te encontrar. O importante mesmo é que você tá indo. Seguiremos juntas e não vamos parar!
- Você acha que voltarei a ser uma profissional completa? Melhor dizendo, uma pessoa completa?
- Eu acho que você já está sendo, só não percebeu ainda.
Assenti, como se concordasse cem porcento. Embora fosse reconfortante ouvir aquelas palavras, eu me sentia bem longe de ser completa.
***
O verão em Verticália era pegajoso.
Embora se situasse no Distrito Central, a clínica ficava a poucas quadras de onde morávamos. Por isso, íamos a pé. Camila seguia à frente, com os passos de quem sabe o que quer da vida. Eu tentava aproveitar cada pedacinho de sombra pela calçada, torcendo para que suor não colasse a blusa nas minhas costas. A fachada da clínica era discreta: uma porta verde-clara com uma placa, onde se lia "Espaço Ombros Leves". Um nome para não atrair tarados nem afugentar donas de casa.
Por dentro, o ambiente era modesto. Duas poltronas de vime na recepção, almofadas floridas, um difusor em seu trabalho de aromatizar o ambiente. Além disso, quadros de anatomia misturados a ilustrações de flores, mãos entrelaçadas e frases de empoderamento.
Tudo ali era feminino e feminista.
Minha sala era a última do corredor. De paredes claras, uma maca no centro, uma estante com óleos e toalhas dobradas - tudo que eu precisava para trabalhar. Uma pequena janela com cortina de renda deixava a luz do dia entrar sem, no entanto, incomodar a vista. Com um pano úmido deslizando sobre o couro, comecei a limpar a maca em movimentos automáticos. Era o único momento do dia em que me sentia no controle - menos dos meus pensamentos, que pareciam presos ao passado.
A campainha tocou.
Pouco tempo depois, passos de salto alto ecoaram pelo corredor. Primeiro, uma leve batida; logo em seguida, a porta se abriu. A mulher, que surgiu à minha frente, trazia um bronze bonito na pele; seu cabelo caía pelos ombros em cachos volumosos; em seu corpo, um vestido de alças com estampas de rosas. Era bonita de um jeito que poderia ser uma modelo. Só que sua atitude não era de quem dominava as passarelas, mas de quem comandava tudo dos bastidores.
- Boa tarde - saudei, em tom profissional. - Eu sou a Isadora. Seja bem-vinda.
- Boa tarde, sou Amélia - seu olhar curioso analisava cada detalhe do ambiente.
- A massagem dura cerca de cinquenta minutos. Uso óleo aquecido e movimentos de relaxamento profundo. Se sentir qualquer desconforto, é só me avisar. O toalete fica ali. Você pode se despir e voltar de lingerie.
A cliente assentiu e seguiu na direção indicada. Respirei fundo, buscando me concentrar no zumbido do ventilador. Quando voltou - completamente nua -, deitou-se na maca com naturalidade. Cruzou os braços sob a cabeça, deixando os seios mais expostos. Sua pele bronzeada ficou ainda mais dourada sob a luz. Relaxada, de olhos fechados, como os de quem se prepara para dormir.
- Com final feliz, né? - pediu.
Não foi a primeira vez que recebi aquele pedido, nem seria a última. Ainda assim, cada vez era um pequeno terremoto. "Foco, Isadora", ordenei a mim mesma. "Até uns meses atrás, isso não seria um problema." A feição dela demonstrava que não estava brincando, nem provocando - só pedindo, com a certeza de que tinha o direito. Me apeguei ao valor da sessão: três vezes mais. Se todas as clientes sempre pedissem por isso, eu desocuparia o quarto do Noah em pouco tempo. Refleti sobre o que podia controlar - e no que estava muito além do meu controle.
- Vamos começar com a cervical - expliquei, passando uma boa quantidade de óleo nas mãos. - Depois, passamos para a lombar.
Um sorriso estampou seu rosto; seu corpo se entregou ao toque. Sua expressão emanava confiança e consentimento. "Será que um dia vou conseguir voltar a me entregar assim? A quem eu quero enganar? Eu sei que não", viajei em pensamentos. Ela abriu os olhos por um instante.
- Você tem mãos tão firmes. Boas para massagem, também ótimas para manusear armas.
Parei por um segundo, querendo entender o significado daquela frase. Depois, continuei o movimento - não era como se eu tivesse escolha. Mas, por dentro, algo se acendeu: um arrepio na espinha que pareceu um alerta. Aquela mulher não tinha ido ao spa só para contratar meus serviços - disso, eu tinha certeza. Só que, naquele dia, eu não tinha como adivinhar qual era seu verdadeiro motivo.
Hoje, sei bem: ela desejava conhecer a mulher que sobreviveu a Jonas Guerra.