Livros e Histórias de Mint
O Acerto de Contas Final
Hoje é meu aniversário, mas não há bolos nem festas. Só o eco frio de uma emboscada nas ruínas, o gosto de sangue na boca e a visão turva de Patrícia, minha prima, fugindo com o diário do meu pai e o mapa que me levariam à verdade. Com minhas últimas forças, liguei para minha mãe, Dona Clara, buscando uma última conexão. Sua voz, entretanto, cortou-me como um açoite: "O que você quer, Sofia? Estou ocupada comemorando com a Patrícia. Você não podia ter escolhido um dia pior para me perturbar?" A menção de Patrícia foi um golpe fatal, e quando tentei chamá-la de "Mãe", a resposta gelada veio: "Não me chame de mãe. Você sabe o que este dia significa. É o dia em que você tirou seu pai de mim com essa sua obsessão doentia. A Patrícia, sim, ela é uma filha de verdade, ela me dá alegria, não dor. Francamente, Sofia, eu só tenho um desejo para você neste seu aniversário." "Espero que você morra." E de fato, seu desejo se realizou. Agora, meu corpo jaz desfigurado em uma gaveta fria da morgue, e adivinhe quem é a perita chamada para investigar meu brutal assassinato? Ela mesma. Minha mãe, a mulher que me amaldiçoou, agora me examina como um objeto, cega para a verdade bem à sua frente. Quão irônico é o destino, não é mesmo? Minha própria mãe, a única que pode desvendar meu assassinato, é a que menos deseja me ver. Mas desta vez, a verdade não pode ser evitada.
A Sobrevivente e o Jogo Fatal
A música alta da festa abafava o zumbido nos meus ouvidos, mas ele persistia, uma lembrança constante do acidente. Todos na festa da empresa se viraram quando entrei, o choque evidente em seus rostos; Joana, a sócia dada como morta, estava de pé, num vestido vermelho. Eles não sabiam que eu já tinha "morrido" antes, num acidente de carro "infeliz", orquestrado pelos meus queridos sócios, Pedro e Lucas. Meu olhar varreu a multidão, ignorando os sussurros, até encontrar Pedro. Seu copo de uísque se estilhaçou no chão de mármore. "Joana?", sua voz um sussurro rouco, ele parecia incrédulo. O cheiro de álcool e perfume caro dele me embrulhou o estômago. "Você estava no incêndio. O prédio desabou." "Eu sou uma mulher de muitos talentos", respondi com frieza, "inclusive o de sobreviver." Os murmúrios ao nosso redor aumentaram: "É ela mesma?", "O corpo estava irreconhecível...", "Eles herdaram a parte dela, não foi?". Pedro tentou me tocar, mas eu recuei: "Não me toque". "O que está acontecendo, Joana? Onde você esteve? Por que voltou assim?" Eu dei um sorriso sem calor. "Eu vim corrigir alguns erros. E, a propósito, não é mais Joana. É Senhora Albuquerque." A confusão no rosto dele aprofundou-se. "Estou falando do meu marido", anunciei, alto o suficiente para todos ouvirem. "Eu me casei." Pedro balançou a cabeça, um riso amargo escapando. "Você não pode ter se casado. Você... você pertence a nós." Sua raiva explodiu, e ele socou um painel de vidro, quebrando-o. "Chega de joguinhos, Joana!" Lucas emergiu da multidão, calmo e arrepiante. "Ela não é a Joana", disse Lucas, sua voz carregada de certeza. "Ela finalmente voltou para nós. Nossa paixão de infância." Ele se virou para multidão atônita. "Esta mulher não é esposa de ninguém. Ela é uma farsa. E ela veio para casa." Pedro e Lucas, dois predadores me encurralaram. "Você não vai a lugar nenhum", disse Pedro, ameaçador. "Você vai ficar conosco", completou Lucas, com um sorriso gelado. "Para sempre." Naquela noite, eu "morreria" pela terceira vez, não de fogo ou aço, mas de uma verdade mais cruel: para eles, eu nunca fui Joana. Eu era apenas um corpo para preencher o vazio de um amor doentio por um fantasma. Mas agora, eu não era mais uma ovelha. Eu era a loba, e eles, minhas presas. E eu não morreria mais por eles.
O Sabor Amargo da Culpa
O dia que deveria ser de celebração transformou-se no meu pior pesadelo. Era o terceiro aniversário do meu pequeno Leo. Mas ele morreu, ali mesmo, nos meus braços, de uma reação alérgica devastadora a amendoins. O bolo, o bolo de amendoim, foi-lhe dado pelo seu próprio pai, o meu marido, Tiago. No chão frio do hospital, enquanto o médico pronunciava as palavras finais, senti o sangue gelar nas minhas veias. O mundo ficou mudo, exceto pelo zumbido nos meus ouvidos. Então, veio a acusação. «A culpa é toda tua, Sofia!», gritou a minha sogra, Helena, os seus olhos cheios de ódio. «Eras a mãe! Tivesses vigiado melhor!», ecoou a cunhada, Inês. Até elas, que eu tinha avisado um milhão de vezes sobre a alergia fatal do Leo. «Ele pensava que estavas a exagerar, Sofia. Que eras demasiado nervosa», lembrei-me das palavras do Tiago. E ele ali, em silêncio, a evitar o meu olhar, a trair-me com a sua passividade. Como podiam culpar-me? Como podiam ignorar todos os meus avisos sobre algo tão sério? Afinal, não fui eu quem deu o bolo envenenado ao meu filho. Não fui eu quem se recusou a acreditar na gravidade da alergia. Naquele instante, o amor que eu sentia por Tiago morreu. Deixei claro: «Vamo-nos divorciar, Tiago». O choque nos seus olhos não importava. Eu não podia mais ficar com aquelas pessoas, com o homem que matou o nosso filho e se recusava a assumir a culpa. Eu só queria fugir, escapar, e eles iriam pagar por isso.
