Minha mãe aparece no quarto pouco depois, com aquela expressão preocupada que conheço tão bem.
Íris - Você não pode continuar assim, Athos. Está trabalhando demais e dormindo de menos.
Athos - Eu sei, mãe. Mas pode ficar tranquila. Ontem foi meu último dia como vigia.
Ela ergue as sobrancelhas, surpresa.
Íris - Como assim? Você pediu demissão?
Athos - Não exatamente. O tio Leônidas conseguiu um serviço de limpeza de piscina na casa de uns ricaços. A vaga era para o Andreas, mas ele não quis. Como eu estava procurando outro emprego, aceitei. Começo hoje.
Íris - Graças a Deus! Pelo menos você vai conseguir dormir à noite. Mas esse seu primo... Não sei o que ele quer da vida. Já vai fazer vinte e três anos e não quer saber de trabalhar.
Athos - Deixa ele, mãe. Isso é o tio Leônidas e a tia Kássia que têm que resolver.
Íris - Você tem razão, mas me revolta ver todo mundo se matando de trabalhar enquanto ele passa o dia inteiro vadiando.
Não respondo de imediato. Sei que ela tem seus motivos para se irritar, mas discutir sobre Andreas não vai mudar nada.
Athos - Falando em trabalho, a senhora já pensou melhor sobre a minha proposta?
Ela estreita os olhos, desconfiada.
Íris - Que proposta?
Athos - Arrumarmos um lugar só para nós dois morarmos.
Íris - Athos, já conversamos sobre isso!
Athos - E vamos continuar conversando até a senhora entender que não precisa morar debaixo do mesmo teto que a tia Kássia para continuar sendo irmã dela.
Íris - Não quero me separar da minha irmã. Família tem que permanecer unida.
Athos - E vai permanecer. Morar em casas separadas não significa abandonar ninguém. Continuaremos nos visitando, ajudando uns aos outros e fazendo tudo o que fazemos hoje. A diferença é que teremos nosso próprio espaço.
Minha mãe cruza os braços, deixando claro que não está convencida.
Íris - Não! Esse assunto está encerrado.
Athos - Tudo bem, mãe. Não está mais aqui quem falou.
Levanto-me antes que ela resolva prolongar a discussão.
Athos - Vou tomar um banho rápido. Ah, e hoje, quando sair da faculdade, vou direto para o novo emprego. Só volto à noite.
Íris - Já vai começar assim? Nem conhece o lugar direito e já está pensando em passar o dia inteiro trabalhando.
Athos - Mãe, eu preciso do dinheiro. E, se tudo der certo, esse emprego vai ser melhor do que o anterior.
Ela suspira, resignada.
Íris - Só não se esqueça de cuidar de você também.
Athos - Pode deixar.
Dou um beijo em sua testa antes de entrar no banheiro.
Enquanto tomo banho, penso na nova oportunidade. O serviço não é exatamente o emprego dos meus sonhos, mas paga minhas contas e me permite continuar estudando. Por enquanto, é disso que preciso.
Além disso, ouvi dizer que a mansão tem uma praia nos fundos. Se os funcionários tiverem permissão para frequentá-la depois do expediente, talvez eu consiga aproveitar algumas ondas nos dias em que não estiver tão cansado.
Surfar é uma das poucas coisas que me ajudam a esquecer os problemas, nem que seja por alguns minutos.
Quando saio do banheiro, minha mãe já está se preparando para trabalhar. Ela é costureira e divide a pequena loja com minha tia Kássia. As duas são bastante conhecidas na região e fazem ajustes até para as mulheres da parte rica da cidade.
A loja existe há vinte e um anos, desde que nasci.
Naquela época, minha mãe, minha tia e o marido dela, tio Leônidas, tinham acabado de chegar da Grécia em busca de uma vida melhor.
Meu primo Andreas já havia nascido e tinha dois anos. A tia Kássia estava grávida dos gêmeos, Hector e Gaia, que, assim como eu, nasceram em solo americano.
Com as economias que trouxe da Grécia, meu tio abriu um pequeno mercado na vizinhança. Hoje, Hector trabalha lá, enquanto Gaia cuida das tarefas domésticas.
Todos contribuem de alguma maneira para o sustento da família.
Todos, menos Andreas.
Minha tia insiste em defendê-lo, dizendo que ele está apenas esperando uma oportunidade melhor. O problema é que oportunidades não costumam bater à porta de quem passa os dias inteiro sem fazer nada para encontrá-las.
Mas essa é uma discussão que não me pertence.
O que realmente me importa é que, apesar das dificuldades, somos uma família que permanece unida. E pretendo fazer tudo o que estiver ao meu alcance para que continue assim.
Quando me formar e conseguir um bom emprego, vou ajudar Hector e Gaia a realizarem seus sonhos.
Hector é mais do que meu primo. É meu melhor amigo, meu parceiro para quase tudo e uma das poucas pessoas em quem confio de olhos fechados.
Gaia, por sua vez, é uma garota doce, inteligente e atenciosa. Sonha em fazer faculdade, mas não conseguiu uma bolsa integral como a minha. A família não tem condições de pagar o restante das mensalidades, então ela precisou adiar esse sonho.
Eu não pretendo deixá-la desistir.
Minha bolsa cobre cem por cento dos meus estudos. Segundo o reitor, tenho uma facilidade incomum para aprender, algo que ele costuma atribuir à minha inteligência.
Não sei se sou tudo isso. Só sei que, quando tenho uma oportunidade, faço o possível para aproveitá-la.
E pretendo continuar fazendo isso até conseguir dar à minha mãe a vida que ela merece.
Depois de me vestir, passo rapidamente pela cozinha. Todos estão tomando café da manhã, e o cheiro da comida quase me faz reconsiderar a ideia de sair sem comer.
Quase.
Athos - Bom dia!
Minha família responde em coro.
Kássia - Não vai tomar café, querido?
Athos - Hoje não, tia. Estou atrasado. Pego alguma coisa no caminho.
Gaia - Leva pelo menos um sanduíche para comer no intervalo.
Andreas - Nem pensar! Só tem um, e eu vou comer.
Gaia - Mas você já comeu dois!
Athos - Não tem problema, Gaia. Uma maçã já está bom para mim.
Pego a fruta que está sobre a mesa e dou um beijo na testa da minha prima.
Ela sorri timidamente, mas o sorriso desaparece quando Andreas resolve abrir a boca outra vez.
Andreas - Você sabe que ele não está a fim, não é, Gaia?
Leônidas - Andreas! Respeite sua irmã e...
Não espero para ouvir o restante.
Saio da cozinha antes que perca a paciência e acabe fazendo algo de que me arrependa. Hector vem logo atrás de mim.
Hector - Um dia você ainda vai perder a cabeça e quebrar a cara dele.
Athos - Não me provoque. Ainda estou considerando a possibilidade.
Meu primo ri, e seguimos em direção ao ponto de ônibus.
Hector - E então, vai à festa do Mason hoje?
Athos - Não.
Hector - Nem perguntou quem vai estar lá!
Athos - Não preciso. Você sabe que aqueles playboys vão aparecer em peso. Quero distância daquele povo.
Hector - Para alguém que está batalhando tanto para mudar de vida, você tem uma aversão enorme a ricos.
Athos - Não tenho aversão a ricos. Sou amigo do Mason desde criança, lembra? O que não suporto é gente esnobe que pensa ser melhor do que os outros só porque tem dinheiro.
Hector - Sei. E aquelas gatinhas da faculdade que você pega? São todas humildes, imagino.
Athos - Ah, para! Elas não são esnobes. Se fossem, nem olhariam para mim. Todo mundo sabe que sou bolsista.
Hector - Sua aparência ajuda bastante, convenhamos. Além disso, vocês só estão transando. Não é como se fossem se casar.
Athos - E quem disse que muitas delas não querem algo a mais? Eu é que não quero compromisso com ninguém.
Hector - Então é oficial: você é do tipo que pega e não se apega.
Athos - Não tem nada de oficial. Só não quero começar um relacionamento sem ter condições de oferecer alguma coisa à pessoa. Minha vida já é complicada o suficiente.
Hector - Quero ver se vai continuar pensando assim quando se apaixonar de verdade.
Solto uma risada debochada.
Athos - Isso nunca vai acontecer.
Hector - Nunca diga nunca. É o que a tia Íris vive falando. Olha para mim, por exemplo. Estou caidinho pela Penélope, e ela não me dá a menor bola.
Ele olha na direção da garota que se aproxima do ponto de ônibus.
Athos - Você sabe que ela está procurando um desses ricaços. Foi por isso que conseguiu uma bolsa de estudos na escola particular mais tradicional da cidade.
Hector - Eu sei. O problema é que meu coração não está nem aí para isso.
Athos - Ah, para de bobeira! Aposto que você continua aproveitando as festas do Mason para ficar com outras garotas.
Dou um leve safanão na cabeça dele.
Hector - Se ela não me quer, tem quem queira. Não vou ficar chorando na cama por causa de uma mulher.
A ironia é que ele mal termina de falar quando Penélope para ao nosso lado.
Hector - E aí, gatinha? Topa ir a uma festinha comigo hoje?
Penélope nem se dá ao trabalho de olhar para ele.
Penélope - Já disse para você só falar comigo quando tiver um cartão sem limites. De pobre, basta eu.
Hector - Nossa! E vai me dizer que está namorando um daqueles filhinhos de papai?
Penélope - Não, mas estou quase.
Athos - Cuidado para não acabar virando o segredinho sujo de um deles. Esses caras podem até se divertir com garotas de outras classes sociais, mas, quando chega a hora de assumir um relacionamento diante da família e da sociedade, geralmente escolhem alguém do mesmo círculo.
Penélope finalmente me olha.
Penélope - Isso é o que veremos. E, graças a Deus, meu ônibus está chegando.
Ela sobe assim que as portas se abrem, deixando Hector para trás.
Athos - Até mais, primo. Te vejo à noite!
Hector - Até mais! E vê se não se apaixona por nenhuma ricaça no seu novo emprego!
Reviro os olhos e entro no ônibus, deixando-o para trás enquanto ele segue para abrir a mercearia.
Trinta minutos depois, chego à faculdade e vou direto para a primeira aula.
Assim que o professor de Algoritmos e Programação entra na sala, percebo que há algo diferente. Ele está sorrindo de um jeito que costuma anunciar alguma novidade importante.
Professor - Bom dia, pessoal! Hoje tenho uma notícia que pode mudar o futuro de alguns de vocês.
A conversa na sala diminui imediatamente.
Professor - Uma das maiores empresas de tecnologia do país está procurando um software inovador e, para encontrá-lo, lançou um concurso nacional voltado aos alunos do último ano dos cursos da área de tecnologia. Vocês poderão participar individualmente ou em equipes.
Alguns colegas começam a cochichar, claramente interessados.
Professor - O vencedor terá seu software comprado e comercializado pela empresa. Além de um prêmio milionário, receberá uma porcentagem significativa das vendas. E, dependendo do potencial do projeto, as condições da negociação poderão ser ainda melhores.
Sinto meu corpo despertar de repente.
Um prêmio milionário.
A possibilidade de criar algo meu, algo que possa ser reconhecido e me dê condições de mudar minha vida.
Pela primeira vez naquela manhã, meu cansaço parece desaparecer.
Aluno - Professor, como fazemos para participar?
Professor - É simples. Vocês precisam desenvolver o software e preparar uma apresentação gravada, explicando a ideia, os recursos e o funcionamento do projeto. Eu e os outros professores analisaremos os trabalhos e selecionaremos os melhores para representar nossas faculdades no concurso.
Athos - E qual é o prazo para a entrega?
Professor - Dois meses.
Dois meses.
O tempo parece curto, mas não impossível.
Ao meu redor, os alunos começam a discutir ideias, formar equipes e especular sobre as chances de vitória. Alguns já parecem desistir antes mesmo de tentar.
Eu não.
Minha mente já está trabalhando, conectando possibilidades e imaginando o que posso desenvolver.
Penso na minha mãe, que passou a vida trabalhando para garantir que eu tivesse oportunidades que ela nunca teve. Penso em Gaia, que precisou adiar o sonho de estudar. Penso em Hector, que merece a chance de construir um futuro diferente.
E penso em mim.
Em todas as noites mal dormidas, em cada vez que precisei escolher entre descansar e continuar lutando, em todos os planos que guardo para quando finalmente tiver condições de realizá-los.
Talvez eu ainda não tenha dinheiro, contatos ou um sobrenome importante.
Mas tenho conhecimento, determinação e dois meses para provar do que sou capaz.
Não preciso que ninguém acredite em mim.
Só preciso de uma oportunidade.
E, dessa vez, pretendo fazer de tudo para não desperdiçá-la.