Minha loba, Nora, se agitou, e um rosnado baixo nasceu no meu peito. A pulseira de prata no meu pulso esquentou, como se estivesse sendo levada ao limite para manter minha verdadeira natureza sob controle.
Respira, Victoria. Só respira.
As batidas ritmadas contra a parede continuaram. Cada impacto parecia um martelo golpeando minhas costelas.
Depois do que pareceu uma eternidade, a voz ofegante de Scarlett cortou meu choque como uma lâmina.
- Ethan, você também é tão selvagem quando transa com aquela Ômega patética?
Meu coração parou.
- Você acha mesmo que eu perderia meu tempo com ela? - Ethan soltou uma risada fria e cruel. - Ela acredita de verdade que estou esperando até o casamento. Aquela Ômega sem noção se acha especial.
- Meu Deus, você é muito melhor do que esse papel de namorado que faz para ela - murmurou Scarlett, a voz carregada de prazer. - Só com você eu realmente me sinto viva.
A risada cruel dos dois despedaçou algo dentro de mim.
A lata de biscoitos de chocolate que eu tinha preparado para comemorar nosso aniversário escapou das minhas mãos trêmulas. Bateu no chão, espalhando pedaços pelo corredor. O cheiro intenso e enjoativo de cacau tomou conta do ar, como se zombasse da doçura que deveria celebrar nosso amor.
Nora rosnou furiosa dentro de mim e se lançou contra as marras mágicas da pulseira de prata em meu pulso. A fúria dela corria pelas minhas veias como fogo líquido, exigindo liberdade.
Exigindo sangue.
Mas a pulseira não cedeu. As runas emitiram um brilho fraco, reprimindo tudo o que revelava quem eu realmente era.
Eu não era Ômega.
Nunca tinha sido.
Aquele sempre fora meu maior segredo.
- Quando você finalmente vai contar a ela sobre nós? - perguntou Scarlett, a satisfação transbordando de sua voz. - Ela ainda não sabe que o namorado perfeitinho dela fode a melhor amiga há anos.
Cada palavra rasgava o que ainda restava do meu coração, mais dolorosa do que garras cravadas na carne.
- Em breve - prometeu Ethan entre gemidos. - Só preciso garantir minha posição na Alcateia Riacho do Norte primeiro. Assim que eu for oficialmente reconhecido como filho de Lawrence, vou ter status suficiente para largar aquela Ômega imprestável.
Cinco anos de amor e devoção ruíram em um instante.
Cerrei os punhos com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. A vontade de invadir o quarto e destroçar os dois ardia nas minhas veias como um incêndio fora de controle.
A dor fechou minha garganta, quase me sufocando. Todos os meus instintos exigiam destruição. Um ato impensado.
Mas eu não podia.
A fúria de Nora cresceu e se misturou à minha. Minha loba branca lutava ferozmente contra as amarras mágicas que a aprisionavam. Tremendo, toquei a pulseira no pulso - justamente o objeto que escondia minha verdadeira identidade.
Eu achei que tinha encontrado alguém capaz de me amar por mim mesma. Não por eu ser a Herdeira Lancaster. Nem pela minha rara linhagem de loba branca.
Mas estava errada.
Terrivelmente errada.
Inspirei fundo e obriguei as mãos a relaxar. Como futura Alfa da Alcateia Aurora Crescente e sucessora do império da família, eu sabia o que precisava vir em primeiro lugar.
Havia coisas muito maiores em jogo.
Meu olhar ficou duro como aço. Peguei o celular e disquei um número que sabia de cor.
- Vovô - falei com uma firmeza que surpreendeu até a mim mesma. - Cancele o casamento. Não há motivo para continuar com os preparativos.
Eu tinha planejado revelar tudo a Ethan naquele dia. Minha verdadeira identidade, o pedido... tudo.
Justamente no nosso quinto aniversário.
Agora, nada daquilo importava.
- Victoria? - A preocupação deixou a voz do meu avô mais aguda. - O que aconteceu?
- Eu explico depois.
Desliguei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa.
No mesmo instante, uma combinação intensa de cedro defumado e rosas noturnas invadiu meus sentidos, sobrepondo-se a todos os outros cheiros ao redor. Havia naquele aroma um poder impossível de descrever. Meu sangue correu mais rápido, como se algo tivesse tocado o ponto mais profundo da minha alma.
O que estava acontecendo?
Um impulso irresistível e instintivo tomou conta de mim. Quase sem perceber, comecei a seguir o rastro daquele cheiro. Era como se um fio invisível me puxasse pelas ruas, até eu parar diante de um clube luxuoso: o infame *Uivo da Meia-Noite*, propriedade da notória família Sterling.
Entrei sem hesitar.
A música ensurdecedora e o salão lotado perderam a importância. Todos os meus sentidos estavam concentrados naquele aroma inconfundível de cedro e rosa.
Meus olhos percorreram o jogo de luzes e sombras até encontrarem o camarote mais reservado do clube.
Um homem estava sentado ali.
Mesmo naquela posição, ele dominava o ambiente como se fosse o centro de tudo. Alto e imponente, vestia um terno preto impecável, feito sob medida, que destacava os ombros largos e a cintura estreita. O torso desenhava um V perfeito.
Os cabelos grossos e castanho-escuros tinham sido arrumados com um desleixo proposital. Seus traços marcantes tinham uma beleza quase agressiva. Tinha o nariz reto, lábios sensuais e uma mandíbula forte, bem definida.
Sob a luz fraca, os olhos cinza-azulados já estavam fixos em mim.
Eu o reconheci.
Damian Sterling, meio-irmão de Ethan.
Quando se levantou e começou a caminhar na minha direção, Nora - aquela presença que eu reprimia havia tanto tempo - entrou em frenesi dentro da minha mente.
*"Companheiro!"*
Sua voz já não era uma agitação abafada nem um mero sussurro. Era uma declaração nítida, carregada de êxtase e certeza, que explodiu no fundo da minha alma.
*"Companheiro predestinado!"*
Eu mal tinha cruzado com Damian ao longo da vida. Nosso último encontro tinha acontecido antes de eu completar dezoito anos.
Depois disso, tudo o que eu sabia sobre ele vinha das redes sociais e dos escândalos absurdos em que vivia se metendo.
Droga.
Aquilo era um absurdo.
De todas as pessoas, por que justo ele tinha que ser meu companheiro predestinado?
- Ora, ora... se não é a pequena Ômega do meu irmão - disse ele lentamente, fazendo o líquido âmbar girar dentro do copo. - Numa noite tão agradável, o que traz você até aqui, em vez de estar com ele?
- Seu irmão - respondi, mantendo a voz firme apesar do nó na garganta - está, neste exato momento, fodendo minha melhor amiga de todas as formas possíveis.
A surpresa atravessou o rosto dele por um instante. Logo depois, sua expressão se tornou indecifrável.
- E você está aqui porque...?
Me inclinei, deixando que o cheiro dele me envolvesse por completo. Cedro defumado e rosas noturnas. O aroma nos deixou inquietas, tanto Nora quanto eu.
Eu tinha absoluta certeza de que o queria.
- Uma noite - sussurrei, perto o bastante para que meus lábios quase roçassem a orelha dele. - Sem compromisso. Sem expectativas.
Quando me afastei, Damian agarrou meu pulso. O polegar dele deslizou sobre a pulseira de prata.
Então sorriu.
Um sorriso predatório que fez meu coração saltar no peito.
- Uma noite - concordou, a diversão brilhando nos olhos. - Para te ajudar a esquecer aquele inútil do meu irmão.
Ele me conduziu até o elevador privativo de sua cobertura de luxo, colando os lábios nos meus em um beijo dominante e quente como fogo...