Davies se aproximou para que ela conseguisse ouvi-lo apesar do barulho.
- Seu marido é o Alfa Sebastian Hale, certo?
Eira assentiu.
- Isso pode dar uma vantagem enorme à Alcateia Hale - explicou ele. - Se conseguirem acesso antes das outras alcateias, ninguém vai alcançá-los.
As palavras a afetaram mais do que esperava.
Eira imaginou Sebastian abrindo o relatório de certificação. A princípio, seu rosto permaneceria impassível. Depois, o olhar ficaria mais atento. Talvez, apenas talvez, ele finalmente a encarasse com algo parecido com respeito.
Ela esperava por aquele olhar havia quatro anos.
- Vou contar a ele hoje à noite - disse.
Davies abriu um sorriso.
- Ótimo. Deixe que ele veja o que você tem feito.
Eira sorriu, mas apertou a pasta entre os dedos.
"Não. Estou dando a ele a maior vantagem da vida dele porque sou sua esposa."
Ela passou por três postos de segurança, trocou o macacão usado na sala limpa e pegou os documentos finais da certificação.
Seu nome estava impresso na primeira página.
Dra. Eira Crawford.
Eira passou o polegar sobre o título.
Dessa vez, ninguém poderia chamá-la de inútil. Ninguém poderia menosprezá-la por ser uma Ômega sem loba. Ninguém poderia dizer que ela não tinha nada a oferecer a um Alfa.
Ela tinha criado algo poderoso o bastante para levar alcateias inteiras a disputar o acesso.
E, naquela noite, colocaria tudo nas mãos de Sebastian Hale.
***
Uma hora depois, o elevador VIP a levou diretamente ao último andar da Torre Hale. O Alfa Sebastian usava a suíte privativa para reuniões de negócios que se estendiam até tarde e, às vezes, dormia ali, alegando que o trabalho no Grupo Hale tinha terminado tarde demais. Eira já tinha levado o jantar para ele naquele lugar mais vezes do que conseguia contar.
Dessa vez, levava um futuro.
Saiu do elevador com a pasta apertada contra o peito. O corredor estava silencioso, abafado por um carpete espesso e iluminado por luzes amareladas nas paredes. Quando chegou a seis metros do escritório, seus passos perderam o ritmo.
Seu nariz percebeu antes que sua mente pudesse entender.
Cedro. Uma nota marcante e familiar, com o calor que só o cheiro do Alfa Sebastian possuía. Era ao lado daquele aroma que Eira adormecia havia quatro anos, mesmo quando o lado dele na cama permanecia frio por tempo demais.
Mas havia algo por baixo.
Doce. Floral.
Não era dela.
Eira parou.
A porta do escritório estava entreaberta. Uma faixa estreita de luz atravessava a fresta, trazendo consigo os cheiros misturados de duas pessoas próximas demais uma da outra.
Então o Alfa Sebastian falou:
- Serena, você sabe que eu sempre te amei. Ela não significa nada.
A pasta escorregou nas mãos de Eira, mas ela conseguiu segurá-la antes que caísse.
A voz de Serena veio logo depois, baixa e embargada, embora escondesse um leve toque de diversão.
- Se você me ama, por que deixou aquela Ômega órfã se tornar sua Luna? Por que não foi atrás de mim quando eu fui embora?
O Alfa Sebastian riu baixinho. Eira conhecia bem aquela risada. Era a que ele usava quando queria fazer alguém se sentir ridículo por duvidar dele.
- Está com ciúmes?
- Eu não deveria estar? - perguntou Serena.
- Eu a escolhi porque você foi embora. - A voz dele ficou mais suave, o que apenas tornou tudo pior. - Eu precisava de uma Luna. Os anciãos queriam que o posto fosse ocupado, e Eira era inofensiva. Sem família. Sem loba. Sem ninguém para me desafiar.
Inofensiva.
Eira permaneceu imóvel do lado de fora, incapaz de respirar.
Serena soltou um ruído baixo de repulsa.
- E agora?
- Agora ela é útil. - O Alfa Sebastian parecia quase entediado. - Administra a casa, cuida das contas da alcateia e impede que minha mãe transforme cada jantar numa guerra. Por que eu jogaria fora uma ferramenta que ainda funciona?
Aquela palavra penetrou devagar na mente de Eira.
Ferramenta.
Não esposa. Não Luna. Não companheira.
Ferramenta.
Serena ficou em silêncio por alguns instantes. Quando voltou a falar, não havia mais lágrimas em sua voz.
- Não quero continuar escondida para sempre.
- E não vai. - Houve um farfalhar de tecido dentro da sala. - Quando chegar a hora certa, o posto de Luna será seu.
- E o herdeiro?
O Alfa Sebastian respondeu sem hesitar:
- Meu herdeiro só virá de você.
Eira fechou os olhos.
Durante quatro anos, o Alfa Sebastian tinha evitado tocá-la. Dizia que ela era jovem. Dizia que o envenenamento por prata que tinha sofrido anos antes ainda poderia afetar seu corpo. Dizia que não queria machucá-la.
Eira tinha acreditado porque precisava acreditar que havia bondade naquela distância. Pensava que ele a respeitava. Pensava que a paciência era apenas o amor usando uma face silenciosa.
Não.
A verdade era muito mais simples.
Ela não era Serena.
Pela fresta da porta, Eira viu o Alfa Sebastian inclinar a cabeça até o pescoço de Serena. O nariz roçou a pele dela, e a expressão dele assumiu uma forma que jamais tinha mostrado a Eira. O desejo deixou seu rosto arrogante quase embriagado.
- Senti sua falta - murmurou ele. - Do seu cheiro. Da sua voz.
Serena se inclinou na direção dele.
- Então se divorcie dela.
- Ainda não.
- Por quê?
O tom do Alfa Sebastian esfriou. Era a mesma voz que usava durante as reuniões do conselho.
- Porque ela ainda serve a um propósito. Basta dar um pouco de atenção, e ela fará qualquer coisa por esta família. Não toque na ferramenta antes que eu termine de usá-la.
Eira apertou tanto a pasta que uma das bordas se dobrou.
Ali dentro estava uma certificação capaz de mudar o futuro da Alcateia Hale. Ela tinha se imaginado depositando o documento sobre a mesa do Alfa Sebastian e, enfim, vendo orgulho nos olhos dele. Tinha imaginado Sebastian pronunciando seu nome como se ela fosse importante.
Em vez disso, ouviu a verdade.
Por um instante, a dor a deixou completamente vazia.
Depois, algo mais frio despertou dentro dela.
Com as mãos firmes, Eira tirou o celular e iniciou uma gravação. A câmera registrou a fresta da porta, o ângulo do rosto do Alfa Sebastian, as mãos de Serena sobre a camisa dele, o beijo que veio em seguida e a maneira como ele sussurrou o nome da amante como se fizesse um juramento.
Eira continuou filmando, até sentir a alma se afastar do seu corpo.
Cinco minutos.
O bastante para qualquer advogado. O bastante para qualquer audiência do Conselho. O bastante para qualquer tolo que mais tarde tentasse acusá-la de fazer drama.
Então encerrou a gravação.
Sem produzir um único som, voltou para o elevador. As portas se fecharam ao seu redor, finalmente bloqueando o cheiro de cedro e flores.
No aço polido, seu reflexo parecia sereno.
Sereno demais.
Como se uma estranha a encarasse de volta.
***
Do lado de fora da Torre Hale, o ar frio bateu no rosto de Eira.
Ela não chorou.
Lágrimas pareciam insignificantes demais diante do que tinha acontecido.
Eira ligou para o departamento jurídico do Instituto Nacional de Pesquisa. Susan atendeu no terceiro toque.
- Dra. Crawford?
- Preciso de um acordo formal de dissolução do vínculo. Tenho provas da traição do meu companheiro. Quero encerrar o vínculo e remover meu nome de todos os registros da Alcateia Hale o mais rápido possível.
- Registro padrão ou modo protegido?
- Proteção total. Nível máximo. Sebastian não pode descobrir minha credencial de segurança.
Susan hesitou.
- Esse processo vai custar caro para você.
- Não me importa quanto custe. - Eira ergueu os olhos para a Torre Hale. - Consiga a assinatura dele antes que perceba o que está perdendo.
Ela encerrou a ligação e foi embora sem olhar para trás.