- Bisteca no ponto como o senhor pediu - disse educadamente, depositando o prato diante do cliente, que esperava com o guardanapo preso no colarinho.
Tentou se afastar, mas ele segurou a barra de sua camisa.
- Cada dia que passa fica mais bonita, Nellie - comentou, os olhos sedentos percorrendo o corpo dela. - Uma flor doce no meio deste fim de mundo.
Segurando a vontade de estapear a mão dele, manteve o sorriso profissional.
- O senhor veio para comer ou para fazer poesia?
- Vim para ver você. - Ele inclinou-se para frente, seguindo com aquele olhar que causava asco na jovem. - E para repetir o convite. Vamos jantar hoje? Posso te levar a um restaurante chique na capital...
- Sou dona de um restaurante. E não saio com clientes - respondeu secamente, virando-se para atender outra mesa, mas a mão persistiu e agarrou seu pulso com força.
- Não seja difícil, garota. Sou um homem paciente, mas tenho limites.
Nellie sentiu o coração acelerar de raiva, mas manteve a compostura.
- Olavo, solte meu braço!
- Deixa a menina, Olavo - um cliente na mesa ao lado tentou intervir, mas sua voz saiu baixa, sem muito empenho.
- Cuide da sua vida e não meta o nariz nos meus negócios! - Olavo disparou, sem desviar os olhos de Nellie.
O homem baixou a cabeça e voltou a comer, derrotado.
- Não sou um negócio, menos ainda seu - Nellie retrucou, puxando o braço com brusquidão.
Olavo finalmente a soltou, mas não sem antes deslizar o polegar sobre a pele nua de seu antebraço.
- Em breve será minha potranca.
- Potranca é a pu...
- Nellie, o frango com quiabo tá divino - uma mulher interveio em desespero.
Respirando fundo, Nellie se afastou sorrindo para a cliente.
- Obrigada! O cozinheiro ficará feliz com seu feedback.
Vendo a jovem fugir novamente as suas investidas, o fazendeiro sorriu confiante. Quanto mais rebelde, mais doce seria quando a domasse.
Nellie sentia o peso do olhar de Olavo em suas costas enquanto se movia entre as mesas, e não precisava virar-se para saber que o nojento a devorava com os olhos.
Seguiu para o balcão, onde Lurdes, sua amiga e companheira de trabalho, servia aguardente para dois trabalhadores.
- Ele nunca vai desistir - a amiga alertou baixinho.
- E eu nunca vou aceitar aquele porco - revidou, fazendo um dos trabalhadores engasgar com a bebida.
Os homens se afastaram apavorados, temendo que Olavo ouvisse e colocasse na conta deles o afronte da jovem. Notando a situação, as duas riram.
Foi quando a gritaria do lado de fora começou. Altos e estridentes demais para serem ignorados.
- O que está acontecendo lá fora? - questionou movendo a cabeça em direção à porta, assim como os demais no estabelecimento.
Uma voz feminina - aguda, estridente, inconfundível - cortava o ar com acusações febris.
- LADRÃO! MENDIGO IMUNDO!
- É a Sônia - alguém na mesa do fundo comentou, se levantando. - Tá gritando igual uma galinha esganada.
- E o filho dela - acrescentou outro olhando pela janela. - Tão cercando alguém na frente da mercearia.
Nellie largou a bandeja sobre o balcão.
- Lurdes, cuida do bar que vou ver o que tá acontecendo.
- Nellie, espera! - Lurdes chamou, mas Nellie já estava do lado de fora.
A rua estava um caos, com uma pequena multidão se aglomerando como abelhas enraivecidas em volta de três pessoas.
Ao vencer a muralha de pessoas, os olhos de Nellie se arregalaram.
Um home maltrapilho, sujo e visivelmente ferido estava caído no chão. Em pé, acima dele, a dona da mercearia brandia uma vassoura como se fosse uma espada.
- LADRÃO! - repetia desferindo golpes no homem caído. - RATO IMUNDO DOS INFERNOS!
Ao lado dela, o filho mais novo também golpeava a figura caída no chão, só que com chutes.
- Some daqui, rato imundo! - ele mandava, embora, com os golpes sucessivos, não desse a menor chance do pobre homem levantar. - Volta pro buraco de onde saiu!
Chocada por ninguém intervir, observou as roupas sujas, rasgadas, expondo a pele curtida pelo sol, coberta de arranhões, sangue e terra seca. Os pés estavam descalços, em carne viva, as solas sangrando. O cabelo preto como azeviche, estava emaranhado, repleto de folhagem e lama que, junto da barba em igual estado, escondia as feições do homem que engatinhava para fugir dos golpes, um braço pendendo em um ângulo estranho.
- PEGA ELE, FILHO! - Sônia ordenou, e o filho obedeceu, avançando com os punhos cerrados.
- Acha que pode roubar nossa mercearia e sair ileso? - ele berrou, e seu punho voou em direção ao rosto do mendigo.
O golpe não atingiu o alvo. Inesperadamente o homem desviou. Seu movimento foi tão inesperado que Paulo desequilibrou e caiu.
- OLHEM O QUE ESSE RATO FEZ COM MEU FILHO! - Sônia bradou erguendo alto a vassoura.
- Eu... fo... me... - a voz do homem saiu rouca, estranha, como se custasse um esforço sobre-humano. - Fome... - balbuciava se encolhendo, o braço bom se erguendo contra o golpe que se anunciava.
Mas o golpe não o alcançou.
Uma mão pequena segurou o pulso de sua algoz impedindo a nova agressão.
- O que pensa que está fazendo, Sônia? - Nellie questionou, os olhos âmbar flamejando ao pegar a vassoura e a jogar longe.
A madeira bateu na parede da mercearia com um estalo seco, atraindo os olhares por um segundo, antes de se voltarem para a figura mignon desafiando a merceeira vinte centímetro maior.
- Esse homem roubou meus pães! - Sônia esganiçou, o rosto vermelho e as veias do pescoço saltando. - Ele é um ladrão!
- Chama a polícia então - Nellie revidou soltando o pulso de Sônia com brusquidão. - Vamos ver o que o delegado acha de vocês espancando um homem que mal consegue ficar em pé.
- Tá defendendo ladrão, agora? - O filho de Sônia perguntou incrédulo, levantando e sacudindo a poeira da calça. - Olha pra ele, Nellie! Deve ser um fugitivo ou pior!
- Pior o quê? - Nellie virou-se para encará-lo, a fúria nos olhos âmbar fazendo o rapaz recuar. - Olhe pro pobre homem, pros pés em carne viva, o estado das roupas e o ouça o que ele diz. Está claramente exausto, com fome, e querem espancá-lo por causa de pão? Isso é covardia. - Levou a mão ao bolso da calça jeans, pegando seu celular. - Quanto foi? Me diz que te faço o ¹pix.
- Vai proteger esse... - Sônia engoliu em seco, olhando com mais atenção o homem caído, notando o que foi apontado, mas não querendo recuar. Não na frente de quase toda a cidade. - Vou chamar o delegado - anunciou, abrindo caminho na multidão em direção à delegacia, seguida pelo filho.
As pessoas começaram a se afastar, embora o olhar permanecesse cravado no homem caído e em sua inesperada protetora.
Nellie se agachou em frente ao homem maltrapilho, que permanecia de joelho, os olhos escuros presos nela. Sorriu.
- Tá tudo bem agora. Ninguém vai te machucar mais. Pode confiar em mim.
Estendeu a mão.
- Sou Nellie. Qual seu nome?
- Eu... - a voz falhou, e ele engoliu em seco, os olhos nunca se desviando dos dela. Quando continuou, as palavras saíram roucas, arrastadas. - Eu... Eu...
Nellie franziu a testa e abriu a boca para voltar a questionar, mas, inesperadamente, o homem tombou para frente, caindo pesadamente nos braços dela.
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¹ Pix: Meio de pagamento instantâneo brasileiro criado pelo Banco Central (BC) em novembro de 2020, em que os recursos são transferidos entre contas em poucos segundos, a qualquer hora ou dia.