Naquela manhã, depois de uma semana de atrasos e suspeitas, havia saído do consultório com o coração acelerado e um exame positivo nas mãos. O médico ainda brincara:
- O papai vai ficar muito feliz.
Ela acreditava nisso. Ricardo sempre dizia que queria construir uma família grande, que a casa parecia silenciosa demais quando ele passava semanas viajando a trabalho. Nos últimos meses, a relação dos dois estava um pouco distante, mas Valentina colocava a culpa na rotina. Ele havia assumido a presidência da empresa do pai e carregava responsabilidades enormes.
Ela olhou para o relógio.
Oito da noite.
Ricardo prometera que chegaria às oito em ponto. Afinal, aquele não era um dia qualquer. Era o aniversário de oito anos de casamento.
Ela pegou o celular e abriu a conversa dos dois.
"Já estou terminando uma reunião, meu amor. Daqui a pouco estou em casa."
A mensagem tinha sido enviada uma hora antes.
Valentina respirou fundo e decidiu não se preocupar. Caminhou até o espelho da sala e ajeitou o vestido azul-marinho que usava. Era simples, elegante e um dos preferidos dele.
O toque do celular interrompeu seus pensamentos.
Ela sorriu, imaginando que fosse Ricardo avisando que estava chegando. Mas o número era desconhecido.
- Alô?
Por alguns segundos, só ouviu a respiração do outro lado.
Então uma voz feminina falou, calma e quase divertida:
- Se eu fosse você, não esperaria pelo seu marido.
Valentina franziu a testa.
- Quem está falando?
- Alguém que odeia ver uma mulher sendo feita de idiota.
Ela sentiu um arrepio percorrer a espinha.
- Eu não tenho tempo para brincadeiras.
- Não é brincadeira. Enquanto você prepara um jantar romântico, Ricardo está em um hotel do outro lado da cidade... acompanhado.
A ligação foi encerrada.
Valentina ficou imóvel, olhando para a tela do celular.
Aquilo não fazia sentido.
Ricardo jamais faria uma coisa dessas.
Ela tentou ligar para ele imediatamente, mas a chamada caiu na caixa postal. Tentou outra vez. O mesmo resultado.
- Deve estar sem sinal... - murmurou para si mesma.
O aparelho vibrou novamente.
Dessa vez, era uma mensagem.
Um arquivo de imagem.
Com as mãos trêmulas, ela abriu a fotografia.
O mundo pareceu parar.
Na tela, Ricardo aparecia descendo do carro em frente a um hotel de luxo. O braço dele envolvia a cintura de uma mulher alta, de cabelos escuros. Os dois sorriam um para o outro, completamente à vontade.
Valentina aproximou a imagem.
Não.
Não podia ser.
Ela conhecia aquele vestido vermelho.
Conhecia aqueles cabelos.
Conhecia a pulseira dourada no pulso esquerdo.
Bianca.
Sua melhor amiga.
- Não... isso não...
As lágrimas ameaçaram cair, mas ela recusou acreditar em uma fotografia. Qualquer imagem podia ser manipulada. Qualquer pessoa podia inventar uma mentira.
Ela precisava ver com os próprios olhos.
Pegou a bolsa, as chaves do carro e saiu do apartamento sem nem apagar as velas acesas.
Durante todo o trajeto, tentou ligar para Ricardo. Nenhuma resposta.
Ligou para Bianca.
Também não atendeu.
O coração batia tão forte que parecia machucar.
Ela se lembrava de todas as vezes em que Bianca a consolou quando Ricardo precisava cancelar um jantar por causa do trabalho.
- Ele te ama, amiga. Você só precisa entender que ele faz isso pelo futuro de vocês.
As palavras ecoavam em sua mente como uma piada cruel.
Quando estacionou diante do hotel, sentiu as pernas fraquejarem.
Talvez ainda houvesse uma explicação.
Talvez eles estivessem ali para uma reunião.
Talvez...
Ela entrou no saguão e caminhou até a recepção.
- Boa noite. Meu marido está hospedado aqui. Ricardo Vasconcelos.
A recepcionista digitou alguma coisa e sorriu educadamente.
- Desculpe, senhora. Não posso fornecer informações sobre nossos hóspedes.
Valentina abriu a bolsa, tirou a aliança e a colocou sobre o balcão.
- Eu sou a esposa dele.
A funcionária desviou o olhar, desconfortável.
Antes que pudesse insistir, um dos elevadores se abriu.
Ricardo saiu de mãos dadas com Bianca.
Eles estavam tão próximos que pareciam esquecer que existia um mundo ao redor.
Bianca ria de alguma coisa enquanto ajeitava a gravata dele.
Ricardo então segurou o rosto dela e a beijou.
Sem culpa.
Sem pressa.
Sem medo de ser descoberto.
A aliança escapou dos dedos de Valentina e caiu no chão de mármore com um som seco.
Os dois se viraram ao mesmo tempo.
O sorriso de Bianca desapareceu.
Ricardo empalideceu.
- Valentina...
Ela não conseguia falar.
Sentia como se alguém tivesse arrancado todo o ar de seus pulmões.
Bianca foi a primeira a reagir.
- Amiga... eu posso explicar.
Valentina deu uma risada baixa, completamente descrente.
- Amiga?
Ela repetiu a palavra como se fosse algo estranho.
- Você ainda tem coragem de me chamar de amiga?
Ricardo soltou a mão de Bianca e deu um passo à frente.
- Você não devia estar aqui.
A frase a atingiu como um tapa.
- Eu não devia estar aqui? - ela perguntou, quase sussurrando. - Este é o nosso aniversário de casamento. Eu preparei um jantar para você. Eu... eu ia contar uma notícia...
Ele desviou o olhar.
E esse simples gesto respondeu tudo.
Valentina encarou Bianca.
- Há quanto tempo?
A outra mulher abaixou a cabeça, fingindo vergonha.
- Não foi planejado...
- Há quanto tempo? - repetiu, agora mais alto.
Ricardo passou a mão pelos cabelos.
- Seis meses.
Ela cambaleou para trás.
Seis meses.
Seis meses ouvindo desculpas sobre reuniões. Seis meses acreditando que ele estava cansado. Seis meses dividindo sua casa, sua cama e seus sonhos com um homem que já pertencia a outra.
- Você sabia? - perguntou a Bianca.
A mulher começou a chorar.
- Eu não queria que fosse assim...
- Você sabia que eu o amava. Você sentava na minha mesa. Você me abraçava. Você dizia que eu era como uma irmã.
Bianca não respondeu.
Valentina voltou os olhos para Ricardo.
- E você? Vai dizer alguma coisa?
Ele permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Então falou, com uma frieza que ela nunca tinha visto.
- Eu não queria que você descobrisse dessa forma.
Ela riu outra vez.
- Então pretendia continuar com as duas?
- As coisas mudaram entre nós, Valentina. Você vive para a casa, para organizar a minha vida... Tudo ficou previsível.
Cada palavra feria mais do que a anterior.
- E ela? O que ela tem que eu não tenho?
Ricardo olhou para Bianca.
- Ela me faz sentir vivo.
Valentina sentiu as lágrimas finalmente escorrerem.
Ela havia abandonado a própria carreira para acompanhar os projetos dele. Afastou-se de amigos, adiou sonhos, suportou ausências e desculpas. E agora estava ouvindo que era previsível.
A mão deslizou até a bolsa.
Ela retirou a pequena caixa branca e a estendeu para ele.
- Eu ia te contar hoje.
Ricardo pegou a caixa, confuso.
Quando abriu e viu os sapatinhos de bebê, o rosto perdeu toda a cor.
- Valentina...
Ela não esperou que ele terminasse.
Deu meia-volta e saiu correndo.
Não viu Bianca chamando seu nome.
Não viu Ricardo largar a caixa no chão e correr atrás dela.
E muito menos percebeu que, do outro lado do saguão, um homem alto, vestido com um impecável terno preto, observava toda a cena em silêncio.
Os olhos frios acompanharam Valentina atravessando a porta do hotel completamente destruída.
Um de seus seguranças se aproximou.
- Senhor Moretti, o carro está pronto.
Dante continuou olhando para a mulher que acabara de entrar em seu automóvel.
Então perguntou, em um tom que surpreendeu até seus homens:
- Confirmou a identidade dela?
- Sim. É Valentina Albuquerque. A mesma jovem que salvou a senhorita Sofia há quatro anos.
Dante fechou lentamente o botão do paletó.
- Mantenham distância. Ninguém toca nela.
O segurança franziu a testa.
- Nem mesmo se o marido tentar alguma coisa?
Os olhos escuros de Dante se voltaram para a entrada do hotel, onde Ricardo ainda segurava a pequena caixa branca deixada para trás.
- Principalmente se for o marido.