Ali dentro, as coisas faziam sentido. A ciência tinha regras claras, dados palpáveis e, acima de tudo, não falava, não cobrava e não fazia barulho. O laboratório era o meu santuário particular contra o caos barulhento do campus. Eu me orgulhava de ser invisível para o resto da universidade.
De repente, parei a caneta no ar e franzi o nariz, sentindo um desconforto imediato. Uma pontada de dor de cabeça começou a latejar atrás dos meus olhos, ditando um ritmo chato e compassado que ameaçava estragar todo o meu foco.
Ajustei o foco do microscópio com precisão cirúrgica, observando uma linhagem de cultura celular em plena mitose. No visor, o mundo era perfeito: cromossomos se alinhando com uma obediência matemática, seguindo as regras claras e previsíveis da biologia molecular.
Eu me sentia segura ali; enquanto os dados fossem palpáveis, o caos barulhento da universidade não poderia me alcançar. Mas, conforme eu anotava as mutações no caderno, uma pontada de dor de cabeça latejou atrás dos meus olhos, uma desordem biológica que nenhum dos meus livros conseguia explicar.
Nas últimas semanas, o campus parecia ter se tornado um lugar sufocante. O ar parecia mais denso, saturado com um odor pesado, almiscarado e quente que eu não conseguia identificar de jeito nenhum, mas que fazia minha pele pinicar de uma forma irritante.
Era um cheiro que parecia grudar na garganta, como ozônio antes de uma tempestade violenta misturada a algo selvagem, predatório. Sempre que eu passava perto da quadra de basquete ou dos corredores principais do Centro Acadêmico, aquela névoa invisível me sufocava, fazendo meu coração acelerar sem motivo.
O médico da faculdade tinha me dito, com aquele sorrisinho condescendente de quem atende alunos estressados em fim de período, que era apenas uma "hipersensibilidade alérgica sazonal". Receitou um anti-histamínico genérico e me mandou evitar os jardins na primavera.
Bufei, largando a caneta sobre a bancada de formica. Um diagnóstico ridículo. Alergias sazonais não faziam você sentir que estava sendo vigiada por olhos invisíveis no meio da biblioteca. Antialérgicos não explicavam por que o meu olfato, de repente, conseguia distinguir o perfume de três marcas diferentes de sabonete nas pessoas que passavam a dois metros da minha mesa de estudos.
Enquanto a colônia de células no microscópio mantinha sua dança perfeitamente previsível, meu próprio corpo parecia uma equação cheia de incógnitas, prestes a quebrar todas as leis da biologia que eu passei a vida inteira estudando.
O ar do laboratório, antes esterilizado e neutro, de repente pareceu ganhar peso. Não era apenas um odor; era uma presença densa, almiscarada e quente que saturava o ambiente, fazendo minha pele pinicar como se milhares de partículas estivessem tentando me invadir.
O diagnóstico do médico sobre 'alergia sazonal' parecia uma piada de mau gosto diante daquela intensidade visceral.
Seja o que fosse, era a coisa mais irritante do mundo!
Largando a caneta, abri o zíper da minha mochila e puxei o spray bloqueador.
Aquilo era forte o suficiente para neutralizar qualquer partícula orgânica no ar, um verdadeiro escudo químico.
Inclinei a cabeça para o lado e borrifei o líquido generosamente nas laterais do meu pescoço, bem em cima da jugular. O líquido gelado tocou minha pele, e suspirei aliviada quando o perfume estéril e neutro tentou aplacar o cheiro sufocante que parecia vir de lugar nenhum.
Mas a sensação era de que eu estava apenas colocando um véu fino diante de um incêndio florestal que se recusava a apagar.
O bloqueador agiu na superfície, mas aquele odor pesado e magnético não estava apenas no ar; ele parecia ter dentes. Ele invadiu as minhas narinas de forma quase agressiva, uma presença física, quente e predatória, que se alojou direto na base do meu cérebro.
Minha pele não apenas pinicou; ela ardeu, como se estivesse respondendo a um chamado silencioso que tentava rasgar a minha compostura de cientista de dentro para fora. Meu coração deu um baque violento contra as costelas.
Mal guardei o frasco, com os dedos ligeiramente trêmulos, quando o silêncio do meu santuário foi brutalmente destruído.
A porta dupla do laboratório foi empurrada com tanta força que o impacto ecoou nas paredes de azulejo. O ar-condicionado pareceu falhar por um milésimo de segundo, engolido por uma lufada de vento repentina e quente que invadiu a sala, trazendo consigo aquele exato odor que eu estava tentando evitar - mas multiplicado por mil.
Ergui os olhos, a irritação faiscando no meu olhar, pronta para dar um esporro em quem quer que fosse. Mas as palavras morreram na minha garganta.
Não era um estudante comum entrando ali. Era uma presença que eu conhecia bem.
O choque térmico foi quase violento. O laboratório, que sempre mantinha a temperatura gélida e controlada para a preservação das lâminas e reagentes, virou um forno em questão de segundos. A lufada de vento que entrou com ele trouxe um calor absurdo, denso, que bateu contra o meu rosto e derreteu instantaneamente a barreira de gelo que eu passei a vida inteira construindo ao meu redor.
Era como se a própria presença dele distorcesse a física do ambiente, irradiando uma energia termodinâmica que meu cérebro puramente racional não conseguia processar.
Era o Lucas.
Ele parou bem no vão da porta, a respiração ligeiramente pesada, vestindo a regata do time de basquete da faculdade que deixava os braços fortes e os ombros largos totalmente expostos. Gotas de suor brilhavam na sua pele morena, e o cheiro que emanava dele - aquele ozônio predatório misturado a uma testosterona puramente selvagem - chicoteou o meu sistema com a força de um soco.
Meu corpo inteiro reagiu. Minhas mãos, que antes seguravam o frasco de alumínio, começaram a queimar, e uma linha invisível de eletricidade pareceu esticar-se entre nós, puxando-me na direção dele.
A Bia cientista queria correr para trás da bancada e analisar aquela anomalia sob uma lente segura; mas a Bia que estava presa dentro daquela carcaça humana só conseguia encarar os olhos dele, que pareciam faiscar em um tom de castanho perigosamente dourado ao me encontrarem no fundo do laboratório.
Lucas entrou digitando algo no celular, rindo baixo de alguma piada interna. Ele vestia a jaqueta preta e dourada do time de basquete da universidade - os Tigres -, com as mangas empurradas até os cotovelos, revelando antebraços grossos, marcados por veias salientes e uma fina camada de suor que brilhava sob a luz fluorescente.
Ele era alto, de ombros absurdamente largos, e se movia com uma leveza que contrastava drasticamente com o seu tamanho. Passos felinos, silenciosos, quase predatórios. O cabelo escuro estava bagunçado, e quando ele finalmente ergueu o rosto, pisquei, desconcertada. Os olhos dele, sob a iluminação direta do teto, reluziam em um tom de dourado âmbar que parecia perigoso demais para ser real.
Ele estava ali por algo mundano, é claro. Caminhou direto para a mesa central de inox, onde o professor de anatomia costumava deixar as revisões de prova para os atletas que precisavam de nota para não serem cortados do campeonato. Ele sequer parecia notar a minha presença no canto da sala.
Incomodada com a forma como o ar de repente tinha ficado escasso e quente, tentei me levantar rápido demais da banqueta alta de metal. Eu só queria pegar minhas coisas e sair dali antes que aquele magnetismo estranho me sufocasse.
Mas o tecido do meu jaleco prendeu em um dos ganchos da mesa.
- Droga - praguejei, sentindo meu corpo se desequilibrar para o lado.
Ao tentar me segurar, meu cotovelo bateu com força na bandeja de inox que sustentava dezenas de lâminas de vidro de minhas pesquisas. A bandeja escorregou da bancada, indo direto para o chão.
O vidro sequer teve tempo de quebrar.
Em uma fração de segundo que desafiou completamente todas as leis da física que eu conhecia, Lucas largou o celular na mesa e se moveu como um borrão escuro. Antes que a bandeja atingisse o azulejo, a mão enorme e calejada dele a aparou no ar. Ao mesmo tempo, o outro braço do atleta envolveu a minha cintura com força, puxando o meu corpo para cima e colando-o contra o dele antes que eu desabasse no chão.
O impacto foi um choque térmico.
Arfei.
Minhas mãos batendo contra o peito de Lucas por puro instinto de defesa. O peito dele era largo, duro como uma parede de pedra, e a temperatura que emanava da pele dele através do tecido do meu jaleco era absurda. Ele parecia estar queimando em febre, exalando um calor visceral.
O coração do atleta bateu em um ritmo pesado, violento, que eu conseguia sentir nitidamente contra a palma de minhas mãos. A pegada dele na minha cintura era possessiva, os dedos cravando-se no tecido com uma força desnecessária, me mantendo presa, erguida do chão.
Lucas travou. O sorriso arrogante que ele exibia segundos atrás sumiu por completo.
A cabeça dele pendeu ligeiramente para o lado, o rosto ficando a poucos centímetros do meu pescoço. As pupilas douradas dele se dilataram de forma assustadora, engolindo quase todo o âmbar dos seus olhos, transformando-os em duas fendas escuras e selvagens. Ele puxou o ar pelo nariz com força, me farejando exatamente onde o spray bloqueador lutava uma batalha perdida para esconder o que estava por baixo.
Um som baixo, gutural e vibrante ecoou do fundo do tórax de Lucas. Não foi um som humano. Foi um rosnado legítimo, pesado, que fez o peito dele vibrar diretamente contra as minhas mãos.
Meu coração disparou em uma velocidade inédita, uma onda de calor desconhecida e assustadora subindo por minha espinha, fazendo minhas pernas amolecerem. Meu corpo inteiro parecia querer se inclinar na direção dele, mas a minha mente racional entrou em pânico.
Assustada com a intensidade animalesca e o perigo que emanava daqueles olhos dourados, reuni todas as forças que tinha e empurrei o peito dele.
- Me solta! - exigi, a minha voz saindo um pouco mais trêmula do que eu pretendia.
Lucas piscou, como se estivesse acordando de um transe profundo, e afrouxou o braço, deixando que meus pés tocassem o chão. Dei dois passos rápidos para trás, ajeitando o jaleco com as mãos trêmulas, tentando desesperadamente recuperar a pose sarcástica que sempre usei como escudo.
- Dá para o astro do basquete me soltar ou você também tem problemas com a gravidade? - disparei, erguendo o queixo, embora meu pulso ainda estivesse martelando na garganta. - E que som esquisito foi esse? Se estiver tendo um ataque de asma, a enfermaria fica no bloco B, não aqui.
Lucas deu um passo atrás, mas não recuou de verdade. Ele estava olhando para a própria palma da mão, a mão que tinha moldado a minha cintura, como se estivesse processando um milagre. Quando ele ergueu os olhos para mim novamente, a postura de garoto popular e brincalhão tinha evaporado. Havia uma seriedade tensa nele, uma imponência predatória que fez o laboratório parecer pequeno demais para o tamanho dele.
Um sorriso de lado, lento, afiado e carregado de uma promessa perigosa surgiu nos lábios de Lucas. Ele pegou o relatório de anatomia da mesa sem desviar os olhos de mim por um segundo sequer.
- Eu não preciso de enfermaria, Bia. - Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre nós, e inclinou o corpo na minha direção até que eu sentisse o hálito quente dele tocar minha orelha. - Mas você deveria começar a se acostumar com a minha presença. Porque eu vou frequentar esse laboratório muito mais do que você imagina.
Sem esperar uma resposta, ele se virou e caminhou em direção à saída. Após a porta bater e o silêncio retornar, desabei na banqueta com as pernas trêmulas. Meu santuário, que antes era o meu paraíso, agora parecia frio demais, vazio demais e estranhamente insuficiente.
O cheiro de álcool e formol, que sempre me trouxe paz, havia perdido a batalha para o rastro de tempestade e floresta que Lucas deixou impregnado nas minhas roupas e na minha pele. O laboratório ainda era o mesmo, mas a invisibilidade que eu tanto prezava agora parecia uma gaiola quebrada.
Levei a mão trêmula ao pescoço, onde o spray bloqueador já não fazia efeito nenhum. O laboratório podia até tentar voltar à sua temperatura gélida, mas por dentro, o calor que Lucas tinha trazido continuava queimando, deixando claro que nenhuma barreira científica seria capaz de apagar a marca que ele tinha acabado de deixar em mim.