Anos. Foram anos inteiros longe deste país, longe da umbra sufocante da Carter e Smith Enterprises, longe do sobrenome que parecia vir carimbado com algemas na minha certidão de nascimento. Eu tinha ido para a Europa respirar, pintar, existir sem precisar prestar contas de cada pincelada. Mas o diploma de artes finalmente estava impresso, emoldurado e garantido. Era para ser o meu recomeço oficial. O momento em que eu mostraria ao meu pai, Adam Carter, que eu não precisava da aprovação dele para vencer no mundo das artes.
- Um brinde à nossa Charlotte - anunciou meu pai, erguendo a taça com aquela postura de aço que parecia incapaz de curvar, mesmo sentado à mesa de um restaurante cinco estrelas. Sua voz ecoou com uma falsa solenidade que me deu arrepios na espinha. - Formada com honras. E, para coroar essa conquista, o retorno definitivo da nossa herdeira para casa. É o início de uma nova era para a nossa família.
Apertei a haste da minha própria taça com tanta força que meus nós dos dedos ficaram brancos. Minha mãe sorriu de forma mecânica ao lado dele, um sorriso ensaiado para a alta sociedade, enquanto o garçom completava as taças ao redor.
- Obrigada, pai - respondi, tentando soar polida, embora o tom saísse seco como papel velho. - Sinto que finalmente posso começar a minha vida. A galeria na SoHo já está com o aluguel engatilhado, os preparativos para a abertura oficial estão a todo vapor, e...
- Sobre a sua galeria, Charlotte - interrompeu meu pai, com aquela calma calculista que antecedia tempestades de categoria 4 na bolsa de valores. Ele pousou o guardanapo de tecido no colo, cruzou os dedos sobre a mesa de mogno e olhou diretamente para mim com seus olhos frios de predador corporativo. - É melhor você colocar esses planos de vernissage em espera por um tempo. Ou melhor, redirecioná-los para algo mais... produtivo.
O silêncio que se abateu sobre a mesa foi instantâneo, pesado o suficiente para esmagar qualquer resquício de alegria que eu ainda pudesse ter. O garçom recuou rapidamente para as sombras, percebendo que a atmosfera havia azedado de vez.
- O que você quer dizer com "em espera"? - perguntei, sentindo o sangue começar a zunir nos meus ouvidos. Minha respiração falhou por um segundo. - Pai, eu passei os últimos quatro anos ralando para abrir essa galeria. O espaço é meu. O projeto é meu.
- O projeto é insignificante perto do que está em jogo agora que você pisou em solo americano - retrucou ele, inflexível, sem demonstrar o mínimo pingo de empatia ou orgulho de pai. Pelo contrário. Ele parecia estar prestes a assinar um contrato comercial qualquer. - Nós não criamos a Carter & Smith do nada, Charlotte. A fusão com os Smith sempre foi a base da nossa hegemonia. E o contrato que garante essa soberania exige uma união definitiva.
Dei uma risada curta, incrédula, embora o som estivesse completamente desprovido de humor.
- Uma união? Do que você está falando? Acabamos de jantar para celebrar a minha formatura, não um acordo de paz medieval. Nós não precisamos fundir mais nada, a empresa está bilionária!
- Empresas bilionárias caem da noite para o dia se a governança familiar for questionada por acionistas majoritários - esbravejou ele, perdendo um pouco da compostura polida. - E os Smith exigiram garantias. Garantias reais.
- Quais garantias, pai? - indaguei, sentindo a raiva começar a ferver na base do meu pescoço, subindo quente pelo meu rosto. Inclinei-me para a frente, encarando-o de igual para igual. - Por que você está falando com essa seriedade toda?
Adam Carter respirou fundo, endireitando o paletó de grife antes de desferir o golpe final, sem um pingo de dó ou hesitação.
- Você vai se casar, Charlotte.
A frase pairou no ar estagnado do restaurante como um veredito de morte.
- Eu... o quê? - sussurrei, sentindo o mundo ao meu redor dar uma guinada violenta. O lustre de cristais acima de nós pareceu girar.
- Você vai se casar - repetiu ele, com uma naturalidade revoltante. - O contrato foi redigido e assinado há exatos vinte e dois anos, quando você nem tinha três anos de idade. Foi um pacto de fundação mútua entre a nossa família e a de Arthur Smith. Uma apólice de seguros em forma de matrimônio para garantir que a liderança do conglomerado permaneça estritamente sob o nosso controle familiar.
Meu estômago despencou em queda livre. A comida que eu havia ingerido parecia chumbo derretido. Minhas mãos começaram a tremer incontrolavelmente, espalhando gotículas de champagne pela toalha de mesa branca. Eu quase tive um troço ali mesmo, sentada na cadeira estofada de veludo. Minha visão escureceu nas bordas por uma fração de segundo, e se não fosse pelo apoio firme que dei nas bordas da mesa, eu teria desabado no chão do restaurante.
- Você... você fez o quê? - gaguejei, a voz saindo fina, estrangulada pela onda avassaladora de pânico e revolta que me consumia por dentro. - Você me vendeu? Antes de eu saber falar o meu próprio nome, você me vendeu para os Smith?!
- Não seja dramática, Charlotte - repreendeu minha mãe pela primeira vez, ajeitando o colar de pérolas com dedos trêmulos, demonstrando que ela sabia de tudo aquilo desde o início. - É uma honra. Você está salvando o legado da família. Milhares de garotas matariam por uma posição dessas.
- Uma posição?! - esbravejei, incapaz de conter o tom de voz, chamando a atenção discreta de algumas mesas ao redor, embora ninguém ousasse se aproximar da mesa dos Carter. - É a minha vida! Eu não sou uma peça de xadrez, eu não sou um ativo financeiro! Eu acabei de voltar para casa! Eu passei anos longe justamente para fugir dessa gaiola dourada que vocês chamam de família!
- Você é minha filha, e o seu dever é com o nosso nome - rugiu Adam, batendo levemente com os nós dos dedos na mesa, impondo aquela autoridade cega que sempre me sufocou. - O contrato estipula que, ao atingir a maioridade e concluir os estudos superiores, a herdeira da família Carter deve oficializar a união com o herdeiro direto da família Smith. A papelada está pronta. A data do civil será marcada para o próximo mês.
O meu coração parecia bater na minha garganta, sufocando-. Eu olhei para o meu pai procurando qualquer vestígio de humanidade, qualquer sinal de que aquilo fosse uma brincadeira de mau gosto, um teste sádico para ver qual seria a minha reação após tantos anos de rebeldia. Mas não havia nada. Apenas a frieza de um CEO analisando um relatório de prejuízos.
- Com quem? - perguntei, com a voz trêmula, embora o fundo da minha mente já estivesse sussurrando a resposta mais aterrorizante possível. - Quem é o infeliz escolhido para essa farsa? Quem é o herdeiro dos Smith que vai assinar essa sentença de morte comigo?
Meu pai desviou o olhar por uma fração de segundo, pigarreando antes de responder, como se soubesse exatamente o tamanho da bomba que estava prestes a detonar.
- Noah. Noah Smith.
O nome caiu sobre mim como um bloco de concreto despencando do décimo andar.
Noah Smith.
O ar sumiu completamente dos meus pulmões. O meu pior pesadelo, materializado em três sílabas malditas.
Não podia ser. Tinha que ser um erro. Uma pegadinha cruel do destino. Qualquer outra pessoa no mundo - um desconhecido qualquer, um velho decrépito, um herdeiro mimado que eu nunca tivesse visto na vida -, qualquer um seria mil vezes preferível àquela opção. Mas Noah Smith? O homem que eu conhecia desde os berços corporativos das nossas famílias? O meu inimigo jurado desde que aprendemos a andar?
A náusea voltou com força total. Lembrei-me imediatamente de todas as vezes em que nossos caminhos haviam se cruzado na infância e na adolescência. Noah era a personificação exata de cada dor de cabeça, de cada humilhação pública e de cada momento de puro ódio que eu havia experimentado na vida. Ele era arrogante, prepotente, dono de um sorriso dissimulado que parecia zombar de tudo o que eu fazia, e possuía uma inteligência fria e cortante que competia diretamente com a minha.
Nós nos odiamos com uma intensidade quase visceral. Na época da escola, antes de eu conseguir me mandar para a Europa, nossas brigas eram lendárias nos corredores da academia exclusiva que frequentamos. Ele havia sabotado o meu projeto de feira de ciências no colegial só para provar que as minhas teorias estéticas eram inferiores à lógica exata dele. Eu havia jogado tinta azul importada no terno de grife dele na festa de encerramento do penúltimo ano. Nós éramos fogo e gasolina, um desastre esperando para acontecer a qualquer segundo, a definição exata de incompatibilidade explosiva.
E agora, o meu pai esperava que eu dividisse a mesma cama, o mesmo teto e a mesma vida com ele?
- Você só pode ter perdido o juízo - sussurrei, sentindo as lágrimas de pura raiva começarem a embaçar a minha visão. Pela primeira vez na noite, eu não estava apenas assustada; eu estava furiosa a ponto de querer quebrar tudo o que estava ao alcance das minhas mãos. - O Noah? Você quer que eu me case com o Noah Smith? Aquele... aquele ser insuportável, arrogante e manipulador? Nós nos odiamos! Nós não conseguimos ficar na mesma sala por cinco minutos sem querer arrancar os olhos um do outro!
- O ódio de vocês é irrelevante diante dos interesses da corporação - retrucou meu pai com um desdém irritante, limpando os lábios com o guardanapo como se estivesse discutindo a cotação do aço. - Negócios são negócios, Charlotte. Os sentimentos infantis que vocês cultivaram na adolescência devem ser deixados de lado. Vocês são adultos agora. Vão agir como tal.
- Eu não vou fazer isso! - gritei, desta vez sem me importar com os olhares assustados dos clientes ao redor ou com a carranca furiosa que meu pai fechou instantaneamente. Empurrei a cadeira para trás com força, fazendo-a raspar estridentemente contra o piso de madeira polida do restaurante. - Você está me ouvindo? Eu recuso! Rasgue esse contrato idiota! Pague a multa, declare falência, faça o que quiser com a porcaria da empresa, mas não me meta nisso!
- O contrato não pode ser rescindido sem a perda de noventa por cento do nosso patrimônio líquido - interveio minha mãe, com a voz gélida, tentando manter a compostura diante do meu chilique público. - Você herdará ruínas, Charlotte. É isso que você quer? Destruir o legado de gerações por causa de um capricho de artista mimada?
- Capricho? - ri histericamente, sentindo as lágrimas finalmente transbordarem e escorrerem quentes pelo meu rosto. O peito doía tanto que parecia comprimido por uma morsa. - Um capricho é querer abrir uma galeria de arte! Ser forçada a me casar com o meu pior inimigo é um cárcere privado com alvará judicial!
- Sente-se, Charlotte - ordenou meu pai, levantando parcialmente da mesa com uma expressão tão sombria que por um segundo eu quase recuei por instinto. A aura de homem intocável que o cercava sempre foi a sua arma mais eficiente. - Você não tem escolha. O acordo já foi aceito pelas duas partes. Noah já foi informado e, surpreendentemente, demonstrou muito mais maturidade do que você ao aceitar os termos impostos para o bem dos negócios.
Aquilo foi a gota d'água.
O fato de Noah ter aceitado aquilo sem pestanejar - ou pior, talvez até com um sorriso cínico no rosto sabendo o inferno que aquilo seria para mim - fez o meu sangue ferver a temperaturas estratosféricas. Ele achava que podia me controlar? Que eu seria apenas mais um troféu obediente na estante de conquistas da família Smith?
- Ele aceitou? - perguntei, a voz saindo num sussurro mortal, carregado de um ranço que acumulava anos de inimizade. - Ah, com certeza ele aceitou. Deve estar achando o máximo poder me transformar na prisioneira dele por puro esporte corporativo. Mas quer saber de uma coisa, pai? Pode avisar ao seu precioso sócio e ao filhinho mimado dele que eles vão precisar me arrastar acorrentada para o altar. Porque por bem? Eu nunca vou aceitar isso.
- Você vai - afirmou Adam Carter, voltando a se sentar com uma calma assustadora, cruzando os braços e me encarando com desdém absoluto. - Porque amanhã mesmo a notícia do noivado será publicada em todos os jornais de economia e sociedade de Nova York. A sua galeria? Esqueça os aluguéis. O imóvel já foi comprado por uma holding subsidiária dos Smith nesta tarde. Se você quiser pintar, vai pintar no estúdio da sua nova casa conjugal.
Fiquei estática. O chão pareceu sumir debaixo dos meus pés pela segunda vez na noite.
Ele havia vendido a minha liberdade, destruído o meu sonho profissional com uma única assinatura e me entregado de bandeja para o meu maior inimigo, tudo antes mesmo da sobremesa.
- Você é um monstro - sussurrei, sentindo o nó na garganta me impedir de continuar respirando direito.
Virei as costas para a mesa, ignorando os chamados autoritários da minha mãe e a ordem seca do meu pai para que eu me sentasse. Saí correndo do restaurante, atropelando os garçons e empurrando a porta giratória para o ar gélido da noite de Manhattan. As luzes da cidade brilhavam intensamente ao longe, mas para mim, naquele exato instante, o mundo inteiro havia se transformado na mais pura e absoluta escuridão. Eu estava de volta, sim. Mas em vez de conquistar a minha liberdade, eu havia entrado direto na cova dos leões. E o pior de tudo: o leão principal estava me esperando de braços abertos.